“Direitos humanos” e “morte” são antônimos, e você deveria saber disto

Em um espaço que pretendemos divulgar, reforçar e enaltecer a cultura urbana, dedicar duas semanas aos desmandos da política de segurança do Rio de Janeiro parece um desperdício. Talvez seja. Mas como ignorar que após seis jovens inocentes serem assassinados (entre eles, Dyogo), o chefe do Executivo estadual associa mortes em operações policiais a defensores de direitos humanos? É como dizer que 2+2=5: está errado, não tem interpretação. É obrigatório refutar.

 

Nesta semana, Wilson Witzel declarou: “Pessoas que se dizem defensoras dos direitos humanos, pseudodefensores dos direitos humanos não querem que a polícia mate quem está de fuzil, mas aí quem morre são os inocentes. Esses cadáveres não estão no meu colo, estão no colo de vocês, que não deixam que as polícias façam o trabalho que tem que ser feito”.

 

Se a gente quer uma sociedade em que cada vez menos jovens artistas, criativos e pensadores morram de forma abrupta, violenta e cruel, permitir a crescente do pensamento que “direitos humanos são inimigos” é destruidor. E não refuta-se por ser o governador, poderia ser meu vizinho. Em tempos em que vários direitos estão meio balançados, explicar o que são direitos humanos é cansativo mas fundamental. Para todos.

 

Por definição da Organização das Nações Unidas, “os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros. Todos merecem estes direitos, sem discriminação”. Por isto, e somente isto, já seria possível explicar porque a afirmação do governador é errada. Mas vamos além.

 

Por querer garantir o direito à vida, defensores dos direitos humanos (questão: por que ainda é uma parcela e não toda a população?) jamais poderiam concordar com qualquer prática que resulte em morte. Seja helicópteros na favela, concordar com o discurso de “abatimento” ou algo do tipo. Parece difícil, mas é simples: é obrigação do Estado garantir os direitos básicos de todo cidadão, e quem escolheu defender tais direitos, em qualquer frente, jamais poderia concordar com algo que vá contra a vida de um ser humano. Sem vida não há direito. E o trabalho da polícia, por definição, não é matar. O que busca-se é o trabalho bem feito, sim, de forma não militarizada, principalmente.

 

Ao subverter a ordem e recortar a realidade ao seu bel-prazer, quem concorda ou profere discurso contra a vida esquece de contextualizar que a defesa não é “só” para portadores de fuzil. A segurança é uma engrenagem, muito complexa, então ao escolher a política de abatimento, estaremos ignorando estratégias e formas de lidar que se preocupem em resolver o problema na raiz. Ao escolher acreditar que direitos humanos são para bandidos, estaremos ignorando o fato de que amanhã poderemos ser abatidos por uma “bala perdida”.

 

O que os “defensores de direitos humanos” querem é a vida, plenamente vivida. De todos os seres humanos. A morte é responsabilidade só de quem ignora isso.

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