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Get Out ou Corra!

Eu nunca usei esse termo, ou sequer concordo com ele, mas confesso que quando o filme acabou uma frase veio forte na minha cabeça: Não palmite. 🙂

Brincadeiras a parte, Get Out é um maravilhoso filme de terror, e olha que esse é um gênero que não desperta em mim a mínima curiosidade, visto que só consigo rir e rir muito nos filmes de terror, de tão bizarros que geralmente eles são.

“Eu não sou racista, tenho até amigos que são negros” ou “Eu não sou racista, meu namorado é negro”, quantas vezes essas frases aparecem como justificativas quando apontamos comportamentos racistas? Get Out é sobre isso, ou melhor, essas frases poderiam ter saído da boca da personagem Rose.

Dominação e Racismo. É sobre esses dois conceitos que o filme se desenrola, sem dar spoilers, Chris Washington, um fotógrafo negro, após 5 meses de namoro vai enfim conhecer a família da sua namorada branca, Rose e acaba se deparando com comportamentos que a princípio pareciam complacentes demais e ao longo do filme se mostram assustadores.

– Nas primeiras cenas toca Redbone de Childish Gambino, que é um alento para tudo que está por vir. –

Em Get Out, o diretor Jordan Peele consegue transformar o horror assustadoramente real do racismo em terror nas telas com cenas de hipnose, dominação, sadismo psicológico e controle dos corpos negros (eu vi um reflexo de Peles Negras, Máscaras Brancas de Fanon, aqui? Fica aqui o questionamento). Em entrevista ao site Deadline, o diretor afirma que o dvd sairá com um final alternativo, beeeem diferente do final que está nos cinemas. E nesse link (https://filmschoolrejects.com/get-out-commentary-jordan-pe…/) o diretor faz 40 comentários sobre o filme – Leia somente se você já tiver assistido pois contém muuuuitos spoilers.

Se você não viu o filme PARE AQUI.

O que é o final que me deixou com o coração na boca?

Existe uma diferença absurda na sua percepção de quando o carro chega, se você é negro ou se você é branco. É possível ter sensações totalmente distintas quando o carro se aproxima. Um pavor que só quem vive sem segurança e com medo de quem deveria dar proteção, consegue alcançar.

Imagem: Her campus

Janeiro de 2011

Eu tinha comprado no fim no ano anterior, os ingressos para o show da Amy Winehouse e soube que Janelle Monáe faria a abertura com o cd The ArchAndroid (Suites II and III), seu álbum de estréia. Álbum que lançou a até então desconhecida Janelle Monáe ao estrelato. Janelle só tinha lançado o ep Metropolis: Suite I (The Chase) em 2007.

O show foi vigoroso, com aquela mulher chamando a atenção da platéia com suas calças compridas e capa pretas, um topete majestoso, muita presença de palco e uma voz que deixou a todos completamente hipnotizados.

Janelle Monáe em The ArchAndroid (Suites II and III) incorporou conceitos afrofuturista e de ficção científica em faixas como “Tightrope” e “Cold War” (cujo clipe me fez chorar e muito , assita o clipe logo abaixo) e fala sobre amor, identidade e auto realização.

Com clipes cheios de participações como Big boi em Tightrope; Miguel em PrimeTime; Erykah Badu em Q.U.E.E.N. e Jidenna em Yoga (Música maravilhosa e clipe incrível), Janelle Monaé se mostrou uma artista multiplataforma pois também é atriz e atuou em filmes consagrados como Estrelas além do tempo e Moonlight: Sob a luz do luar, ambos de 2016.

Janelle Monáe, você precisa conhecer.

Imagem: Afropolitan

Luedji Luna é um sopro

Um sopro que chega no ouvido com conexão direta ao coração.

Baiana, morando atualmente em São Paulo, Luedji é cantora e compositora disputando voz e narrativa na Música Popular Brasileira.

Luedji Luna canta as Áfricas, canta ancestralidade, canta solitude e emoção, canta pertencimento e acolhimento. No seu clipe Dentro Ali que você verá logo abaixo fala sobre o primeiro laço de amor, que é a família, fala sobre perdas e sobre olhar para si. Não tem como ouvir Luedji e não se emocionar.

Ela acabou de lançar uma campanha de financiamento para o seu primeiro disco Um Corpo no Mundo – https://goo.gl/hslIAc – que é sobre identidade, Diáspora, sobre conexão. Conexão consigo e com outro.

Um Corpo no Mundo é a São Paulo cinza e o seu olhar sob os imigrantes, corporalidade e centralidade, veja o vídeo abaixo:

Ouça Luedji Luna.
Foto: Tassia Nascimento, arte Gabriela Sanchez

100 reais no BADBADNOTGOOD

Eu sou um cara enrolado, confesso. Seria muito mais fácil se para tudo o que fizesse, eu me programasse direitinho. Em todo show de algum artista que gosto essa desorganização me atrapalha. Perdi o Kamasi Washington por conta disso e até hoje não me perdoo. Com o BADBADNOTGOOD eu me prometi que não iria dar esse mole.

Conheci a banda a mais ou menos 1 ano, através do meu ídolo mór no momento, Kaytranada. No seu primeiro e incrìvel CD que foi lançado no início do ano passado, uma faixa me chamou bastante atenção. “Weight Off” começa com um loop bem arrumado e viciante de baixo e logo depois aparece uma bateria bem orgânica, juntamente com as linhas groovadas clássicas de teclado do Kaytranada. Ali eu reparei que ele não estava só naquele som. A partir daí comecei a estudar, me interessar pelo BBNG e ver o quão incrível era a banda e a proximidade entre o Jazz e o HIP HOP.

Eu sei, isso não é novidade para nenhum amante da cultura. Robert Glasper, para o canal do Youtube “Jazz Night in America”, disseca alguns beats clássicos do J.Dilla e mostra na prática que o Jazz é a mãe do HIP HOP , veja o vídeo abaixo:

Tanto pelos inúmeros samples clássicos que foram reaproveitados, quanto pela origem como músicas de protesto que nasceram como uma voz genuína na opressão do estado americano contra o gueto. Se eu tivesse nascido em 1961 ao invés de 1991, muito provavelmente seria um viciado em Jazz, assim como hoje sou pelo HIP HOP. A sorte de ter nascido na minha época é a de conseguir enxergar de onde todas as minhas referências surgiram e o quão rica é a história da música negra universal.

BADBADNOTGOOD é perfeitamente definida como um quarteto de HIP HOP e Jazz. Por não ter um formato de big band como Snarky Puppy e até mesmo o próprio The Roots, isso faz com que o seu som seja mais reto e direto, não perdendo o groove e tendo sempre uma visão futurista para as suas músicas. Além do Kaytranada, eles já contribuíram com Daniel Caesar, Mac Miller, Rihanna e produziram uma faixa pro mais recente trabalho da Mary J. Blige. Além de produzirem algumas tracks, eles geralmente são a banda de apoio de alguns integrantes da ODD FUTURE, como Earl Sweetshirt e do criador da crew, Tyler, the Creator. Já lançaram 3 álbuns, um deles inclusive com a lenda Ghostface Killah, e o último deles “IV” é um trabalho extremamente interessante e que mostra perfeitamente o porquê deles serem tão respeitados na gringa e toda a visão futurista que eles passam nos seus sons. (spotify:album:6uqcZu1it9k6zz3UVKZzPo).

Agora voltando para a minha desorganização, no sábado passado (06/05) aconteceu o show do BBNG aqui no Rio. Os caras do “Queremos!” fizeram aquele corre avançado de sempre e com a ajuda dos fãs, eles vieram pra uma única apresentação na nossa cidade. Deixei passar o tempo e só decidi ir no show no dia. Com isso, aquela facadinha de 100 pratinhas pra ensinar o garoto aqui a se programar antes de um evento como esse. Do pagamento do ingresso até o início do show, aquela dúvida do “será que vai valer a pena” tava persistindo em martelar a minha cabeça. A partir da entrada deles no palco e do primeiro acorde de “Chompy’s Paradise”, todo o prazer de escutar uma banda que sigo e admiro tomou conta do meu coração e os 100 reais viraram só um detalhe. Dinheiro perto de música boa é só um detalhe.

imagem: Red Bull Sound Select

Série Cara Gente Branca

Dear White People. Se você não sabe o que é, procure saber.

Justin Simien, escritor e diretor do filme e da série era estudante da predominantemente branca Universidade de Chapman em 2006. E durante a sua graduação, Justin soltou várias pérolas no twitter sobre as piadinhas, expressões e comportamento racistas que percebia na Universidade, após um expressivo engajamento viu que ali existia material vasto para o que viria ser o filme, ele fez uma campanha de crowdfunding onde era esperado a arrecadação de 25 mil dólares e acabou alcançando mais de 40 mil.O filme estreou em 2014 e ganhou diversos prêmios, entre eles, o Festival de Sundance e o Festival de São Francisco e a série com 10 episódios de aproximadamente 30 minutos estreou na Netflix na última sexta feira (28/04).

A série passou por mudanças de elenco em pelo menos 3 personagens: a personagem Sam White que era interpretada no filme pela atriz Tessa Thompson, na série é interpretada pela atriz Logan Browning, o jornalista Lionel que antes era interpretado por Tyler James Williams, na série é interpretado pelo DeRon Horton e a personagem Colandrea Conners que no filme era interpretada pela Teyonah Parris e na série é interpretada pela atriz Antoinette Robertson e com episódios que são dirigidos pelo próprio Justin Simien e dirigidos também por Tina Mabry (escritora e diretora de alguns episódios de Queen Sugar) e Barry Jenkins (Moonlight).

A série é o filme até o terceiro episódio, quando Justin Simien escolhe contar a mesma história do filme, para que quem não tenha visto o filme consiga entender o que ele irá aprofundar nos episódios seguintes. Justin justifica a série dizendo que Sam White é o fio que liga os demais personagens, porém ela não é a protagonista, e isso fica explícito na série inteira, onde em cada episódio é mostrado de forma mais ampla um personagem diferente.

A série já começa com uma aspas de James Baldwin – veja o doc Eu não sou seu Negro – “O paradoxo da educação é que ao se ter consciência passa-se a examinar a sociedade onde se é educado”.

Mas saindo do aspecto técnico e indo pra uma impressão bem pessoal…

Dear White People é sobre as infinitas possibilidades de ser negro. Sem caixas, sem estereótipos, sem caricaturas. A série discute identidade, como somos e como nos apresentamos pro mundo. Como somos contraditórios e humanos, militantes ou não. Negros com pensamentos múltiplos, tons de pele diversos, participantes de grupos e coletivos diferentes, mas que se juntam quando a luta é pelo fim das práticas racistas na Universidade de Winchester.

DWP discute relação interracial, colorismo, o peso da militância diária, hipersexualidade, construção de masculinidade e as diversas formas que o racismo se manifesta – seja estruturalmente ou no âmbito das relações interpessoais. Seja na absurda festa de black face ou quando acusam Sam White do infame “”””racismo reverso””””. Ela, de uma forma tensa e bem cruel mostra que um diploma ou dinheiro, não livra o corpo negro de ser vítima de violência policial, como tantas e tantas vezes já vimos na vida real, e que a cor da pele chega antes de qualquer discurso ou abrir de carteiras.

A série coloca o negro (sujeito) – e aqui temos 95% de personagens pretos – como indivíduo e não como uma grande massa amorfa onde todos pensam, se comportam e agem da mesma forma, ela nos permite perceber por exemplo que, a amizade entre um cara hipersexualizado hétero e um menino gay é perfeitamente possível e sem direitos a quaisquer piadinhas, nos permite perceber também, que é possível, normal, natural, não ser violento somente por ser militante.

Um dos momentos mais divertidos da série é a sátira de Scandal – série da magistral Shonda Rhimes que já está na 6ª temporada e que eu não perco nenhum episódio.

Cara Gente Branca incomoda a branquitude – vide o boicote que a netflix sofreu e a quantidade de negativações que o trailer teve no youtube (mais de 420 mil) pq pela primeira vez ela, a branquitude, é vista como o outro, não como centro. Pela primeira vez ela é a parte e não o todo, incomoda porque por dez episódios inteiros, essa(s) história(s) não é(são) sobre ela.

Bastidores de uma vida aleatória

Assim como a cena do rap nacional fica extremamente centralizada no eixo Rio-São Paulo – vide a pedrada que foi Baco exu do Blues e Diomedes Chinaski esfregando na cara de geral que o Norte/Nordeste tá vivão e vivendo com seu Sulicídio – mesmo na cena do Rio, pouco se fala dos Rappers que não estão locados no Centro ou Zona Sul e muitas e muitas vezes a Baixada Fluminense sequer é lembrada.

Marcus V. R. da Silva vulgo Marcão Baixada é Rapper/Produtor e tá aqui pra virar o jogo e ele leva no próprio nome a simbologia do seu lugar de origem e com isso não nos deixa esquecer que sair de um lugar de conforto é se abrir pro novo e com isso acessar músicas e experiências que farão total diferença na forma de ver e consumir Rap Nacional.

Marcão faz um Rap que passeia entre a irreverência e a leveza de letras como Danny Glover (2014)

“ Drunk In Luv, pique J Hova/ Tô de buzão, mas quero Land Rover/ Mexeu comigo? Game Over!/ Máquina Mortífera, Danny Glover/ Onde eu chego, eu paro tudo. Pique Boy do Charmes/ Vagabundo fica puto. Piripaque do Chaves/ Se um dia tu ver um Maybach, sou eu que vou tá com a chave/ Eu não sou da NASA, mas vou pilotar uma nave”, e a porrada que é ser um homem negro que foge das estatísticas e quer mais do que sobreviver, em sua faixa Jovem Negro Vivo (2015) “ A luta é de todos pretos, da África e do mundo inteiro/ É pra zelar pela vida e não só pelo dinheiro/ Sangue no beco é o motivo pelo qual eu brigo/ Tenta enxergar o verdadeiro inimigo;/ Contrariando a estatística; minha vingança é lírica/ A face da morte é cínica…/ Calaram a voz de quem sofre com revólver/ Vitória pra nós é passar dos 29”.

Com rimas pesadas e líricas fortes, Marcão Baixada ressignifica a frase *Baixada Cruel* .

Confira sua última Mixtape, Bastidores de uma Vida Aleatória :https://soundcloud.com/…/s…/bastidores-de-uma-vida-aleatoria

Imagem:Capa da Mixtape

Yas Werneck

Com uma bagagem de mais de 90 composições em apenas 25 anos de vida, Yas Werneck é a mina que vem sendo destaque na cena do Rap no Rio de Janeiro. Dona de um flow cadenciado, beats certeiros e letras autorais, Yas Werneck lançou seu primeiro EP, Hexagonal, no final do ano passado.

Hexagonal tem um trabalho gráfico primoroso em forma de origami, totalmente original e que mostra bem o lado matemático da Rapper, o EP possui seis faixas com referências que vão desde o Neo soul até um trap-funk potente que é o carro chefe do EP, a faixa Coméki, que já tem clipe com produção e direção das minas da Amarévê.

Assista abaixo:

O clipe possui mais de 25k de visualizações e Yas Werneck faz Rap. Não Rap feminino, Rap. Demarcar a presença das mulheres, em especial das mulheres negras, na cena do hip hop é extremamente importante, mas marcar as letras de Yas Werneck como Rap Feminino é (re)afirmar que o Rap feito por homens é Rap masculino, e na boa, se eu, enquanto mulher gosto e curto o Rap feito pelos caras, o caminho inverso tá aí, aberto pra quem se dispõe a conhecer e apreciar.

A maior abrangência das letras da Yas Werneck se dá por mulheres, a abertura dos homens para ouvir as mulheres que estão no cena ainda é muito pequena e isso é prova do quanto o meio hip hop ainda precisa ser muito mais equitário.

Yas Werneck tem uma fala que diz assim: “Eu sempre digo que nós, as minas, temos que fazer três vezes melhor. Não uma, porque o gênero falará mais alto e nem duas, porque dirão que foi sorte dando crédito a tudo, menos a nós mesmas”.

Fazer Rap tendo que ser 3x melhor pra ser notada por sua capacidade e talento é prova que ser mulher e rapper é ainda quebrar muitas barreiras e Yas Werneck está vindo com tudo, ou melhor, já veio, se permita escutá-la e faça parte da galera que tá mudando o jogo.

Imagem: Bandcamp

Série Chewing Gum e Stand Up Comedy Afraid of the dark

Há muito tempo tenho reparado que são poucas as situações de filmes, séries ou mesmo as piadas que me fazem rir, que me deixem confortáveis o suficiente para rir de algo ou de alguém.

Falar de riso é algo muito sério, pode parecer contraditório, mas rir é a liberdade suspensa numa linha muito ténue entre o engraçado e a humilhação.

Por exemplo, eu falo bastante por aqui sobre séries, especificamente séries que tenha como protagonistas mulheres e/ou homens negros, mas não consegui definir ainda – além de extremamente constrangida – como me sinto depois de assistir Chewing Gun.

Aclamada como uma das séries de comédia britânica mais divertidas dos últimos tempos, Chewing Gun é escrita e protagonizada por Michaela Coel, que dá vida a personagem de Tracey, uma menina de 24 anos que mora com a irmã e mãe num conjunto habitacional em Londres e após ano de namoro sonha em deixar de ser virgem.

Sabe onde reside a minha falta de riso? No humor britânico, que costuma ser mais ácido e nos estereótipos. Tracey passeia por alguns deles, naquela linha bem tênue que citei lá em cima. Eu não consegui achar graça em nenhum dos 12 episódios divididos em 2 temporadas e procurando críticas especializadas que embasassem a minha, fiquei só, pois parece que a internet inteira está encantada com Chewing Gun.

Mas nem tudo está perdido no mundo das risadas e das comédias, pois encontrei Trevor Noah.

Comediante sul-africano que faz uma sátira política de pouco mais de 1 hora em “Afraid Of the dark”, sem cair em nenhuma das piadas que se escoram em minorias na tentativa de serem engraçadas.

Podemos fazer rir falando do opressor, podemos mais ainda, podemos rir falando sobre imigração, colonialidade, racismo e sexismo sem cairmos na mesma pasmaceira de sempre, que é rir de quem a décadas vem sendo espezinhado.

Estamos cansados de sermos motivos de risos.

Engraçado é quando os dois lados acham graça.

Imagens: Cinema 10 e trend chaser

O ano que eu disse não… e Shonda Rhimes disse sim

O ano que eu disse não começa com uma viagem de fim de ano pra fora do Rio de janeiro – o primeiro fim de ano que não estive em terras cariocas – 10 dias de reclusão tecnológica num lugar que responde pelo nome de Saco do Mamanguá – Procurem esse lugar-.

Ficar sem conexão de internet foi uma prova, tipo abstinência ferrenha nos dois primeiros dias, depois o corpo meio que acostuma a não pegar o celular a cada 10 minutos. Foi a possibilidade de me conectar com a natureza a minha volta, com a pessoas que estavam comigo e com o livro que tinha levado – O livro do ego, do Osho -, o que me proporcionou uma pequena revolução: entender quais são os atos que fazem você maior e quais são meros reflexos do ego inflado é a chave.

Percebi que no ano que findava, 2016, eu tava dando sim pra todos e pra tudo e me dando incontáveis nãos, que a solitude – a glória de estar sozinha – um estado que me era tão caro, já não estava sendo possível, estava ao tempo todo cercada de pessoas, fazendo incontáveis projetos, agradando a todos e esquecendo de agradar a mim mesma.

Comecei o ano de 2017 dizendo não. Não a tudo e todos que me afastavam de mim mesma, que me exigiam cada vez mais em troca de quase nada, me afastei de tudo que inflava meu ego e me fazia estar e me sentir acima das pessoas que eu só queria estar ao lado. Não conseguia ter tempo pros amigos, pois tentava o tempo todo dar conta das expectativas dos outros. O ano do não tinha se iniciado…

Comecei o ano sem jobs. Nada, nadica, nenhum. E a expressão “Sentir-se como um saco de lixo na ventania”, passou a fazer muito sentido pra mim. Isso é caminho aberto pra que? Todas as inseguranças e medos virem a tona, questionamentos sobre as minhas capacidades bateram forte.Mas depois dos 30 a gente aprende a ser mais resiliente e a crer de verdade no tempo.

Março chega delícia, cheio de surpresas e uma delas cai direto no meu colo. Eu amo séries, assisto a mais de 20 e tenho um app pra dar conta de saber dos episódios novos (TVshow Time), e descubro que Shonda Rhimes – Deusa, figura no panteão de mulheres para se inspirar, lançou um livro. (Insira aqui alguém muito feliz por que além de ver as séries que ela faz ainda vai lê-la).

O Livro da Shonda está categorizado como autoajuda, eu inventaria um novo segmento para as livrarias – trampei em uma por 5 anos – chamado: Senta aqui com as amigas e bora conversar?! Porque vamos combinar, o que ela faz nesse livro é se desnudar (to fazendo isso com esse texto, ou você acha que me mostro assim pra todo mundo? na na ni na não…), colocar sob os holofotes todas as suas fraquezas e fragilidades e com isso nos mostra que para sermos super mulheres, temos que primeiro sermos humanas, com todas as complexidades, contradições e imperfeições que isso acarreta.

Shonda usa um termo chamado P.U.D. – Primeira, Única e Diferente – e quem é mulher negra sabe bem o que esse termo significa, ela fala sobre quebrar tetos de vidro, sobre criar 3 filhas e ser dona de Shondaland e sobre essa cobrança absurda que colocamos sobre nós mesmas de sermos impecáveis.

Percebi que o SIM que a Shonda Rhimes fala no seu livro “ O ano em que disse sim”, era o sim pra nós mesmas. O sim para situações que nos dão medo, que nos tira do lugar confortável da não exposição, que nos coloca no lugar da vulnerabilidade, sim para tudo que parece loucura, sim pra tudo que for deslocado.

E na semana que to lendo esse livro, Kendrick lança DAMN – um álbum estupendo – e na faixa PRIDE alguns versos saltam aos olhos:”I understand I ain’t perfect I probably won’t come around – Entendo que não sou perfeito, provavelmente não retribuirei as suas expectativas -”, “I can’t fake humble just ‘cause your ass is insecure – não posso fingir humildade apenas porque você é inseguro” e Shonda Rhimes diz: “Não me tornar menor para que outra pessoa se sinta melhor”.

Isso soa arrogante né? Bem, só se você fizer parte dos privilegiados, dos que nascem e são posicionados no mundo com a certeza de que devem, merecem e serão servidos.

Façamos um teste: Como você reage ao receber um elogio? Se envergonha? Acha que quem te elogiou está equivocado? você nega as suas capacidades? Então, é disso que estou dizendo, dessa nossa dificuldade de nos vermos como alguém com méritos conquistados e não cedidos.

A gente se cobra absurdamente em todas as instâncias das nossas vidas, somos as nossas piores juízas, matamos vários leões todos os dias e no menor sinal de reconhecimento do outro, nos diminuímos, fazemos de conta que todos os louros das nossas vitórias, são frutos do trabalho e do esforço de outra pessoa, tapamos o rosto com vergonha e receio de admitirmos o quanto somos potentes.

SIM. essa palavrinha mágica que a Shonda usa infinitas vezes no seu livro-conversa entre amigas e PRIDE,canção-desabafo que Kendrick lançou no mundão e que temos muuuuuuito medo de usarmos com nos mesmas. São duas das possibilidades que podemos incorporar nas nossas vidas de forma integral: Dizermos mais SIM pra nós e nos orgulharmos dos nossos feitos. E Num ano que começou com muitas negativas, se abrir pro mundo através do sim pra mim, tem me ensinado que to no caminho certo. Honrando o meu processo e com muito orgulho de quem tenho me tornado.

Imagem: Give me a book

A vida Imortal de Henrietta Lacks

Imagine você ter um câncer, vir a falecer, uma mostra de suas células serem retiradas sem a permissão de sua família, a indústria farmacêutica lucrar bilhões, médicos ganharem prêmios e a sua família além de estar na miséria, não ter o mínimo de conhecimento sobre isso?

Parece ficção não é mesmo? Pois antes de virar ficção, essa história é real.

Tomei conhecimento dela através do livro A vida Imortal de Henrietta Lacks em 2012.

Henrietta Lacks, mulher negra americana, mãe de 5 filhos, é vitimada pelo câncer aos 31 anos em 1951 nos EUA. Os médicos retiraram um pedaço do tecido do colo do útero com câncer para tentar descobrir como ele avançou com tamanha rapidez e percebem que as células têm um poder de multiplicação jamais visto. Eles fizeram o sequenciamento do genoma das células, conhecidas como HeLa, as células foram utilizadas para ajudar a desenvolver as mais importantes vacinas e medicamentos contra o cancro, fertilização in vitro,mapeamento genético, clonagem, sem o conhecimento de absolutamente ninguém da família de Henrietta, ou seja, sem consentimento.

Agora além do livro, teremos também o filme para que a história de Henrietta Lacks chegue ao conhecimento de mais pessoas. The Immortal Life of Henrietta Lacks estreia no dia 22 de abril nos EUA, o filme é contado através dos olhos de sua filha, Deborah Lacks (Oprah Winfrey).

E sim, as células HeLa continuam se multiplicando ainda hoje.

Assista ao trailer abaixo:

Imagem: Coming soon