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O futuro é funk

O futuro, assim como a liberdade, é uma experiência. E o que eu mais curto nessa minha obsessão pelo funk carioca é que ele tá o tempo todo me fazendo sentir aquele friozinho na barriga, aquela ansiedade de saber o que tá rolando de novidade, já que tudo muda e uma onda pode ficar velha depois de três meses de existência. E eu tô sendo muito generosa: o futuro pra massa funkeira é logo ali, muito acelerado.

Este tipo de papo é bom de ter com funkeiro, porque geralmente quem não conhece a cena e ouve a gente dizer que o funk carioca é acelerado, automaticamente pensa nos 150bpm revolucionários que fazem geral chacoalhar os ombrinhos. Mas não dá pra parar por aí. Se eu fosse algum tipo de historiadora de arte eu ousaria dizer que o funk é a linguagem artística brasileira genuinamente afrofuturista, não só por aquelas coisas de estar sempre conectado com a tecnologia e fabricação de equipamentos, mas pela agilidade com que ele busca se transformar all the time.

Estamos no começo de uma nova era no funk carioca e quem não tá vendo é quem não tá interessado. Mais uma vez ele vai dar uma virada triunfal e ficar mais forte e, consequentemente, vai jorrar muito mais dinheiro dessa fonte milionária. Os produtores com o faro aguçado já estão trabalhando firme nessa nova direção.

A diversidade é novo foco do funk e tudo bem, porque é por aí mesmo, né. Uma linguagem pra ficar viva precisa acompanhar os acontecimentos, senão vira folclore.

Em janeiro de 2019 rolou a primeira Parada LGBT dentro de um baile funk de favela no Rio de Janeiro. Ali, um portal que já tava há muito tempo pra se abrir finalmente se rompeu.

As mulheres que estão na linha de frente do movimento desde os primórdios hoje não são mais vozes isoladas. Existe uma mudança de comportamento e vários MCs estão compreendendo que um funk sem misoginia é mais gostoso de dançar, o prazer feminino não fica mais solitário num lugar de reivindicação. Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona e Valeska ensinaram direitinho. Os MCs espertos viram que “Surubinha de Leve” representava um tempo que as minas não aceitam mais, a favela entendeu o recado e está acontecendo, quem curte sabe. Os meninos estão ainda que lentamente mudando os processos de composição e as minas estão firmemente levantando a bandeira LGBT pra dentro da cena. Iasmin Turbininha já não é mais a única abertamente lésbica. São dançarinas, DJs, produtoras, geral saindo do armário, dando visibilidade pras pretas sapatão que curtem funk, sim. Sem falar na dona da porra toda: nossa pepita de ouro, Ludmilla, que desde 2018 escreve e emplaca sucessos na voz de outras funkeiras como “Cai de boca [no meu bucetão]”. Mesmo “vendendo” majoritariamente para o público hétero, também mostrou para o Brasil que o coração da mulher preta bate onde ela quiser!

O cheiro de novos tempos está no ar e daqui há, no máximo, dois anos a heteronormatividade não vai ser mais o único argumento do funk. Quando novos artistas alcançam posições de protagonismo suas ideias vêm junto com eles. E se o funk influencia o bregafunk, o lambadão, o pagodão, o rap e o sertanejo, tudo pode mudar.

Agora vou parar aqui, talvez este texto esteja otimista demais. Enquanto eu fico ansiosa aguardando o primeiro grande sucesso que vai rimar xota com xota, sem o contexto do fetiche masculino. Ou quando finalmente MCs como a Catten, que cantam putaria de bicha preta pra bicha preta ganharem os bailes e as rádios.

O cara que começou o movimento onde os produtores homens abraçam a causa está preso, limitado pela Justiça a construir seu movimento: o DJ Rennan da Penha. Rennan foi quem produziu vários desses sucessos de letra “feminista” e, logo depois de produzir um baile que levou mais 10 mil pessoas a viver a realidade LGBT na favela, declarou que continuaria a produzir eventos nessa pegada. Mas foi injustamente preso.

Na última terça-feira (13) foi divulgada uma carta em que Rennan da Penha agradece aos fãs e artistas amigos pelo carinho e por manterem vivos o seu nome. E por não deixarem o Brasil e o mundo esquecerem que se, por um lado a juventude preta, que empreende no mundo da arte e constrói o futuro cultural do país ainda está detida pelas garras do passado escravagista que o governo insiste em manter vivo, por outro nos mantemos vivos e conscientes. Como diz DJ Rennan da Penha: “O funk não tem fronteiras”.

Liberdade para o Dj Rennan da Penha. Liberdade para a juventude preta, liberdade para o futuro. Nós exigimos, nós alcançaremos.

A Casa do Meio e o progresso artístico da Zona Oeste

Um movimento é feito de pessoas. E o resultado disso sempre vem de um centro, um lugar de apoio, de troca e de impulsionamento de tudo e todos que estão ao redor de um objetivo. Um porto seguro. A Casa do Meio representa esse relevante legado na Zona Oeste.

Lucas Sá

Lucas Sá

 

Lucas Sá (@louquera)

De um espaço vago na sua casa, com ajudas e uma grana guardada do seu criador e comandante Rennan Guerra,  surge a Casa do Meio. Além de ser um estúdio de gravação,  a casa se posiciona como um espaço de criação e um verdadeiro polo criativo extremamente importante para os músicos da cena underground da Zona Oeste. Ali rolam filmagens, reuniões e trocas que ajudam e impulsionam os artistas e projetos que são curados dentro da casa. A facilidade que Rennan tem de dialogar com diferentes tipos de clientes – muito por sua vivencia, desde muito novo, sendo roadie de várias bandas de rock que faziam um barulho há 10 anos atrás – e a qualidade na entrega final do produto, que é a música, o faz ter uma percepção diferente e visionária sobre tudo de novo e interessante que possa chamar a sua atenção e resulta em um respeito e admiração dos seus amigos e parceiros.

 

Quando falamos sobre a percepção de Rennan sobre o que está a sua volta, focamos num dos programas de áudio visual que mais prestamos atenção por aqui. O Brasil Grime Show – criado e comandado por Yvie Oliveira, Antonio Constantino, Lucas Sá, Dini, Diego Padilha e pelo próprio Rennan – se posiciona como um dos mais interessantes cases de sucesso no YouTube, muito por conta da identidade empregada no programa e na pesquisa, descoberta e impulsionamento de inúmeros novos artistas da cena urbana carioca. Todo o áudio do programa é gravado, editado e mixado por Rennan e as imagens são captadas dentro do estúdio, gerando interação com o ambiente e fazendo com que todos os artistas que brotam no programa se sintam a vontade como se a gravação fosse na sua própria casa.

 

“O Grime, que era tão desconhecido, acabou salvando a minha vida, pois me deu um ar de empolgação num momento em que eu de fato precisava. Eu to ligado que dá pra melhorar o trabalho, mas tento ser o mais honesto possível e ainda sim a galera compra o barulho do que estamos fazendo aqui no estúdio.”

 

Já passaram por ali Akira Presidente, CHS, Scarlett Wolf, Juju Rude, SD, Leall, Fleezus, PhKbrum entre outros. Kbrum e SD gravaram seus EPs no estúdio e toda a cultura Grime, que era bem pequena no Rio de Janeiro pré Brasil Grime Show, tomou uma outra proporção pós a execução do programa no estúdio. Sem demagogia nenhuma, Rennan acredita que o grime salvou a sua vida por ter lhe dado um ar de empolgação e entusiasmo no momento exato em que ele precisava de um fôlego. Os números no YouTube e os feedbacks positivos do público dão impulso e visibilidade ao trabalho do estúdio e em todos os que estão a sua volta.

Além do Brasil Grime Show e da gravação de vários artistas da cena do grime, o estúdio também é curador do programa “Tem Como Apresenta”. O programa – criado por Mariozin, Lucas Sá, Diego Padilha e por Rennan – tem por objetivo dar palco e visibilidade aos DJs que são crias da Zona Oeste. Ser um “defensor da musicalidade” da Zona Oeste não é um objetivo da Casa do Meio mas o fato é: a escassez de cultura e ações áudio visuais na área é tanta que é inevitável entender o crescimento do estúdio como um ato quase político.

O “Tem Como” é como se fosse um videocast com os DJs fazendo os seus sets autorais, com total liberdade para mostrar os seus trabalhos. Tago, DJ Bala e o próprio Mariuzin já fizeram parte do programa que ainda tem muito mostrar.

O movimento que é feito por pessoas e precisa de um porto seguro, necessita de duas coisas pra seguir em frente e com qualidade. Trabalho e progresso. Executar bem, pensar á frente, manter relações verdadeiras e progredir. Assim que se cria um belo legado. Rennan Guerra e a Casa do Meio vem cumprindo bem esse papel.

AUR, Radar: Felipe Combo e o Blues das Ruas

Felipe Aguiar sempre respirou a rua. Criado pelo Rio de Janeiro, teve experiências em diferentes bairros, um pouco em Honório, em Barros Filho, no Cajueiro, no Teixeiras, no Vidigal, Tabajara e até mesmo em Magalhães Bastos e no Méier. Um suburbano convicto.

 

@edi0ta

 

Crescer em uma favela do Rio de Janeiro não é pra qualquer um. Imagina morar em várias em uma fase tão intensa como a adolescência, conhecendo pessoas, amores, músicas, contato com amigos que morreram, outros que saíram do seu ciclo e uma infinidade de momentos colecionados.

 Felipe começa sua experiência artística no rock, foi escritor e guitarrista da banda A Queda de Ícaro, ali começou sua curiosidade pelo audiovisual. Felipe sempre jogou nas 11 e nessa fase passou a aprender mais sobre produção visual e fotografia.  

 

Teve experiências interessantes passando pelo Esporte Interativo,  Balanço Esportivo e a Calvino Filmes. Apesar de toda essa experiência corporativa, seu principal gatilho para entrar de cabeça na arte foi sua irmã, Maria Andréa de Souza, atriz e uma de suas maiores referências artísticas, como ele mesmo diz.

Nota-se que a vida não caminhou para essa rota apenas com sorte e referências. Felipe passou por diferentes situações perigosas para executar seu corre, a polícia mira em um alvo e na grande maioria das vezes ele é preto, experiência que o artista vivencia todos os dias.

Flamenguista convicto, Felipe viajou para torcer e fez parte da Raça, torcida organizada do seu time de batismo. Uma contribuição gigante na formação de seu caráter e aprendizado sobre a rua. 

Os anos se passaram e Felipe, já como videomaker, começa sua empreitada produzindo material para artistas de renome. Ele lembra de Ludmilla, Wanessa Camargo, Mumuzinho, Jeito Moleque, MV Bill, Thiago Martins, Mellin, Sant, e inúmeros materiais para Banca Records e Original Boca, dois grandes selos do rap nacional.   

 

Felipe é dedicado, um ávido estudante da cultura e a partir dessa necessidade de estudo e prática surge seu projeto pessoal mais importante, o Blues das Ruas.

Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça. Madrugada afora, Felipe registra a rua, sorrisos, lamentos, reflexões, pontos de ônibus, trens, ruas, vielas, amores e a vida como ela é: um grande filme que não termina, vive em todos nós. 

Felipe corre, quer alcançar cada vez mais seus objetivos através da arte, usando seu olhar sobre a vida e o que há nela. O Blues das Ruas toca e ele cria, assim como faz seus vlogs pessoais registrando seu processo de criação, família, aconchego e inúmeros copos de cerveja, criando sempre com um sorriso no rosto. Brindando à vida.

 

 

Todas as fotos são de Edson Jonathan

“Não existe conhecimento se não for compartilhado” – provérbio Bambara- Mali

Listo aqui 10 livros que fizeram e continuam fazendo a diferença na minha vida, livros de ficção, de não ficção, poesia e de quebra, um livro sobre a história do Rap no Brasil.

1. Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves
Meu livro de cabeceira, já dei ele de presente diversas vezes e está sempre presente em minhas indicações pelo simples motivo de: se você quiser entender um pouquinho da vida das nossas ancestrais, está aí uma oportunidade sem igual. Ana Maria Gonçalves escreve como poucas. Muito amor.

2. Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie
Ifemelu ❤. É a síntese de várias de nós… Nas descobertas capilares, nos desejos internos, nos conflitos que nos fogem, nas escritas intrínsecas e no racismo sofrido cotidianamente. Update: Leia os outros livros da Chimamanda com destaque especial para Hibisco Roxo.

3. Guerreiras de natureza: mulher negra, religiosidade e ambiente – organizado por Elisa larkin Nascimento
Com textos de Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento e muitos outros, Guerreiras faz uma costura primorosa entre ancestralidade, sagrado e mulher negra. recomendação para estudos e pra vida. É de mãe Beata de Yemonjá a frase: Gotas de água juntas se transformam em chuva.

4. Olhos D’água – Conceição Evaristo
Ler Conceição é quase como ouvi-la falando baixinho. Sabe vó quando penteava nossos cabelos, quando sentávamos no chão, entre suas pernas? É isso. Os contos são duros, violentos, potentes porém recheados de uma doçura e de uma delicadeza que só Conceição Evaristo tem. Prepare o seu coração.

5. Utopias de nós desenhadas a sós – Ana Luiza Pinheiro Flausina
Me apaixonei pela Ana Luiza ao ouvi-la em 2015 falando sobre a sua tese Corpo Negro Caído no Chão. Poder, eu não consigo pensar em outra palavra pra descrevê-la. As histórias de seu livro seguem essa mesma descrição… Potência, beleza e muita fúria. Apaixonante.

6. Quando me descobri negra – Bianca Santana
Bianca Santana é de uma delicadeza que me encantou quando a conheci, porém conheci muito mais dela ao lê-la… Quando me descobri negra é um misto de estórias, com histórias e partos, pois sabemos enquanto mulheres negras, que cada história de racismo vivida é como um dor que só sai a força. Micro-histórias com ilustrações incríveis de Mateus Velasco. É uma lindeza só.

7. O espírito da intimidade – Sobonfu Somé
Esse é um dos livros mais difíceis, mais caros, no sentido de afeto, que eu já indiquei, porque ele nos ensina sobre a forma dos Dagara (tribo do Continente Africano) de viver o relacionar-se, esse relacionar-se é com nós mesmas, com a nossa família, com os amigos, enfim, com a comunidade e a gente sabe o quanto é difícil se desvencilhar dos nossos maus hábitos.

8. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil – Sueli Carneiro
Sueli Carneiro reúne neste livro uma série de artigo publicados no Correiro Brasiliense entre 1999 e 2010, mostra com dados e estatísticas como e por quais meios o racismo segue tentando nos exterminar dia após dia.

9. Entre o mundo e eu – Ta-Nehisi Coates
Um dos melhores livros que li. Ta-Nehisi Coates escreve para seu filho de 15 anos sobre como o racismo age de forma a atacar principalmente o corpo negro e as consequências de ser negro nos dias de hoje. Pungente e apaixonado, me deixou apavorada ao constatar que seja lá nos EUA ou aqui no Brasil, o nosso corpo é alvo. O tempo todo.

10. Se liga no som: as transformações do rap no brasil – Ricardo Teperman
Ah, o rap! Esse danado ❤. Essa indicação é pra ficar por dentro da cena do rap no brasil, como surgiu, quem foram seus expoentes, qual legado, quem tá na pista hoje e que caminhos o rap ainda vai trilhar. De Racionais a Dalasam. Esse livro é aula.

E vocês, quais livros indicam?