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Transforme sua dor em palavras

Transforme sua dor em palavras

DMX

Earl Simons é um pré-adolescente preto. O pai abandonou a família antes mesmo dele nascer, e a mãe já não tem mais disposição para ser o arrimo. Para descontar sua raiva e, de alguma forma, tentar colocar o filho na linha, ela o violenta fisicamente. Porém, as marcas das surras não ficam somente no corpo.

Perturbado, o moleque vai buscar refúgio nas ruas de Yonkers, em Nova York. Se abriga em construções abandonadas, e sobrevive com o que arrecada dos roubos e vendas de drogas. Ao mesmo tempo que vive esse turbilhão, tenta fugir da realidade. A cocaína serve de válvula de escape, mas é na música que encontra a esperança.

Apelidado de DMX (Dark Man X), ele faz os primeiros raps com 13 anos. Escrever se transformou num exercício para exorcizar os demônios. A raiva contida (inevitavelmente) tornou-se uma forma de expressão artística, que também se conectava com a personalidade dos cachorros vira-latas abandonados.

Essa ligação era tão estreita, que o motivo dele ter ido parar na cadeia pela primeira vez não foi pela sua boa vontade de salvar um cão preso num ferro-velho. Ao libertá-lo, proprietário do local o denunciou à policia. A ação solidária não o livrou de cumprir de uma prisão juvenil fora de Nova York, onde um tempo depois conseguiu fugir.

Influenciado pelos animais (os quais também foi acusado de maltratar), e a vivência nas gangues, o MC criou uma identidade musical própria, evidenciada na ferocidade das suas rimas, nas letras, fotos, capas de álbuns e audiovisuais. N˜ão por acaso, o cachorro é citado já no sue primeiro single, “Get Me a Dog (1998)”: “Yeah, I’m right here, dog / Where my dogs at? / We right here, dog”(Sim, estou bem aqui, cachorro / Onde estão meus cachorros / Estamos bem aqui, cachorro), diz o refrão de abertura. 

Antes desse, DMX soltou alguns sons (sem muito barulho) por um selo subsidiário da Columbia, que foram essenciais para abrir as portas. Contratado pela Def Jam, o rapper fez sua estreia em 1998 com It’s Dark and Hell is Hot. Rapidamente, atingiu o topo da Billboard por vender mais de quatro milhões de cópias (físicas). Os álbuns seguintes tiveram o mesmo êxito. O sucesso na música, logo o levou para o cinema. Estrelou cinco filmes, dos quais estão “Romeu tem que Morrer” (com Jet Li), “Contra o Tempo”, “Rede de Corrupção” (com Steven Seagal) e “Barra Pesada”. Em 2006 também ganhou seu próprio reality show na BET (“Soul a Man”).

Mesmo conquistando o topo do mundo, ganhando milhões de dólares e se tornado um dos artistas de rap mais influentes do seu tempo, Earl não ficou longe de problemas. O vício tornou-se um dos principais motivos para os desvios. Os problemas com alguns dos 15 filhos, a maioria das mães deles, governo e a polícia também eram constantes. Batia ponto nas delegacias (e penitenciárias). Por essas e outras, a música ficou em segundo plano.

Detalhes dessa jornada de ganhos e perdas são narrados, e abordados com profundidade, pelo próprio Earl Simmons na série documental Music Box, da HBO. Intitulado “DMX: Don’t Try to Understand”, o filme dirigido por Christopher Frierson o acompanha na sua turnê de retorno em 2019, após cumprir um ano de tranca por sonegar impostos. Expor os bastidores da sua vida é uma forma (inconsciente) do “cachorrão” mostrar suas vulnerabilidades. O personagem dá lugar ao ser humano, que comete erros e arca com as consequências.

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Logo no inicio do documentário, a felicidade por voltar à pista, logo dá lugar a tristeza de não poder usufruir grande parte dos rendimentos adiantados – que terá que ser dividido entre pensões e processos.

Muito além dos problemas, o longa vai para particularidades pouco conhecidas de Simmons, principalmente a fé, a sensibilidade, a vivência, a paternidade (nem sempre ideal) e o fortalecimento da sua comunidade, e a inspiração de jovens aspirantes no rap. Num dos momentos marcantes (tem vários, inclusive a cena final), ele conversa com um MC que o aborda e mostra uma letra. DMX se emociona, e o aconselha: “transforme sua dor em palavras”.

Esse é o ponto chave para entender a trajetória, às vezes caótica, de um homem preto que teve que dar seu jeito para lutar contra o sistema para se manter vivo. O abandono e as agressões sofridas na infância, geraram grandes consequências até o dia 09 de abril de 2021, quando faleceu após ficar alguns dias em estado vegetativo por conta do ataque cardíaco que teve, decorrente de uma overdose.

A vida dele não se diferencia da grande maioria de seus pares, que erram e possuem  questões internas a serem resolvidas – reflexo das cicatrizes que carregam. DMX usou suas dores para criar músicas que ajudaram a anestesiar suas próprias feridas – e, consequentemente, daqueles que as ouvem.

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