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Uma mulher na rua com a câmera na mão: Cassiandra Azevedo.

Falar sobre representatividade e entender a importância do papel de cada jornada é saber que fazer arte é ter uma missão: ser sincero e verdadeiro com aquilo que é colocado no mundo sob seus olhos.

Cassiandra Fernandes de Azevedo nasceu em Sulacap, no Rio de Janeiro. Ao longo da vida morou e teve experiência em vários locais da Zona Oeste da Cidade Maravilhosa. Ela me fala sobre as férias no Recreio e sua experiência com o surf, a praia e o esporte. Conta como foi crescer sendo a única mulher no meio de espaços ocupados em sua maioria por homens. 

 

Em 2012, Cassiandra se muda para Realengo e, entre diversas experiências, se vê em uma nova fase, com mais responsabilidades no âmbito familiar. Foi um período de descoberta pois Cassiandra passa a se conectar cada vez mais com o espaço urbano e desenvolve autoconhecimento tendo sua mãe, Roselice Fernandes Santos, como um grande espelho

Cassiandra sempre teve muita influência da estética fotográfica de moda, produtos e comportamento. Ela cita a Vogue e seus editoriais como grande influência para o estudo e prática, surgindo a partir daí o questionamento: Por que raramente as mulheres são vistas como produtoras ativas de arte?

 

Ainda sobre essa época, a fotógrafa me fala sobre a importância de estar fora de casa, estar produzindo material a todo vapor e parar em casa apenas para recarregar as energias para a próxima batalha. Apesar de ser uma amante da correria, Cassiandra nunca descartou o espaço litorâneo, sempre fazendo uma grande ponte entre a praia e a rua.

 

Na juventude, Cassiandra organizou e produziu eventos de slackline, sendo uma das primeiras mulheres do Rio de Janeiro a competir pelo esporte. Mesmo dentro de um círculo fechado, sempre fez a diferença, sendo uma mulher de atitude entre os homens. Isto foi de grande importância, pois passou a gerar representatividade para suas amigas e outras mulheres.

 

Infelizmente, Cassiandra não seguiu no esporte. Ela comenta que talvez foi pelo conservadorismo da família na época e por estar vivendo uma fase de evolução pessoal, dando passos que ela ainda não imaginava que daria. Assim, sua experiência na fotografia passa a se tornar cada vez mais prática, produzindo material para seus amigos do esporte, apresentando sempre um olhar decidido.

Nesse mesmo período, Cassiandra passa a fechar parcerias com lojistas de biju, revistas e comércio local, como o Brownie do Luiz, oferecendo um direcionamento e olhar artístico para seus produtos, mesmo com baixo orçamento e pouca estrutura de equipamentos. Passa sua visão para frente, mas ainda sentindo que faltava algo para chegar em seu melhor aproveitamento criativo.

 

Entre 2016 e 2017 a vida de Cassiandra tem um ponto de virada. Ela começa uma empreitada no ramo fotográfico de biquínis e vestuário de banho feminino. Passa a lidar diretamente com grandes marcas, passando assim a expandir sua visão de negócios e se conectar com suas raízes, sendo uma mulher preta e entendendo a necessidade de contribuir para a cultura.

 

Sua correria passa a se expandir para além da Zona Oeste, quando ela é abraçada por Júnior Negão e o coletivo Ghetto Run Crew, onde passou por experiências de grande importância para seu amadurecimento, visualizando por meio da filosofia da Crew um universo muito mais amplo que aquele apenas de praia. Cassiandra se assume como parte dos dois pólos.

 

Ainda em 2017, Cassiandra começa a produzir para a Ghetto Run Crew e, no meio disso, também começa a desenvolver suas próprias exposições fotográficas, fruto dessa experiência com a rua e a comunicação. A fotógrafa neste mesmo período realizou produção de marcas importantes no streetwear nacional como a Pormenor e a Oss company, além de parcerias importantes, como a modelo Deise Nicolau.

 

Um ano de correria vem junto de grandes conquistas. Cassiandra leva sua exposição, totalmente voltada para o olhar da cultura periférica, para o Fashion Mall, Cidade das Artes e outros locais, sempre mesclando fotografia, rua, arte e moda.

Sempre exercendo sua criatividade, Cassiandra passa a não se limitar somente na fotografia de produtos ou a camada mais básica da moda. Ela pega sua experiência com players de todos os tipos e, a partir daí, uma aceitação pessoal cada vez maior floresce. Cassiandra passa pela transição capilar, raspa seu cabelo, antes sempre alisado, e se torna cada vez mais forte justamente por se conectar com histórias de mães pretas que passaram por este mesmo processo.

Neste ano um convite surge, Cassiandra realiza outra exposição pessoal Wiews  no SOMA em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Já nascendo a partir dessa ideia o seu Streetz Rio, um projeto visual que buscando fugir da rotina que a cidade apresenta, fotografando como uma nômade em cada lugar que passa. 

 

No meio desse turbilhão de produções e experiências, Cassiandra começa a interagir no rap através da Vivi Cunha, uma grande amiga, e cria conexões com a Medellin Records. Passa a entender que seu espaço é a rua e a liberdade, não devendo se ater apenas a uma produtora como se fosse todo. A fotógrafa cita Wilmore como um grande amigo nessa busca pelo aprendizado e amadurecimento de olhares sobre a fotografia de rua.

 

Em 2018 ela passa a desempenhar um trabalho de grande importância para sua graduação de Marketing. Desenvolveu um papel de fotografia, gestão de imagem e comunicação do Kazarão Music Studio e a Rádio Otra Vibe na Vila Vintém por cerca de sete meses.

 

Em 2019, Cassiandra  já se formou em Marketing. Ela assume essa formação como uma grande vitória, principalmente para uma família conservadora que, em momentos pontuais da vida, não lhe deu crédito. Assim, passa a ter mais força em seus projetos pessoais.

 

Cassiandra, nos dias de hoje, está em uma espécie de laboratório criativo para a realização de novas exposições, como de seu projeto Streetz Rio, além de ter sido a primeira fotógrafa de uma recente e polêmica ascensão no trap carioca, o Meno Tody. Com uma visão ampla e entendendo seu lugar de fala, Cassiandra dá passos largos na busca pela essência pessoal pela arte, ser ela mesma.

 

*Todas as fotos são de Edson Jonathan

O futuro é funk

O futuro, assim como a liberdade, é uma experiência. E o que eu mais curto nessa minha obsessão pelo funk carioca é que ele tá o tempo todo me fazendo sentir aquele friozinho na barriga, aquela ansiedade de saber o que tá rolando de novidade, já que tudo muda e uma onda pode ficar velha depois de três meses de existência. E eu tô sendo muito generosa: o futuro pra massa funkeira é logo ali, muito acelerado.

Este tipo de papo é bom de ter com funkeiro, porque geralmente quem não conhece a cena e ouve a gente dizer que o funk carioca é acelerado, automaticamente pensa nos 150bpm revolucionários que fazem geral chacoalhar os ombrinhos. Mas não dá pra parar por aí. Se eu fosse algum tipo de historiadora de arte eu ousaria dizer que o funk é a linguagem artística brasileira genuinamente afrofuturista, não só por aquelas coisas de estar sempre conectado com a tecnologia e fabricação de equipamentos, mas pela agilidade com que ele busca se transformar all the time.

Estamos no começo de uma nova era no funk carioca e quem não tá vendo é quem não tá interessado. Mais uma vez ele vai dar uma virada triunfal e ficar mais forte e, consequentemente, vai jorrar muito mais dinheiro dessa fonte milionária. Os produtores com o faro aguçado já estão trabalhando firme nessa nova direção.

A diversidade é novo foco do funk e tudo bem, porque é por aí mesmo, né. Uma linguagem pra ficar viva precisa acompanhar os acontecimentos, senão vira folclore.

Em janeiro de 2019 rolou a primeira Parada LGBT dentro de um baile funk de favela no Rio de Janeiro. Ali, um portal que já tava há muito tempo pra se abrir finalmente se rompeu.

As mulheres que estão na linha de frente do movimento desde os primórdios hoje não são mais vozes isoladas. Existe uma mudança de comportamento e vários MCs estão compreendendo que um funk sem misoginia é mais gostoso de dançar, o prazer feminino não fica mais solitário num lugar de reivindicação. Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona e Valeska ensinaram direitinho. Os MCs espertos viram que “Surubinha de Leve” representava um tempo que as minas não aceitam mais, a favela entendeu o recado e está acontecendo, quem curte sabe. Os meninos estão ainda que lentamente mudando os processos de composição e as minas estão firmemente levantando a bandeira LGBT pra dentro da cena. Iasmin Turbininha já não é mais a única abertamente lésbica. São dançarinas, DJs, produtoras, geral saindo do armário, dando visibilidade pras pretas sapatão que curtem funk, sim. Sem falar na dona da porra toda: nossa pepita de ouro, Ludmilla, que desde 2018 escreve e emplaca sucessos na voz de outras funkeiras como “Cai de boca [no meu bucetão]”. Mesmo “vendendo” majoritariamente para o público hétero, também mostrou para o Brasil que o coração da mulher preta bate onde ela quiser!

O cheiro de novos tempos está no ar e daqui há, no máximo, dois anos a heteronormatividade não vai ser mais o único argumento do funk. Quando novos artistas alcançam posições de protagonismo suas ideias vêm junto com eles. E se o funk influencia o bregafunk, o lambadão, o pagodão, o rap e o sertanejo, tudo pode mudar.

Agora vou parar aqui, talvez este texto esteja otimista demais. Enquanto eu fico ansiosa aguardando o primeiro grande sucesso que vai rimar xota com xota, sem o contexto do fetiche masculino. Ou quando finalmente MCs como a Catten, que cantam putaria de bicha preta pra bicha preta ganharem os bailes e as rádios.

O cara que começou o movimento onde os produtores homens abraçam a causa está preso, limitado pela Justiça a construir seu movimento: o DJ Rennan da Penha. Rennan foi quem produziu vários desses sucessos de letra “feminista” e, logo depois de produzir um baile que levou mais 10 mil pessoas a viver a realidade LGBT na favela, declarou que continuaria a produzir eventos nessa pegada. Mas foi injustamente preso.

Na última terça-feira (13) foi divulgada uma carta em que Rennan da Penha agradece aos fãs e artistas amigos pelo carinho e por manterem vivos o seu nome. E por não deixarem o Brasil e o mundo esquecerem que se, por um lado a juventude preta, que empreende no mundo da arte e constrói o futuro cultural do país ainda está detida pelas garras do passado escravagista que o governo insiste em manter vivo, por outro nos mantemos vivos e conscientes. Como diz DJ Rennan da Penha: “O funk não tem fronteiras”.

Liberdade para o Dj Rennan da Penha. Liberdade para a juventude preta, liberdade para o futuro. Nós exigimos, nós alcançaremos.