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Rio de Janeiro: o estado que virou playground de genocidas

“Ser preto não é fraqueza, é força. Nós somos guerreiros, e é assim que tem que ser: vamos lutar pelos nossos.” A frase é de Alexandrina da Cunha Rodrigues, de 42 anos. Alexandrina é uma das milhares de mulheres negras e pobres vítimas “por tabela” da política genocida de segurança pública do Rio de Janeiro. Entre os dias 30 de julho e 6 de agosto, ela viveu uma verdadeira cruzada para provar à opinião pública, ao Judiciário e à Polícia Militar que seu filho era inocente. Na tarde do dia 30, policiais da UPP do Complexo do Alemão plantaram um rádio transmissor junto a Weslley Jacob Rodrigues, estudante de 21 anos. Ameaçaram-no com uma faca, obrigaram ele a utilizar o tal rádio — que testemunhas denunciam ter sido encontrado no lixo, pelos PMs, poucos minutos antes. A partir daquele momento, os pesadelos de Alexandrina e Weslley se tornaram reais: por várias vezes, já tinham avisado que forjariam algo contra o rapaz, além de pará-lo em “revistas de rotina” quase diariamente. 

 

Com o flagrante forjado concretizado, Alexandrina buscou a imprensa. Ao UOL, ela contou que o que moveu sua luta pela liberdade de Weslley foi a cara de “mãe, me ajuda” que o menino tinha ao entrar no camburão. Alexandrina buscou a Defensoria Pública, a imprensa, tentou ter a opinião pública do seu lado e, por fim, conseguiu um habeas corpus para Weslley. Réu primário, empregado e estudante, ele vai responder em liberdade. A noite do dia 6 de agosto foi de alívio para Alexandrina, porque ela conseguiu vencer uma guerra. Mas quantas outras mães, esposas, filhas e sobrinhas — porque quase sempre são elas — não conseguem êxito? Choram em cima de túmulos, sofrem na fila de visita à cadeia, rezam aos pés dos leitos de hospital. Viver no Rio de Janeiro é acordar bem e não saber qual é o inimigo do dia: o tiroteio na esquina, o helicóptero atirando para baixo, o assalto a mão armada, a bala perdida. Não saber de onde ele vem, como vai agir, para onde vamos correr aumenta as chances de perder o jogo. 

 

Gabriel Pereira Alves, de 18 anos, perdeu. Trajado de uniforme escolar e num ponto de ônibus, foi atingido por uma bala dita perdida na manhã de sexta-feira (9). O projétil saiu do Morro do Borel e encontrou os sonhos de Gabriel em frente ao Carrefour da Conde de Bonfim, na Tijuca. A surrealidade do fato fez a amiga, que estava com ele no ponto, pedir: “para de brincadeira”. Mas ele só conseguiu dizer que era sério. Gabriel foi assassinado. Naquela manhã, a Polícia Militar afirmou que foi atacada ao chegar na base da UPP (sempre ela) do Borel, morro mais próximo do local onde Gabriel foi atingido.

Reprodução Facebook.

A mesma PM que disse que Weslley tinha um rádio transmissor no Alemão sem ele ter, disse que não revidou no momento em que foi atacada, se adiantando ao julgamento popular de ter parcela de culpa na morte de Gabriel. O menino sonhava em ser jogador de futebol, namorava, fazia curso de informática. Flamenguista e jogador sub-20 do Olaria, Gabriel morreu sem saber se o seu xará, artilheiro do time de coração, iria balançar ou não o Maracanã ontem à noite e sem jogar a partida que estava marcada para o Olaria na própria sexta-feira. Gabriel foi assassinado porque esse estado não se importa. Gabriel morreu no dia em que seu pai, Fabrício, completou 40 anos. Ao Globo, Fabrício apelou ao governador, na esperança de ter alguma resposta: “Ele devia saber que isso aqui não é videogame para jogar uma bomba lá e os inocentes sobreviverem. (…) A comunidade é nada para ele. Todo mundo é culpado? Não pensa nos filhos das outras pessoas?”.

 

Para Fabrício, e não só, parece que Witzel crê estar jogando uma partida, uma fase, brincando de ganhar um jogo injusto. Mas gerir um estado não é brincadeira de sofá. É coisa séria. 

 

A questão é bem maior do que a UPP do Borel, do Alemão, e atinge mais gente que Weslley e Gabriel. A política genocida que marca o Rio de Janeiro desde sempre está vivendo seu ápice. O governador repete dia sim, dia também que matará sem pudor, num país em que não há pena de morte prevista na legislação, e fincou seus pés na política do “mira na cabecinha”. Não dá para dizermos por quanto tempo mais a política de segurança, focada no extermínio e não no cerne do problema, irá vitimar Weslley, Gabriel, Douglas, Marcos e Vinicius estado afora. Mas sabemos que isso acontece todos os dias, repetidamente. Está acontecendo neste minuto. 

 

E enquanto isso estiver em curso, temos que seguir as palavras de Alexandrina e não abaixar a cabeça. Se a guerra está posta, que lutemos pelos nossos. Mas não podemos esquecer também das palavras de Fabrício e começar a perguntar: Witzel, quando o Rio começará a ser visto mais como um estado complexo e menos como um playground?