O rap voltando aos eixos – Djonga e O Trem

Djonga e o coletivo O Trem fizeram uma noite histórica no armazém da utopia, um dos maiores espaços para eventos do Rio de Janeiro. Cerca de 9 mil pessoas compareceram ao show de lançamento do álbum “Ladrão” na cidade e provaram que é possível fazer um evento gigantesco com um rapper que recoloca esse movimento nos eixos.

 

“Somos pessoas com capacidade de fazer arte, empreender e fazer política com responsabilidade e qualidade. A importância é: Mostrar para todos que somos capazes de fazer tudo.” Djonga.

Além de ser um evento comandado por pretos, com a maioria do público e staff também sendo pretos, o evento era totalmente consciente com relação a sua função de impulsionar outras pessoas e negócios pretos. O Trem fez questão de dar espaço a novos empreendedores das áreas de moda e gastronomia. A galera que é realmente da rua e do corre. Isso parece simples mas é um ato que mostra que, independente do lugar que for, O Trem irá levar consigo a mesma galera que estava junto desde o início.

O inicio do evento mostrou que o ambiente era feito sob medida para Djonga. Dizeres com “Fogo nos racista” rodeavam o espaço, a Thug Nine , uma das patrocinadoras do evento, montou seu stand de vendas com uma camisa exclusiva que trazia o poema final de “Hat Trick” em suas costas. Um dos artistas mais renomados da cidade, Airá Ocrespo, fazia um live painting da imagem de Djonga. Tudo em cima do palco, para todo o público curtir e entender o que o artista estava fazendo.

 

Apesar da estrela da noite ser o Djonga, todos os DJs desempenharam muito bem os seus papéis. Seja pra manter a pista aquecida antes do show, ou pra manter a pista viva no pós. Ainda com a pista vazia, DJ Solyma fez um ótimo set tocando R&B e charm. Kmina apostou no underground, linha parecida com que Saddam também fez após o set dela. DJ Tamy e a dupla Treze & Nizz conseguiram colocar a pista lá em cima misturando várias vertentes atuais, como trap e funk. Relíquia da noite, já envolvido com inúmeros projetos sociais e entendedor da atual realidade política e social brasileira, Saddam pegou o microfone pra si e deu um papo muito reto e sensato pra uma galera bem mais jovem que ele.

“Um artista como Djonga, vir o seu papo reto pra essa juventude, é fundamental nesse momento obscuro que nós vivemos. A produção ta de parabéns e vamos continuar resistindo. Vamos permanecer na rua até o final.” Saddam.

A galera já tava bem la em cima quando as luzes do palco se apagaram. Uma das maiores surpresas desse show é a presença essencial de Yuri Marçal no espetáculo em sua totalidade. Yuri abre o show com piadas muito coerentes sobre inúmeros aspectos que circulam as nossas próprias vidas. Relações inter-raciais, localidade da galera e discurso militante. Tudo isso de forma leve mas ao mesmo tempo consciente de como as suas palavras fazem sentido pra aquele público.

“Pra mim, não caiu a ficha ainda de estar fazendo uma coisa no Brasil sem precedentes. A galera do rap estar se unindo com a galera da comédia. Juntamos essas duas artes, que tocam a pessoa de imediato. O que as músicas do Djonga fizeram pela minha auto estima, nada antes conseguiu fazer.” Yuri Marçal.

É sem precedentes mesmo. E demonstra que a cultura de entretenimento negra vive um momento único e marcante onde temos rappers, atores, comediantes, comunicadores, produtores e inúmeras outras vertentes de profissionais focados em assuntos importantes pro nosso crescimento profissional, emocional e mental. Falar sobre racismo e representatividade de forma tão clara e direta, como Djonga e Yuri Marçal fazem, atinge nossa mente de forma agressiva, explicativa e reflexiva. Tudo isso colabora pro nosso crescimento e forma cabeças que acreditam que é sim possível querermos qualquer coisa que esteja ao nosso alcance.

Djonga tem um peso muito grande, desde as suas letras até a sua imagem. Ele, sua banda e sua equipe entram totalmente encapuzados no palco, mostrando toda a atmosfera que envolve o conceito e estética de “Ladrão”. Ele começa recitando o verso de “Moleque Atrevido” de Jorge Aragão e de fato tem que respeitar aonde ele chegou. Em 3 anos, ele lançou 3 álbuns e o seu crescimento foi exponencial desde então. Há menos de 1 ano atrás, Djonga lançou “O menino que queria ser Deus” no Viaduto de Madureira com um sold-out, que deixou uma parte do público de fora do espaço. Com O Trem e alguns meses depois, Djonga manteve o seu nome no alto e deu mais um sold out em outro espaço gigantesco do Rio. De fato, “Moleque Atrevido” serve perfeitamente para ele.

“Hat Trick” abriu o show e, consequentemente, abriu umas 2 rodas na galera. A música mais icônica do álbum novo. Djonga aposta numa mini banda enxuta (1 DJ e 1 guitarrista/tecladista) que funciona bastante. DJ Coyote dita as regras do show e se posiciona como um dos produtores mais respeitados do país pelo o seu trabalho com o rapper e o músicos Thiago Braga atua como um coringa atuando tando na guitarra, quanto no teclado e também no baixo. A formação dá certo e traz uma cara orgânica ao show. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Tipo” com participação de MC Kaio dão uma acalmada e uma outra cara ao espetáculo, acalmando a galera e o próprio Djonga.

 

Nesse meio tempo Yuri Marçal volta ao palco. Mais duas vezes. São voltas extremamente arriscadas, mas que são muito bem desenroladas pelo comediante e mostra o talento e versatilidade do próprio ao lidar com aquela multidão de pessoas. Os retornos dele são essenciais para o seguimento do folego do artista.

Djonga praticamente recita “Leal” para a namorada Malu que estava embaixo do palco, junto com toda a família do rapper. Esse foi um dos momentos mais marcantes do show, que mostra a versatilidade de Djonga em cima do palco e na sua vida.

“Independente do momento que a gente viva, não podemos nunca falar sobre amor. Isso sempre vai ser uma verdade na minha vida e ponto.” Djonga

Djonga faz questão de sempre citar a sua família e como ela é importante na sua vida. Sua mãe, seu pai, sua namorada entre outros familiares o acompanharam em todos os 3 show feitos em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Essa presença é importantíssima e mostra que Djonga não é mais um rapper emocionado com o sucesso e deixa as suas raízes de lado nos seus melhores momentos. Além disso, Djonga fez questão de colocar ingressos acessíveis para que o seu real público pudesse comparecer ao evento. Isso fazendo de tudo pra que a conta fechasse, dentro de um lugar caro com custos altíssimos de produção. É o real detrimento da grana em prol dos seus fãs. Sem demagogia de não querer ganhar dinheiro, mas conseguir achar uma fórmula onde a conta seja favorável ao artista, a produção e, principalmente, ao público.

 

A pisada firme no palco, a forma como Djonga rege o seu público e a força que ele passa pra gente é a certeza de que o artista é e será marcante na história da nova música popular brasileira. Vai ser aquele cara que teremos prazer em ensinar a obra aos nossos filhos, como os nossos pais fizeram nos mostrando Milton ou Djavan. Os assuntos e a voracidade podem ser diferentes. Mas a genialidade e a cor são as mesmas. Artistas que marcam uma era com os suas músicas, nunca deixando ninguém se sentir profundamente tocado com aquilo. E é essa a real função de um artista, principalmente no momento obscuro que vivemos.

“Árvore sem raiz, não cresce fruto.” Djonga

 

Todas as fotos por Lucas Sá

 

2 respostas
  1. Camilla Ribeiro
    Camilla Ribeiro says:

    Que incrível ! Esses meninos do Trem estão revolucionando a cena de entretenimento no Rj. Djonga é a energia que nos faltam. Pra lutar e falar de amor !

    Responder

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