“Inshalá Inshalá”

Vamos falar de dinheiro. Palavra que todo mundo quer ter mas que ninguém nesse país pode falar que quer ter. Porque a partir do momento que falamos que queremos viver uma vida minimamente confortável, parece que nos é apresentado o oitavo pecado capital e iremos arder no mármore do inferno. Somente por dizer que quer ser rico.

Ainda mais se essa pessoa for do gueto.É praticamente impossível para outra pessoa de uma classe social superior perceber que você possui desejos, ambições e responsabilidades com a sua própria vida e a da sua família. Parece que seu destino já foi definido antes mesmo de você nascer. Tu vai trabalhar exaustivamente a vida inteira de 8hs às 18hs, ter uma vida bem mediana e viver o sonho dos outros. E você ainda tem que agradecer por isso.

O poder supremo desse país sabe muito bem como o nosso povo é. Desde o início da nossa construção, todos que comandavam isso daqui sabiam do potencial e onde o nosso povo poderia chegar. Mas o poder e o sistema são tão maquiavélicos que eles se beneficiam da nossa notória bondade e humildade e transformam esses dois fatores em armas que sabotam a nós mesmos. Eu juro que consigo fechar os olhos e fazer um exercício de imaginação sobre o dia em que uns políticos e 7 ou 8 representantes de umas famílias extremamente ricas fizeram uma reunião conspiratória lá por volta de 1888 que moldaria as cabeças da população brasileira desde então. Vê se tu consegue me acompanhar:

É uma segunda feira simples e normal no império. Uma reunião secretíssima é convocada no Palácio do Catete para que o poder vigente pudesse discutir sobre os novos rumos do país. Muitas revoltas na rua, muitos progressistas. Alguma coisa não tava muito certa. Se aquele clima continuasse, em alguns anos o poder poderia ser dividido e pessoas de classes inferiores poderiam frequentar os mesmos lugares, comer as mesmas comidas e ser tão instruídos quanto a classe dominante. Olha que audácia.

Um banquete é servido, mas ninguém toca na comida. Todos preocupadíssimos com as suas próximas gerações. Todos preocupadíssimos em manter as linhagens arianas e européias de suas famílias. Isso nunca poderia mudar. Tudo deveria ser como está. A minoria rica e instruída e a maioria trabalhando para que essa minoria se mantivesse abastada. O clima de tensão paira no ar.

Eis que surge um barulho de um garfo batendo três vezes numa taça de champagne. É pedida a palavra e aquela pessoa começa a expor as estratégias para que tudo continue nos trilhos. Uma oratória perfeita, poder de convencimento e persuasão incríveis. Resumidamente essa voz disse mais ou menos isso:

“ Gente, momento complicado mas não impossível de ser resolvido. Sabemos muito bem do potencial, talento, garra e vontade das classes inferiores. Se dermos ferramentas para crescerem, eles um dia estarão frequentando esta mesa conosco ou até mesmo os nossos privilégios diminuirão para que todos tenham uma vida mais igual. Isso é inadmissível. A tática é simples: Faremos com que eles nunca descubram esse potencial que sabemos que possuem. Faremos com que eles não conheçam a sua história para nunca saberem para onde querem ir. Faremos com que eles nunca tenham auto estima para que nunca tenham vontade de mudar. E o melhor de tudo, mesmo com toda a dificuldade faremos com que eles agradeçam constantemente pela dádiva de viver aquela vida, em um país lindo com belezas naturais e com um povo bom de coração que suprem todas as dificuldades para se viver. Se fizermos isso, eles trabalharão para nós a vida inteira e não teremos nenhum tipo de problema, revolta ou mudança pelos próximos 100 anos.”

Voilá! Todos aplaudem. O banquete é devorado, todos bebem e comem como se não houvesse amanhã. E a vida segue. Em cima uma pequena parcela da população rindo da parte de baixo que se ataca, não se conhece e não possui auto estima. Combinações perfeitas para essa população se tornar gado.

É fazendo esse exercício fictício com fortes indícios de verdade, que chegamos a conclusão do quão incrível é a cultura HIP HOP. O rap é uma das pouquíssimas expressões culturais que nos dá salvo conduto para falar abertamente sobre sucesso, seja ele financeiro ou emocional. Aqui não temos medo nem receio de falar que queremos sim ter uma vida melhor e é aqui que enxergo pessoas parecidas comigo falando uma linguagem de evolução e saída da zona da dificuldade. É o que eu chamo de socialização da imagem. A partir do momento em que olhamos ao nosso redor e enxergamos os nossos pares vivendo uma realidade que nos foi imposta, vemos também MCs/DJs/Bboys/Grafiteiros que estão inquietas e que querem mudar aquela realidade através do HIP HOP.

Pode soar como superficial, mas não é. Está muito longe de ser. Você pode ver aquele clipe bling bling com várias motos, carros, dinheiro voando, mulheres impossíveis, vidas inimagináveis e se perguntar se tudo aquilo ali é verdade. Se aquele MC que tá cantando aquele som tem realmente toda aquela grana ou se é tudo emprestado ou alugado. Pode até ser que seja. Mas já parou pra pensar em quantas mentiras e hipocrisias são impostas para que nós fiquemos sempre parados? Quantas vezes já nos foi dito que seria impossível ou inimaginável? Já que essa realidade que lhe foi imposta só o prejudica/deprime, agora ele vai em busca dessa ilusão e vai fazer de tudo pra transformar essa utopia em realidade.

Eu dei essa volta gigante pra dizer que o Akira Presidente dá esse papo de uma forma muito reta no seu novo trabalho, “Fa7her” pela Piramide Perdida. Ele coloca muito bem tudo isso em forma de metáforas e punch lines mostrando todas as ambições e contradições de um homem feito. É um dos melhores discos nacionais do ano. E a faixa “$$$$$” com o Bk’ foi a que me fez cuspir esse texto. Primeiro pelo refrão viciante que é o retrato do Bloco 7. Segundo por toda a produção, mixagem e masterização geniais de El Lif e Arthur Luna que refletem bem o bom momento que o rap nacional passa na parte da produção musical. Sempre houve uma lacuna gigantesca entre a qualidade de som dos americanos e a nossa. Essa distância diminuiu muito nos últimos anos e mostra a dedicação e estudo dos novos produtores da cena. Terceiro pelo flow Zidane que Bk’ mais uma vez mostrou nessa participação. A forma como ele rima define que você vai dançar de umas 4 formas diferentes dentro das suas 16 barras e os seus versos soam como hino de evolução que certamente será gritado nos próximos shows do Bloco.

Todas as participações são muito pontuais e chamam bastante atenção, onde cada convidado mostra a sua identidade nos sons. Brill se porta como um dos rappers mais autênticos da cena atual, tendo um flow muito característico. Luccas Carlos se firma cada vez mais como um dos melhores na hora do refrão, conseguindo manter as suas rimas no topo. JXNV$ surpreende cada vez mais ao mostrar rimas concisas e metáforas bem inteligentes. Sain sempre se destaca e Djonga se consolida como realidade. Todos na dose certa, deixando o protagonismo merecido pro dono do trabalho.

Ao mesmo tempo que quer grana, Akira quer principalmente o melhor pra sua família. É isso que a capa de “Fa7her” mostra e é isso que o HIP HOP prega. Que somos acima de tudo seres humanos. Erramos, seguimos caminhos tortos, tomamos atitudes às vezes erradas mas que no final das contas moldam a nossa visão de mundo e nos fazem enxergar o que é realmente importante. Todo mundo merece sonhar e ter a vida que quiser ter. E o Akira mostrou muito bem isso.

Tu merece, eu mereço. Inshalá.

Imagem: Divulgação

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