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A Casa do Meio e o progresso artístico da Zona Oeste

Um movimento é feito de pessoas. E o resultado disso sempre vem de um centro, um lugar de apoio, de troca e de impulsionamento de tudo e todos que estão ao redor de um objetivo. Um porto seguro. A Casa do Meio representa esse relevante legado na Zona Oeste.

Lucas Sá

Lucas Sá

 

Lucas Sá (@louquera)

De um espaço vago na sua casa, com ajudas e uma grana guardada do seu criador e comandante Rennan Guerra,  surge a Casa do Meio. Além de ser um estúdio de gravação,  a casa se posiciona como um espaço de criação e um verdadeiro polo criativo extremamente importante para os músicos da cena underground da Zona Oeste. Ali rolam filmagens, reuniões e trocas que ajudam e impulsionam os artistas e projetos que são curados dentro da casa. A facilidade que Rennan tem de dialogar com diferentes tipos de clientes – muito por sua vivencia, desde muito novo, sendo roadie de várias bandas de rock que faziam um barulho há 10 anos atrás – e a qualidade na entrega final do produto, que é a música, o faz ter uma percepção diferente e visionária sobre tudo de novo e interessante que possa chamar a sua atenção e resulta em um respeito e admiração dos seus amigos e parceiros.

 

Quando falamos sobre a percepção de Rennan sobre o que está a sua volta, focamos num dos programas de áudio visual que mais prestamos atenção por aqui. O Brasil Grime Show – criado e comandado por Yvie Oliveira, Antonio Constantino, Lucas Sá, Dini, Diego Padilha e pelo próprio Rennan – se posiciona como um dos mais interessantes cases de sucesso no YouTube, muito por conta da identidade empregada no programa e na pesquisa, descoberta e impulsionamento de inúmeros novos artistas da cena urbana carioca. Todo o áudio do programa é gravado, editado e mixado por Rennan e as imagens são captadas dentro do estúdio, gerando interação com o ambiente e fazendo com que todos os artistas que brotam no programa se sintam a vontade como se a gravação fosse na sua própria casa.

 

“O Grime, que era tão desconhecido, acabou salvando a minha vida, pois me deu um ar de empolgação num momento em que eu de fato precisava. Eu to ligado que dá pra melhorar o trabalho, mas tento ser o mais honesto possível e ainda sim a galera compra o barulho do que estamos fazendo aqui no estúdio.”

 

Já passaram por ali Akira Presidente, CHS, Scarlett Wolf, Juju Rude, SD, Leall, Fleezus, PhKbrum entre outros. Kbrum e SD gravaram seus EPs no estúdio e toda a cultura Grime, que era bem pequena no Rio de Janeiro pré Brasil Grime Show, tomou uma outra proporção pós a execução do programa no estúdio. Sem demagogia nenhuma, Rennan acredita que o grime salvou a sua vida por ter lhe dado um ar de empolgação e entusiasmo no momento exato em que ele precisava de um fôlego. Os números no YouTube e os feedbacks positivos do público dão impulso e visibilidade ao trabalho do estúdio e em todos os que estão a sua volta.

Além do Brasil Grime Show e da gravação de vários artistas da cena do grime, o estúdio também é curador do programa “Tem Como Apresenta”. O programa – criado por Mariozin, Lucas Sá, Diego Padilha e por Rennan – tem por objetivo dar palco e visibilidade aos DJs que são crias da Zona Oeste. Ser um “defensor da musicalidade” da Zona Oeste não é um objetivo da Casa do Meio mas o fato é: a escassez de cultura e ações áudio visuais na área é tanta que é inevitável entender o crescimento do estúdio como um ato quase político.

O “Tem Como” é como se fosse um videocast com os DJs fazendo os seus sets autorais, com total liberdade para mostrar os seus trabalhos. Tago, DJ Bala e o próprio Mariuzin já fizeram parte do programa que ainda tem muito mostrar.

O movimento que é feito por pessoas e precisa de um porto seguro, necessita de duas coisas pra seguir em frente e com qualidade. Trabalho e progresso. Executar bem, pensar á frente, manter relações verdadeiras e progredir. Assim que se cria um belo legado. Rennan Guerra e a Casa do Meio vem cumprindo bem esse papel.

AUR, Radar: Felipe Combo e o Blues das Ruas

Felipe Aguiar sempre respirou a rua. Criado pelo Rio de Janeiro, teve experiências em diferentes bairros, um pouco em Honório, em Barros Filho, no Cajueiro, no Teixeiras, no Vidigal, Tabajara e até mesmo em Magalhães Bastos e no Méier. Um suburbano convicto.

 

@edi0ta

 

Crescer em uma favela do Rio de Janeiro não é pra qualquer um. Imagina morar em várias em uma fase tão intensa como a adolescência, conhecendo pessoas, amores, músicas, contato com amigos que morreram, outros que saíram do seu ciclo e uma infinidade de momentos colecionados.

 Felipe começa sua experiência artística no rock, foi escritor e guitarrista da banda A Queda de Ícaro, ali começou sua curiosidade pelo audiovisual. Felipe sempre jogou nas 11 e nessa fase passou a aprender mais sobre produção visual e fotografia.  

 

Teve experiências interessantes passando pelo Esporte Interativo,  Balanço Esportivo e a Calvino Filmes. Apesar de toda essa experiência corporativa, seu principal gatilho para entrar de cabeça na arte foi sua irmã, Maria Andréa de Souza, atriz e uma de suas maiores referências artísticas, como ele mesmo diz.

Nota-se que a vida não caminhou para essa rota apenas com sorte e referências. Felipe passou por diferentes situações perigosas para executar seu corre, a polícia mira em um alvo e na grande maioria das vezes ele é preto, experiência que o artista vivencia todos os dias.

Flamenguista convicto, Felipe viajou para torcer e fez parte da Raça, torcida organizada do seu time de batismo. Uma contribuição gigante na formação de seu caráter e aprendizado sobre a rua. 

Os anos se passaram e Felipe, já como videomaker, começa sua empreitada produzindo material para artistas de renome. Ele lembra de Ludmilla, Wanessa Camargo, Mumuzinho, Jeito Moleque, MV Bill, Thiago Martins, Mellin, Sant, e inúmeros materiais para Banca Records e Original Boca, dois grandes selos do rap nacional.   

 

Felipe é dedicado, um ávido estudante da cultura e a partir dessa necessidade de estudo e prática surge seu projeto pessoal mais importante, o Blues das Ruas.

Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça. Madrugada afora, Felipe registra a rua, sorrisos, lamentos, reflexões, pontos de ônibus, trens, ruas, vielas, amores e a vida como ela é: um grande filme que não termina, vive em todos nós. 

Felipe corre, quer alcançar cada vez mais seus objetivos através da arte, usando seu olhar sobre a vida e o que há nela. O Blues das Ruas toca e ele cria, assim como faz seus vlogs pessoais registrando seu processo de criação, família, aconchego e inúmeros copos de cerveja, criando sempre com um sorriso no rosto. Brindando à vida.

 

 

Todas as fotos são de Edson Jonathan