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Minha Primeira Música – Caio Lima

Minha memória não permite que eu chegue à primeira música que tenha despertado meus sentidos para a arte que viria a ser tão importante — e necessária — na minha curta e agitada estadia neste plano. Músicas se empilham e conquistam espaços nas prateleiras da memória, ganhando, também, proporções e importância inerentes aos nossos momentos. Num desses casos, me lembro de meu pai e a nossa rotina de ver filmes que ele escolhia, acredito, para que me servissem como exemplo. Coisas de uma vida corrida. A rotina não permitia que tivéssemos muitos momentos juntos, talvez por isso eu guarde esses momentos tão vívidos na memória; talvez por isso a urgência dele em se utilizar de modelos pré-fabricados para incutir alguns conceitos que ele considerasse necessários, uma maneira expressa de me transmitir lições quando possivelmente nem ele mesmo soubesse o que era necessário para educar uma criança. A transição de século foi um período difícil para determinar limites e tangenciar metas e modelos para uma boa educação, diga-se de passagem.

Fim de 1999, num dia de férias qualquer com muito calor; o calor seco que só Campinas (SP) foi capaz de me proporcionar. Meu pai chegou com o pacote de fitas semanal que ele costumava locar. Anunciou que não precisaria sair às 16h de casa para ir pré-trabalhar, naquele dia ele só trabalharia. Logo emendou dizendo que trouxe um filme importante, que queria ver comigo e não poderia esperar muito tempo. Meus pais nunca me negaram acesso a absolutamente nada. De cultura a violência — Campinas era a cidade mais violenta do país à época segundo os jornais —, tudo sempre me foi explícito (dentro do que ambos considerassem “didático”, claro). O filme era o novo do Denzel Washington, cujo eu já sabia ser um baita ator e um dos preferidos do meu velho, que remontava a vida de um boxeador injustamente acusado de assassinato, tendo 19 anos da sua vida tomados pela lei americana; ou por seus cumpridores inveterados. E racistas.

É interessante lembrar de como as noções de estereótipo habitam nosso imaginário desde quando nem temos o mínimo de consciência sobre aquilo que fazemos. Lembro perfeitamente do começo do filme e da sensação de estranhamento causada por uma música atípica para uma história trágica, de dor e redenção. Nada de orquestra, nada de tristeza. A música tinha um certo suingue. Esquisito para ser a introdução de um drama biográfico, mas era o que era. A voz do intérprete meio raivosa, falando sem parar por cima daquela melodia que eu já havia escutado em algum disco do meu velho. Ele sempre gostou dessa linha meio country norte-americano, até modão de viola ele ouvia, aqueles sertanejos clássicos — e eu aprendi a ouvir com ele, lógico. O filme não começava, que aflição. Eram flashes do Denzel com a música de fundo. Quase dez minutos assim. Eu meio que queria avançar o filme e ao mesmo tempo estava completamente inebriado pela sensação esquisita que o som me proporcionava. Era muita música, literalmente. E eu já não fazia questão de entender a relação estranha entre a música e o filme.

O filme acabou e, como sempre, meu pai ligou o modo sermão dele. Me alertou para a anormalidade das “brincadeiras” que crianças praticam, sobre como a lei pode ser falha e por isso era importante andar limpo e perto de “bons exemplos” (seja lá o sentido que bons exemplos tinha para ele na época), e, principalmente, sobre racismo e suas diferentes manifestações. Eu não abri a boca para nada, a não ser para concordar e perguntar que música era aquela do filme, interminável e aparentemente fora de contexto. Poucos dias depois meu pai apareceu com o disco Desire, do Bob Dylan, e lá estava a música, primeira do disco. O encarte não veio traduzido, mas um amigo do velho deu uma mãozinha com a tradução. E então tudo ficou mais claro e ainda mais inacreditável. Foram semanas movido à Bob Dylan e curiosidade.

Hoje consigo reconhecer a importância — e paciência — que meu pai, no caso, teve em responder às minhas dúvidas inabaláveis e não brecar minha curiosidade. Eu passei a ter acesso a esferas de conhecimento interessadas em subverter a ordem das coisas e que fazem as conexões entre as artes que hoje me são tão valiosas, raízes do meu trabalho com literatura. Por isso fui um dos orgulhosos com o Nobel de Literatura conquistado por Dylan, inclusive. Hurricane não é um hino, um libelo pela liberdade, apenas. Composições como essas são libertadoras de verdade, capazes de suscitar questionamentos amplos, além da condição do injustiçado Rubin “Hurricane” Carter. Ninguém acredita no isolamento dos repetidos casos idênticos ao (ou piores que) de Rubin e no comportamento idôneo da justiça. Hurricane explicita verdades à prova de balas que funcionam para mim, até hoje, como um refúgio quando me deparo com a loucura do meu tempo presente. O poder de uma boa história aliada a uma boa música é revolucionário. Isso me soa tão conceitual quanto atual.

Caio Lima -Dono do blog Rede de Intrigas e editor no site RAPRJ.

Sobre bloqueio criativo, síndrome do impostor e inseguranças

O famigerado papel em branco te encara, o tempo continua passando e aquela inspiração que você precisa não chega. O que fazer? Os prazos estão acabando, a agonia se intensificando, e as metas que você estabeleceu não estão sendo cumpridas. O que fazer?

Tem dias que você vai escrever sobre tudo e qualquer coisa, que as ideias irão pular pelos dedos aos borbulhões, que escrever será o ato mais fácil a se fazer. Outros não. Cada palavra será retirada a força, cada folha escrita, rasgada e jogada fora, cada parágrafo apagado sem dó, isso quando vc conseguir romper com a barreira do papel em branco.

A escritora Aline Valek fala sobre as armas das pessoas criativas aqui. Algumas dicas que tirei de lá e adequei a minha realidade:

1 Não espere a inspiração chegar. Comece. Agora.
2 Repertório ou bagagem criativa. Você aí, sim, você mesmo. Pare de rolar o feed do facebook e/ou instagram e vá ler, aprender, ver ou ouvir algo que aumente a sua carga para as escritas futuras. Se alimente de inspiração.
3 Se você tem um campo de interesse, se aprofunde nele, colha cada vez mais materiais de estudos e de diversas fontes distintas, se não quer ler sobre, assista a vídeos, escute podcasts e tente linkar fontes diversas para formar seu próprio entendimento sobre esse assunto.
4 Associação de ideias, linkar ou mixar. Faça a sua maneira, certamente seu cérebro possui um mecanismo de junção de coisas aparentemente desconexas. Comigo funciona na aula de inglês, como assisto muita série legendada e ouço muita música em inglês, quase sempre rola livre associação entre uma expressão nova e uma frase que ouvi em alguma letra ou diálogo.
5 Flow ou como falamos na comunicação: Brainstorm. Sem julgamentos, seu o do outro – sim, sei que é difícil. sei mesmo, confia, porque também ajo assim, toda acusatória comigo mesma – deixe fluir, daquela ideia mais estapafúrdia, pode surgir um texto/tema legal. Aline já deu a dica: seja água.
6 O mais difícil: Paciência. O seu tempo. Do seu jeito. Tudo está tão rápido que paciência está quase que escassa no mercado. Tudo é pra ontem, pra já. Maturar quase que não é mais um verbo. Achar o seu tempo será o mais difícil, quase tão difícil quanto não se comparar com outra pessoa.

Isso me leva ao outro tópico, a Síndrome do impostor.

Sabe aquela sensação de estar num lugar ao qual você acha que não pertence? Aquele convite que você recebe para falar em algum lugar sobre um assunto que você domina, que você estuda mas que quando você se depara com a situação que vai te expor, você pensa: Eu não sei nada, é agora que vão descobrir que sou uma fraude?

A Síndrome Impostor é como os especialistas normalmente se referem à crença persistente de que você chegou ao ponto onde você está não através de suas próprias habilidades ou trabalho duro, mas tendo sorte e basicamente enganando as pessoas para que elas pensassem que você é melhor do que você é.

Essa sensação de inadequação, de estar num lugar que não é seu, de ser uma fraude. Essas sensações sempre vem acompanhadas de uma carga gigante de ansiedade e insegurança.

A Gabi Oliveira nesse vídeo traz um questionamento primordial sobre como os estudos sobre a síndrome embora possua dados de gênero, não entrecruzam esses dados com raça, porque sabemos bem, que escutamos desde crianças o quanto temos que ser boas, pelo menos 2x melhor.

O buzzfeed dá 17 dicas de como lidar com a síndrome aqui.

Falar sobre bloqueio criativo e síndrome do impostor, me levou ao terceiro tópico: A insegurança.

Eu acompanho um escritora americana pelo instagram chamada Alex Elle. Ela escreve sobre autocuidado, auto celebração e amor próprio, e eu costumo chamar ela de Minha Mentora, pois ela me coloca nesse lugar de ok, não preciso saber sobre tudo, não preciso ter todas as respostas, preciso relaxar e principalmente: tenho que respeitar meu tempo, a minha escrita.

O que me leva a essa nota que ela escreveu há pouco tempo:

“Notas sobre não saber.
A maior parte do tempo não faço ideia do que estou fazendo, só estou tentando descobrir e viver uma vida boa. E, as vezes, isso é o suficiente.
Temos tendência a colocar tanta pressão sobre nós mesmas para ter a certeza e para saber os próximos passos, mas por vezes, pode ser melhor ir e aprender ao longo do caminho.
Sem pressão, apenas a vontade de mostrar e descobrir o que está do outro lado…
Há poucas pessoas que admitem que não tem certeza. Se aprendi alguma coisa nessa vida, é que até o que pensamos que sabemos pode mudar.
Os sentimentos mudam, as perspectivas evoluem e o crescimento nos torna maleáveis de formas que podem fazer com que as nossas certezas se desenrolem.
E não faz mal. Não temos que saber sempre qual o próximo passo. Haverá momentos na vida em que temos que entrar no desconhecido e encontrar maneiras de aprender.
Tatuado no meu braço tenho: Encontre a tua luz. E isso é algo que faço diariamente.
Encontrar-me no meio do não-saber e viver para aprender é o que eu uso para me apoiar em momentos de incerteza”.

Espero que essas dicas, esse vídeos e esse texto sirvam para te mostrar que você não está sozinha e que essas inquietações que te assombram, elas pairam sobre todas nós, mas que compartilhando das nossas incertezas, as nossas dúvidas, quem sabe possamos nos fortalecer e fazer uma rede onde o que me potencializa, pode te potencializar também, afinal, já passamos de fase de tentarmos ser supermulheres. Só queremos Ser.

Ser quem nós quisermos ser.

A produção inovadora de Gabriel Marinho

Músico, produtor musical, compositor, DJ e gestor de conteúdo. Gabriel Marinho é uma das figuras mais presentes nos palcos, estúdios e escritórios do music business carioca. Com uma identidade única, suas produções vem inovando o cenário brasileiro, e abrindo caminhos em expressões urbanas como o Afrofuturismo.

Nascido em Salvador Bahia, Gabriel teve um contato fundamental com a percussão de sua terra ainda na infância, quando vivia na cidade de Castro Alves no recôncavo baiano, tornando-se baterista e percussionista autodidata. Ao se mudar para o Rio de Janeiro conheceu a cultura hip-hop, e na adolescência começou a produzir beats de rap. Após uma viagem de retorno a Salvador passou a utilizar sua habilidade com os tambores para criar sua identidade fincada em suas raízes baianas e africanas, influenciado por Ilê Ayê, Luiz Melodia, Ebo Taylor, Peter Tosh, indo até Madlib, Parteum e Flying Lotus.

Acumulando colaborações com nomes como Angélique Kidjo do Benin, 3 vezes ganhadora do Grammy, com quem se apresentou na Roundhouse em Londres no dia 12 de Novembro, Tássia Reis, no premiado álbum “Outra Esfera”, André Sampaio com quem co produziu a trilha da exposição “Povo Insônia” do grafiteiro Toz, e com quem apresenta o programa Mandinga Beat na rádio online Blá FM. Excursionou por Paris com os artistas Carta na Manga e Descolados, onde palestrou no CentQuatre (104) maior centro de cultura urbana da Europa. Durante as Olimpíadas do Rio 2016 foi DJ exclusivo da delegação Alemã na Deutsche Haus, e já assinou trabalhos com Aori, Donatinho, Julia Vargas, BK’, Zola Star (Congo) e Folakemi (Inglaterra), entre outros. Dirigiu e compôs o autoral curta/EP “Rumpi Mondé”, exibido em países como Kenya, México, USA e França e em diversas cidades brasileiras.

(Rumpi Mondé 2013 – Filme dirigido e trilha composta por Gabriel Marinho)

Nyl Mc e o seu “Afronta”

Direto de Irajá, Zona Norte do Rio, Nyl MC lança seu mais novo clipe “Afronta”. Integrante do selo #NovaBlack Produções, do grupo de rap Olola Fa e do coletivo Resistência Cultural, o artista mostra em seu novo trabalho a potencialidade das culturas que possuem matrizes africanas.

Com uma letra agressiva e desafiadora, aliada a performances que mergulham na ancestralidade das danças afro, passando pela capoeira e ao passinho do Funk, o clipe vem ressaltar a importância da população negra na construção da cidade do Rio de Janeiro. Através da empatia e do direito a diferença de cada indivíduo, também se torna um chamado para a luta contra o racismo.

Transpiro o conflito que passa na pele

O instrumental da música é produzido por Gabriel Marinho, músico e produtor baiano radicado no Rio, que imprime na faixa seus conhecimentos como percussionista e de beatmaker. DJ Row G, fundador do selo NovaBlack, foi o responsável pela mixagem e masterização. O clipe foi produzido pela Berro e teve direção de Priscila Martinho.

Nyl está em atividade desde 2007 e vem a cada dia se destacando. Em 2016 se apresentou em um dos palcos oficiais dos Jogos Olímpicos com seu show “Um Novo Amanhecer”, onde apresentou pela primeira vez a música “Afronta” e mostrou não só a sua evolução como artista, mas também o que virá no seu próximo disco “A.L.M.A.”, previsto para 2018.

Assista ao clipe Afronta

Reage, Vogue!

É provável que durante a leitura você fique pensando “novembro tá quase acabando e ela só veio falar disso agora?” Eu sei. E realmente poderia ter dito tudo isso no começo do mês, mas tem coisas que a gente precisa relembrar, puxar pra pauta e não deixar cair no esquecimento, porque uma boa reflexão é atemporal. Mas vem comigo!

Sabe aquela peça de roupa que você vem desejando a tempos e que só encontra se garimpar muito muito muito bem, e quando esse date acontece dá vontade de fazer dela uniforme e sair por aí desfilando pra todo mundo ver?! Então… comprar revistas de moda brasileiras com modelos e celebridades negras é a mesma sensação. Pena que não dá pra ter essa sensação com a Vogue de novembro. Não só desse ano, mas dos outros também.

É engraçado a revista escolher o mês de novembro para celebrar há cerca de 28 anos o Rio, quando o aniversário e protagonismo da cidade maravilhosa é logo no começo do primeiro semestre. “Mas Laíse, novembro é lançamento de tendências alto verão e festa de final de ano. É normal associarem ao Rio…”. Ok, na moda, mês de novembro dá entrada ao verão e Rio de Janeiro é quente, cidade turística e bla bla bla Whiskas sachê. Mas não é no mínimo curioso saber que de 2013 pra cá a revista estampou apenas 6 celebridades/modelos negras? E pior, ainda que fosse apenas para tentar “amenizar o preconceito” nenhuma delas foi capa do mês onze.

Na edição deste ano, a capa da vez foi essa Angel aqui:

“Ok, é a Candice Swanepoel. O que tem demais dessa vez?”
Te digo: Segundo um estudo acadêmico de 2016, realizado pela Anna Orthofer, pós-graduanda na Universidade Stellenbosch, 10% dos sul-africanos, em sua maioria brancos, são donos de mais de 90% da riqueza nacional e cerca de 80% da população, em sua maioria negra, não possui bem algum. Candice é supermodelo, Angel da Victoria’s Secret, loira, beleza padrão e… sul-africana.

Dentro desta edição tem algumas entrevistas e Tais Araújo é uma das entrevistadas. Tem também alguns editoriais e a funkeira Jojo Maronttinni, vulgo Jojo Todynho está em um deles. Tais Araújo, 39 anos, preta, atriz, jornalista, apresentadora, cria do bairro da zona norte Méier, e junto com seu marido também ator, Lázaro Ramos, forma um dos casais negros mais influentes no mundo, segundo a ONU. Jojo Todynho, viral nas redes sociais, 20 anos, cria do bairro da zona oeste Bangu, funkeira, preta e gorda. Negras, influentes e cariocas. Poderiam ter sido capas, mas ambas foram ‘’escondidas’’ dentro da revista.

Essa capa é a representação daquelas pessoas brancas que usam palavras como “afro” pra tudo e falam aquelas famosas e hilárias frases como “mas eu até tenho amigos negros”, “meu tataratataratataratatara avô semi-deus era negro”, “eu não tenho preconceito. Já namorei uma pessoa assim, mais escurinha”, na tentativa de parecerem menos preconceituosas, menos racistas. Essa capa é a representação daquelas pessoas que usufruem de uma determinada cultura e esquecem de dar credibilidade e real conhecimento de sua origem. A propósito, percebeu ali no lado esquerdo da capa o “estilo hip hop”? Doze de novembro comemora-se o dia mundial do Hip Hop. Que coincidência!

Em 2015 também teve coincidência na capa de novembro. A supermodelo gaúcha Carol Trentini. Magra, loira e com uns dreads no cabelo, era a cara do Rio. A cara do verão. Outra coisa curiosa é que pelo menos de 2013 até agora, nenhuma capa “especial Rio” teve rosto carioca.

Até quando a Vogue BR vai ficar nessa demonstração embranquecida de amor ao Rio e nesse roubo de protagonismo? É falta de modelo brasileira negra famosa? Tem Laís Ribeiro, supermodelo e também Angel. É falta de atrizes negras? Tem Tais Araújo, Jéssica Ellen, Nayara Justino (atriz e modelo), Sheron Menezzes, Adriana Alves (atriz e modelo), Jéssica Barbosa (atriz e bailarina), Érika Janusa (atriz e modelo), Cris Vianna (atriz e ex- modelo), Juliana Alves (atriz e modelo), Pathy Dejesus (atriz, modelo, dj e apresentadora) e muitas outras. Reage,Vogue!

Novembro é mês da consciência negra. Todos sabem… menos você.

Minha Primeira Música – Kennya Rosa

Eu já tive tantas fases dentro da Música que fica até difícil dizer a partir da onde tudo começou; a verdade é que ela sempre esteve ali, o tempo todo. E ela se fez presente de uma tal maneira que tentar evitá-la seria um dos maiores erros que eu, conscientemente, poderia ter cometido. Foi no final dos anos 90, época dos hits de Axé e das musas teens do Pop brasileiro estampando as capas dos cadernos na escola, foi naquela época que eu comecei a entender o que era Música, e as minhas referências eram poucas naquele tempo mas intensas o suficiente pra se tornarem lembranças reais do meu passado: o vizinho maluco que escutava Metal o dia inteiro, Só Pra Contrariar tocando no último volume nos churrascos de domingo, tudo isso me fez entender algo que é uma peça-chave pra quem se atreve a entrar nesse universo.

— Música é identidade e cada um tem a sua.

Na minha casa era assim ,quando os LPs de MPB não estavam tocando no rádio da sala, era da TV que o som iria surgir e eu posso dizer que eu vivi o surgimento de uma era crucial pra história da música, os videoclipes dominavam os programas em todos os canais da televisão e eram vistos como a grande revolução do audiovisual, algo novo e ousado que a mídia veiculava em ritmo exaustivo porque todos queriam ver de novo.

Até então muita música já havia passado pelos meus ouvidos, mas o primeiro som que me cativou de verdade foi uma faixa do By The Way, oitavo álbum lançado pelo Red Hot Chilli Peppers e apesar de não ter nenhuma informação a mais sobre nada daquilo a melodia se fixou na minha cabeça, ao ponto de sentir uma expectativa tão real toda vez que escutava aquela bateria que introduzia a canção e logo entraria a voz do Kiedis com aquele flow e timbre inigualáveis que só não eram mais fantásticos que o som da guitarra do Frusciante que aparecia no meio do música e era sem dúvidas a melhor parte, exatamente a parte que me fazia querer escutar aquela música quantas vezes fosse possível e viria a ser um dos primeiros acordes que eu aprendi a tocar assim que comprei a minha primeira guitarra muitos anos depois.

Tudo isso durou um longo tempo e foi uma fase maravilhosa, a Música ainda era uma novidade e eu não fazia ideia da importância singular que ela viria a ocupar na minha vida, a Música se tornou um álibi, o melhor que eu poderia ter encontrado, é a musa que evoca o meu fascínio pela vida, tão poderosa e gloriosa que através de mim consegue ainda influenciar aqueles que estão a minha volta.

E mais tarde eu realmente entenderia que uma das suas mais fantásticas propriedades é a de ser Infinita, e por tantas vezes mais e com as mais diferentes faces ela re-surgiria pra mim, e sempre com a mesma capacidade de provocar esse sentimento tão instigante, e arrebatador que se tornou gritante o quão era necessário que eu fizesse alguma coisa a respeito, e assim o fiz.

Kennya Rosa – Dj

Ela quer tudo – AUR

O nome dela é Nola Darling (DeWanda Wise) é o tudo que ela quer é autonomia emocional, liberdade sexual e pleno direito de viver a sua vida sem a interferência/julgamento de absolutamente ninguém, inclusive dos homens com os quais ela se relaciona.

Quando li sobre o filme “She’s gotta have it”, alguns sites definiam o filme como a busca de uma mulher negra por emancipação sexual e relacionamentos não-monogâmicos e logo após assisti-lo, a minha maior preocupação foi a demarcação e reafirmação de estereótipos negativos, como por exemplo, a mulher negra hipersexualizada e colocada no lugar de promíscua.  
Me enganei redondamente. Nola Darling fala por si, conta a sua história, sem intermediário, olhando direto nos nossos olhos.

 #SeJoga (Doutrina)

Esse é o nome do primeiro episódio da série pela Netflix – no total de 10 episódios – cuja protagonista é uma jovem pintora que entre os três relacionamentos – com o maduro Jamie Overstreet, o narcisista Greer Childs e o jovem Mars Blackmon – relata a crueldade que é não poder, enquanto mulher negra, andar tranquilamente pelas ruas da cidade, em virtude da quantidade absurda, invasiva e agressiva de cantadas que recebe.

Alguns fatos técnicos:

O filme foi lançado em agosto de 1986.
Foi o primeiro longa metragem do diretor Spike Lee, que também assina o roteiro, a produção e o papel de um dos protagonistas, o engraçado, Mars Blackmon.
She’s gotta have it foi inovador na representação dos negros no cinema norte americano, retratando mulheres e homens não como cafetões e garotas de programa, mas sim como jovens bem sucedidos e moradores do bairro Fort Greene/Brooklyn.

*SPOILER DO FILME – SE VOCÊ NÃO VIU O FILME E A SÉRIE PARE POR AQUI *

Em entrevista ao Huffington Post em maio de 2014, Spike Lee se disse extremamente arrependido de ter escrito e dirigido a cena de estupro do filme, é que no especial que ele filmou pra tv logo depois, a cena não se repetiria.

*CABÔ SPOILER*

Obs: o que é a trilha sonora da série? E as capas dos  cds que aparecem assim que a música para de tocar? Nomes como: The Isley Brothers, Maxwell, Mary J. Blige, Jill Scott, misturados com referências do basquete e membros da militância negra americana.

Isso só no primeiro episódio. Spike Lee produziu um belíssimo trabalho.

AUR, 1 ano.

Lucas Sá foi o responsável pelas fotos do nosso último evento – AUR, ATMOSFERA, que foi também nosso aniversário de 1 ano.

Aconteceu no dia 12 de novembro no FRONT, um lugar massa no centro do Rio de Janeiro.

Se liguem nas fotos:

O que te motiva?

No dia 12 de novembro, aconteceu a comemoração do primeiro ano da AUR, e teve uma roda de conversa, com essa que vos escreve convidando Dj Tamy, Izabella Suzart e Laíse Neves, chamada TROCA.

TROCA = no sentido de falar e escutar, de passar alguma informação e absorver informações do outro, de compartilhar o que te amplia enquanto indivíduo, de perceber no outro aquilo que também está em você: as aflições, as angústias, os métodos e principalmente as inseguranças.

Sim, as inseguranças. Quem se sente a vontade de falar em público, de apresentar um projeto, de expor uma opinião, de se colocar sob o julgo do outro? Desconforto, timidez, negação e vontade de não ir, não fazer, não se expor. Você já se questionou de onde vem esse medo ou o que te faz ser refém daquilo que te paralisa?

Processos Criativos e Inspiracionais, esse foi o tema da TROCA.

MotivAção.
Quais são as suas inspirações para o exercício da sua criatividade? Quais processos te tira da procrastinação?
O que te causa start pra levantar e começar a fazer? Quais são as estratégias usadas por você para alcançar algum objetivo?

Não tem uma receita certa, não existe algo que responda a todas essas perguntas, o que existe são possibilidades de: o que funcionou para uma pessoa pode funcionar para outra com a adição de outros elementos e assim sucessivamente, de forma que cada um ache o seu caminho, sem que ele seja necessariamente o caminho já trilhado.

Falando assim, fica tudo no campo da subjetividade e do pouco palpável, porém essa introdução serviu para trazer como ilustração um TED inspirador e que me starta todas as vezes que me pego sem motivação:

TED Girl Trek

T. Morgan Dixon e Vanessa Garrison são as CEOs do projeto Girl Trek, um projeto que estimula as mulheres negras a caminhar e assim baixar os índices de doenças e mortalidade em decorrência dessas doenças, estimula as mulheres negras a mudarem o seu entorno comunitário, a começarem por elas mesmas.

O projeto Girl Trek trabalha sob 4 pilares:

1- Não espere
2- Quando aprender o que precisa, volte e pegue uma “irmã” que ficou para trás
3- Reúna seus aliados
4- Encontre alegria e siga

Essas foram e seguem sendo etapas motivacionais utilizadas por mim para qualquer projeto que precise sair do papel, mas que pode servir como motivação para qualquer pessoa.

Aliado a esses pilares, utilizo também o que chamo de motivação por espelho, que consiste basicamente em me cercar de pessoas inspiracionais, isso me baseando numa máxima do campo do desenvolvimento humano que afirma que: “Você é a média das cinco pessoas com quem passa mais tempo”.

Se cerque de pessoas inspiracionais, seja na vida real ou da vida virtual,
Pratique os 4 pilares,
Ache aquilo que você se destaca, aquilo que você faria mesmo sem benefício financeiro,
E lembre-se: se você não caiu até agora, nada te derruba.

 

Domingo dia oficial de churrasco

Era domingo, dia oficial do churrasco e macarronada em família. Eu bem que poderia ter saído do quarto pra respirar o ar lá fora e ouvir junto com meus pais a coletânea de Fundo de Quintal, mas preferi ficar na minha ao som de Akua Naru, J Dilla e mais um hip jazz supimpa que esbarrei nesse negócio maravilhoso chamado Youtube apenas sinta:

Sabe aquele dia em que você acorda e se olha interiormente e sente que tem algo em si incomodando? Então, foi eu nesse dia. Domingo pra mim, além de ”almojantar” às 17h da tarde também é dia de faxinar, dar aquela arrumada no quarto e tal. Já dizia minha bisa e minha mãe vive dizendo: “casa bagunçada e roupa guardada do avesso atrai bagunça pra vida”. Foi aí que decidi arrumar meu guarda-roupa. Mas arrumar mesmo. Não pegar as roupas recém tiradas da corda e jogar na cadeira do esquecimento. Enfim. Tirei todas as roupas e pus na cama. Cabide pra lá e pra cá com uma mistura de uns “porra, achei a blusa!”, “por que eu ainda tenho isso, nem uso mais”… E na medida em que ia ajeitando e guardando as peças, fui separando umas roupas que já não cabiam mais em mim por 2 motivos: 1- contra fatos não há argumentos, engordei e 2- não me via mais refletida nelas (o mais importante). Pra uma taurina apegada às coisas como eu, dar tchau pra essas roupas foi bem fácil. Então se eu consegui você consegue também.

Na semana seguinte acabei comprando uma blusinha no brechó de uma amiga, voltei a usar uma calça que estava guardada faz tempos, dei uma calça pra uma outra amiga e de uma conversa bem natural ganhei mais duas peças de mais outra. O mundo é movido por energia e seu guarda-roupa não é diferente. A roupa que você veste representa teu estado de espírito. Se não está conseguindo conversar, se reconhecer nessa caixa cheia de compartimentos e cabides, é hora de fazer uma limpa. Existem histórias lá dentro e é bom revê-las pra saber se quer e precisa manter ou toca-las pra frente.

Doe, revenda, troque, customize. Só não jogue fora. Tem muita gente por aí precisando vestir história nova e você também.
Pra ouvir enquanto faxina teu guarda-história, deixo aqui o link de Find Yourself- Akua Naru:

Boa faxina.