Uma mulher é uma mulher

Esses dias rolou umas daquelas cenas que provam que a vida é invariavelmente loka. Eu tava no metrô seguindo em direção a Pavuna, terra onde nasci e fui criada até que, papo reto, francamente, aquele chamado descontrolador… bateu. Não podia acontecer num horário mais delicado? Afinal, não havia a menor possibilidade de enfiar as mãos dentro das calças e simplesmente satisfazer aquela vontade ensurdecedora.

 

Para você ver, em pleno 2019 a humanidade já promoveu mais de 29.000 viagens espaciais, criamos a filosofia, a cirurgia de cataratas, a matemática, o chuveiro de água quente, o LSD, o MD e o DMT e, ainda assim, uma mulher não tem o direito de coçar a xereca em paz.

 

Eu cresci vendo homens coçando o pau tranquilamente depois do almoço de domingo, enquanto assistiam banheira do Gugu, ou sentados nos ônibus de pernas abertas com  a mão levemente repousada sobre a piroca como se tivessem chocando um ovo. Naquele momento em que eu me encontrava desesperada, minha vontade real era levantar e fazer um protesto, gritar com bandeiras na mão expressando toda aquela certeza que só revolucionárias ou pessoas de muita fé trazem no peito:

 

“A vagina é um órgão sensível, o clitóris tem mais de 8 mil terminações nervosas, é normal que de vez em quando eu sinta umas sensações e dê vontade de coçar, nem toda vez que a buceta coça é candidìase, caralho!!!!”

 

Mas ao contrário do meu desejo, me mantive muda e congelada, re-calculei a frase que ecoava dentro da minha cabeça e fácilmente cheguei naquela conclusão: “Merda, tô com candidíase!!!”

 

Pirei, depois segui a linha natural da vida: respirei e analisei com mais calma toda aquela situação. A real é que meu corrimento tava normal, sem cheiro, transparente, tranquilão. Mas quem disse que minha mente me dá trégua? Fui de zero a dez em menos de um segundo.

 

“Pode ser herpes! Caramba! Pior, pode ser sífilis! Até porque aumentou em quase 50% o número de casos de sífilis no estado do Rio de Janeiro, principalmente entre os jovens que utilizam drogas sintéticas que mexem diretamente com a líbido.” É, não restava dúvidas: minha xereca coçou durante uma viagem de metrô, só podia ser sífilis.

 

Embora numa medida ampla o cenário seja assustador, se eu pensar no micro sistema que me circula, tem muitas mulheres decididas a desmistificar o corpo feminino, da prática do prazer ao conhecimento anatômico; como cuidar da saúde da vulva para além dos agressivos sabonetes íntimos; as várias “vaginas” que são desenhadas e ganham vida em imagens, tatuagens e souveniers.

 

Das referências que me transformam, sem dúvida uma é a Caroline Amanda e seu trabalho audacioso com o Yoni das Pretas. É extremamente relevante nesse momento em que busco mais intimidade e menos drama na relação entre meu corpo e eu. Sem falar nas preciosas informações disparadas por Maria Chantal, pesquisadora e ampliadora das terapias menstruais, e nos longos papos com a poderosa Andreza Jorge, que pesquisa e promove discussões sobre corpo, prazer e feminismo negro nas favelas e em outros cantos do mundo. Me reconhecer no futuro que essas mulheres estão plantando sempre me salva de situações agonizantes, como essa. 

 

São as mulheres negras que estão definindo o futuro do corpo feminino na cidade do Rio de Janeiro. E sem nós, de fato, não seria possível, pensando na legião de minas que vem dançar comigo nas oficinas de Afrofunk e se entregam a uma nova perspectiva de corpo e de liberdade.

 

Uma coletividade forte produz indivíduos fortes e me vendo nessas mulheres dispostas a encarar de frente os prazeres e os ardores de se manter viva, dentro desse corpo de mulher, só pude deixar minha alma subversiva falar mais alto. Enfiei a mão por dentro da calcinha e cocei minha xereca como se a vida fosse fácil. 

 

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