Um corpo preto e tudo o que ele carrega

Numa cidade em que o governador comemora execuções públicas e libera autorização para que helicópteros de guerra atirem granadas na população, eu sempre fico curiosa para entender o quanto o corpo dos cidadãos pobres somatiza esses problemas e quais doenças podem ser desenvolvidas nesse cenário de guerra. Cresci ouvindo que depressão era coisa de rico, mas observando o ritmo cruel dessa cidade desconfio que seja exatamente ao contrário. Quem cuida da saúde da população favelada do Rio de Janeiro? Com certeza não é o governo, mas acho das ferramentas usadas pelo povo, a fé e a dança são algumas delas.

Aqui a gente samba ou bate a raba pra liberar as toxinas do corpo. Eu mesma, durante muito tempo, usei a dança como única ferramenta de cura. Maconha também, mas esse assunto a gente deixa para outro encontro. 

 

Quando eu me sentia muito feia e pouco desejada, eu joguei a bunda para o alto e fui me curando. Quando eu me senti muito oprimida, eu sacudi o ombrinho e abri o canal do deboche. O funk era um espaço onde meu corpo podia estar vivo e luminoso.

 

Claro que eu não entendia essa filosofia toda de terapias e autocuidado, mas eu sabia que aquela paixão por estar em movimento significava alguma coisa. 

 

Durante muito tempo, a dança foi a única plataforma que eu tinha experimento para reciclar meu corpo. Até que nesta terça feira, o André bateu à minha porta, um homem negro, alto, com voz grave e olhar firme. Depois de uma breve conversa, me mandou tirar a roupa e deitar no colchão que nós colocamos no chão do meu quarto.

 

Embora eu ficasse muito feliz de dizer que o André é um crush, porque não é todo dia que se encontra um homem inteligente de um metro e noventa, não posso afirmar este fato: ele é meu terapeuta. Uma amiga muito generosa me ofereceu uma sessão de massagem tântrica a fim de liberar meu corpo de toda essa tensão que é ser uma preta na cidade do Rio de Janeiro.

 

A massagem tântrica é uma técnica de um povo antigo, que viveu onde hoje é território do Paquistão, e é basicamente uma massagem para despertar o prazer. Uma experiência psicodélica comandada pelo prazer. Eu flutuei, como se eu tivesse entrado numa câmara de orgasmos, onde todo o meu corpo fosse merecedor e com habilidades suficientes para derramar litros e litros de gozo e felicidade. Em algum momento em que aquele homem masturbava minha buceta e eu me contorcia de tesão, eu me perdi e achei que estava numa festa. Lembrei de quando eu danço, lembrei da pressão da caixa de som no meu corpo.

 

Mas diferente do que você possa imaginar, embora tenha sido uma das experiências mais intimistas que vivi, eu queria estar vivendo aquele momento em praça pública, para que a minha cidade observasse e absorvesse um corpo preto se contorcendo de prazer e não de dor.

 

Não existe cura fora do corpo assim como não existe corpo saudável num ambiente de caos. Me deixa sentir, me deixa dançar, me deixa gozar. Parem de nos matar.

 

Coluna da Taísa Machado

2 respostas
  1. Riva
    Riva says:

    È como um gozo eterno ou uma câmara de gozo – como diz – que sua narrativa nos conduz a uma leveza, afetada pela combinação das palavras e a profundidade da experiência de um corpo de mulher negra que sabe gozar da opressão dos cor´pos não-pretos…

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