Péricles e o seu necessário reconhecimento

Eu adoro rankings. Juro, me amarro mesmo. Gosto muito das discussões de quem foi melhor naquele ano, quem lançou a melhor música, quem foi o melhor cantor (a), enfim, quem “foi o melhor da temporada”. Acho que essa minha tara por concursos vem da minha paixão por futebol.

Porque o futebol é visto por temporadas. Se o time vai bem no ano, isso dá a possibilidade de idas a campeonatos maiores no ano seguinte, melhores receitas, maior felicidade das suas torcidas. Mantém a possibilidade desse clube se manter no topo, nem sempre tendo a máxima certeza de ser campeão no ano seguinte. Mas como disse no texto do Rincón, uma hora vai bater. E entre os jogadores que se destacam, sempre existe as premiações do final da temporada. Seleção do campeonato, melhores de cada posição, os gols mais bonitos. Isso dá o devido reconhecimento pro jogador e após aquela temporada ele pode fechar contratos melhores, ir para a Europa e jogar pela seleção.

Parece que não mas existe temporada no mundo da música. Dá perfeitamente para identificar quem foi melhor naquele ano em específico. Arte pode ser subjetiva e de repente não dá para julgar tão perfeitamente um resultado final, assim como acontece no futebol. Mas são essas discussões que fazem o público ter mais vontade de ouvir e conhecer o trabalho do cantor/cantora/mc que está disputando com o seu artista favorito. É maneiro pro publico torcer, acreditar que o seu artista preferido tem que ser unanimidade mesmo sabendo que isso dentro da arte é impossível. O público é o resultado do trabalho árduo de criatividade e paixão do artista, então – movido a paixão – esse público tende a achar que o seu artista preferido pode ser unânime e isso não é ruim. Acredito realmente que a roda gira melhor com esse tipo de premiação.

Alguém aí tem alguma dúvida que o Péricles é uma das 3 vozes mais bonitas do Brasil? Isso eu nem falo de agora, já tem um bom tempo que não existe discussão sobre isso. Todo mundo sabe, é notório e não resta questionamentos. Porém, o Péricles não ganhou nenhum prêmio considerado grande por aqui. Nenhum. Desde o falecido VMB, Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira nenhum deles deu o devido reconhecimento ao seu trabalho. Não deu a ele e a quase nenhum outro artista do samba/pagode que rodam o país com agendas lotadas de shows, são queridos pelo público, fazem sim bons e sólidos CDs mas que nunca ganham atenção da famosa “crítica especializada”. A mania de colocar num mesmo grupo de premiação pop/rock/hip hop/funk é de uma falta de sensatez tão grande que rebaixam todas essas expressões culturais genuínas a nada. E me fazem mais uma vez pensar naquela palavrinha (que começa com pre e termina com conceito) que persegue todas as expressões artísticas oriundas do gueto.

Péricles montou um dos maiores grupos de pagode de todos os tempos e dividia os vocais dele com outro gênio chamado Chrigor. Depois daquelas idas e vindas, altos e baixos e kos internos, Chrigor sai e logo depois vem o Thiaguinho, muito talentoso e cheio de gás pra fazer acontecer. Uma outra roupagem pro Exaltasamba. Eles explodem muito mais do que haviam feito na década de 90 e início de 2000, ganham outro publico, mantém o público que tinham conquistado e colocam o nome do grupo como um dos maiores grupos de pagode de todos os tempos. Thiaguinho anuncia a saída do grupo e pairou uma dúvida entre os fãs do grupo: Será que o Péricles vai manter o mesmo sucesso que fez com o Exalta?

Era aquilo né, todo mundo dizia que o Thiaguinho, mesmo sendo extremamente talentoso, era mais “comercial”. Palavrinha chata. Jovem, boa pinta, sorrisão. Todos tinham a certeza da continuidade do seu sucesso e muitos creditavam totalmente a Thiaguinho a nova guinada do Exalta, esquecendo da sagacidade dos integrantes do grupo em convidá-lo para um novo projeto e a parceria muito bem feita com Péricles em todos os anos vividos juntos. Thiaguinho confirmou o seu status de estrela e Péricles quebrou todos os que duvidaram e se consolidou como a maior referência do seu segmento dentro do samba. Desde 2012 lançou 4 CDs muito bons, colocou hits nas rádios e nas rodas de samba, uma penca de shows pelo país e obteve um respeito ainda maior dos amantes do samba por toda sua história e talento.

Talento. Essa é a palavra. Você até pode não ser interessante para aquele tipo de público ou não estar nos “padrões” (outra palavrinha escrota) da “crítica especializada” da saudosa “Música Popular Brasileira” de outrora. Mas mesmo os gigantes dessa MPB, como Caetano e Djavan – que fez um feat. absurdamente lindo no recém lançado “Deserto da Ilusão” de Péricles (assista abaixo), reconhecem o trabalho e o talento dos nomes que surgem nos ritmos realmente populares brasileiros.

Quem vive e respira música não pode virar as costas para o que está acontecendo ao seu redor, não pode tapar os olhos pro que os jovens estão ouvindo e vivendo naquela época. Nunca podemos tirar o crédito de uma época que não é a nossa em favor de um tempo que vivemos e que supomos que foi melhor. Pensamentos são outros, costumes e modos de viver são outros. A evolução é sempre acreditar que sempre podemos aprender com o que não vivemos, para que possamos agregar ainda mais ao nosso momento.

Depois de ler e escrever esse texto, meu coração ficou mais tranquilo e comecei a lembrar de todas as lutas que o samba, o hip hop e o funk tiveram pra chegar até aonde estão hoje, sem o carinho e tapinha nas costas de ninguém. Reparei que não precisamos do reconhecimento alheio para sabermos do nosso real potencial e o quão incrível é o nosso poder de mudança através dos nossos talentos. Mas aí fiz a besteira de pesquisar quem foram os últimos vencedores do Prêmio da Música Brasileira (http://www.premiodamusica.com.br/edicao-20…/vencedores-2016/) e vi que ainda precisamos de reconhecimento, mas agora dos nossos. Quanto mais as expressões culturais vindas do gueto estiverem juntas, se respeitando e se valorizando menos precisaremos de uma valorização de quem nunca nos deu valor. É impossível não amar a nossa cultura. Mas por incrível que isso ainda possa parecer, ainda é possível que não nos amem.

Foto: periclesoficial.com.br

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