O Lázaro se parece comigo

As suas referências te norteiam. É incrível quando essas referências que você adquire ao longo da sua trajetória te mostram além do que você imaginava para aquele momento do encontro ao vivo. Por muitas vezes nos decepcionamos e descobrimos que aquele ídolo que seguíamos não era tão maneiro e legal assim.

As minhas referências (fora mãe e pai) sempre foram muito reais e possíveis. Sempre admirei alguém próximo que trabalhava muito para realizar um objetivo, um amigo que tinha um bom coração e que tava dando a vida para realizar os seus sonhos ou algum rapper brasileiro que, pela cena ser bem acessível, uma hora ou outra eu iria acabar me encontrando e trocando algumas ideias olho no olho com ele. Meus ídolos sempre foram pessoas que estavam e estão próximo, me mostrando dia após dia que é possível realizar algo. Minhas unicas referencias minimamente utópicas (Kendrick, Obama, Kanye, Denzel, Angela Davis) tão bem distantes de mim. Parece loucura, mas – por algum motivo que eu não sei explicar – eu tenho a quase certeza de que vou conhecer todos ou uma boa parte desses ídolos distantes ao longo da minha vida. Tomara que isso se realize.

Lázaro Ramos era meio que uma referência utópica. Mesmo tendo alguns amigos em comum e morando na mesma cidade, ele não é tão acessível como os meus rappers brasileiros favoritos. Ontem (02/05) fui a uma palestra dele na PUC onde o tema era o protagonismo negro na arte e ele. Inevitavelmente ele mesmo seria o tema da palestra. É muito curioso e intrigante pensar pela cabeça do artista. A gente sempre se coloca ludicamente na posição de destaque deles e fazemos um exercício mental para saber que posições tomaríamos se fossemos eles. As perguntas passaram muito por aí. Angústias, solidão, construção de personagens, criação dos filhos, peso de ser referência, relacionamento com outra referência, etc. Para cada resposta, Lázaro foi real.

A sensação de ver um dos maiores atores brasileiros – tanto pela sua luta e principalmente pelo seu talento – sendo verdadeiro, foi o que me fez enxergar o quanto eu era parecido com aquela minha referência. Não somente parecido esteticamente (fato que é extremamente importante), mas parecido como ser humano. Como mesmo ele tendo sua vida financeira e afetiva praticamente resolvida, ainda assim possui medos e angústias que não o fazem parar no tempo. Que não o faz se acomodar com o status de maior referência negra na dramaturgia. E que ele não deixa sua vaidade e ego serem maiores do que suas lutas e seu propósito na vida, que é viver e utilizar a arte como um meio de mudança.

Falo sobre referência. Poderia tentar transcrever aqui tudo o que me marcou nessa noite, mas acho que não conseguiria ser tão verdadeiro. Acho que só quem tava lá conseguiu absorver toda a energia e confiança que nos foram impostas desde a primeira vez que ele pegou no microfone. E é basicamente disso que a gente precisa. Por que assim como ele, estamos trabalhando para também sermos referências e precisamos ser tão verdadeiros quanto Lázaro para influenciarmos futuros Pedros, Karinas e Nathans.

Eu sou muito parecido com o Lázaro e ele se parece muito comigo. Eu tenho muito orgulho disso.

Imagem: Pinterest

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