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O mágico show de Robert Glasper no Teatro Municipal

A noite do dia 04/06/2019, no Rio, estava propícia para um concerto de jazz.  Na Cinelândia, por volta das 19:30, pessoas vindo de vários locais da cidade e também de outras cidades, chegavam a porta do Teatro Municipal, para assistir ao tão esperado show do pianista – cantor – compositor Robert Glasper, na sua formação “Electric Trio”, que contou com Burniss Travis no contrabaixo , Justin Tyson na bateria, e o Dj Jahi Sundance.
O público era bastante variado. Desde fãs aficionados pela obra de Glasper, passando por amantes do jazz em geral, pessoas que curtem o lado mas Neo Soul e Hip-hop da obra do Glasper, até senhores e senhoras que são “frequentadores do Teatro Municipal”, independente de qual seja a atração.
O início do show estava marcado para às 20:00 e quase pontualmente, por volta de 20:15, a banda estava no palco.
No show, uma energia realmente Jazzística, incrível. Uma banda que tocava próxima, instrumentos bem perto um do outro. Havia uma comunicação visual e sonora que se notava logo no início do show.
O público estava atento e ouvia cada nuance que a banda transmitia.
As introduções, Riffs e Improvisos avassaladores dos teclados e pianos elétricos de Robert Glasper, davam aos espectadores sensações e climas que se entrelaçavam entre sonoridades super urbanas e outras mais clássicas do Jazz Norte Americano. Uma mistura de timbres que faziam uma balança precisa entre momentos de clima e momentos de virtuose musical. A cada nova música, um novo clima que mudava também as cores monocromáticas do fundo do palco.
No show, Robert Glasper foi simpático e afetuoso com o público, porém falou pouco. As músicas iam, automaticamente,  se entrelaçando uma a outra. Um show bem livre , que em alguns momentos tinham toques do estilo “Free Jazz” . Tudo se encaixava perfeitamente, porém de uma maneira muito leve e solta. Uma conversa entre o piano, o contrabaixo, o DJ e a bateria que voava em liberdade total de grooves, viradas e solos feitos por Justin Tyson.
Dois momentos marcaram mudanças no meio do show. Um deles foi quando o DJ Jahi Sundace, saiu do palco e o trio tocou temas mais jazzísticos e com mudanças de improvisos e climas muito grandes.
No segundo momento, toda a banda sai do palco e somente o contrabaixista Burniss Travis fica. Fazendo um momento solo de contrabaixo que foi sublime. Somente com o contrabaixo, Burniss conseguiu trazer uma atmosfera flutuante para o público. No final do solo de Burniss, Robert Glasper passou atrás dele e fez com os braços um sinal de que estava voando, tamanho o clima que o solo transmitiu. Toda a plateia achou engraçado. Nesse momento, sem que o solo parasse a banda completa, inclusive com o DJ Jahi, retorna ao palco e o show continua, entrando no meio do solo de contrabaixo. Burniss começa a tocar uma linha de baixo cheia de Groove e a banda entra em um novo clima. Nesse momento, músicas cantadas e uma atmosfera mais Pop tomaram conta do teatro. O DJ Jahi fez a festa nesse momento, a vibração era de muito Groove. Entre climas e solos de teclado, ele soltou samplers em inglês e português e a plateia foi ao delírio. O show termina com Robert Glasper agradecendo a todos e todas presentes e com o público tendo a sensação de sair de “alma lavada”, do Teatro Municipal.
Na saída, toda a banda foi cumprimentar os fãs que esperavam por fotos e autógrafos. Dentre tantas pessoas ali presentes, víamos muitos nomes importantes na nossa música e nas artes em geral. Todos em um clima de elevação e felicidade pós show.
Como se não bastassem as emoções do show, terminamos a noite na Lapa em uma roda de samba muito legal que reunia compositores. Estavamos lá com grandes amigos, amigas e Robert Glasper com toda a sua banda e equipe. Todos em um clima de troca de idéias, descontração e Paz.
Que show, que noite!

Djonga e Pelé. No Viaduto e no Maracanã.

O Santos dos anos 60 – de Pelé, Pepe e Coutinho e um dos times mais emblemáticos da história – se tornou tão gigante que, mesmo sendo de uma cidade litorânea de São Paulo, escolhia o Maracanã para jogar os seus maiores jogos da época. E os cariocas endossavam o time por puro amor ao bom futebol. O sentimento que eu tenho quando vejo Djonga no Viaduto se compara ao sentimento que meu avô sentia ao ver o Santos de Pelé no Maracanã nos anos 60. A conexão que o artista tem com aquele espaço é mágica. Pelas raízes, pela luta e pela conexão que Djonga e o Viaduto tem em comum.

Poucas vezes vi o Viaduto de Madureira tão cheio. Das barracas de comida até o palco, todo o público presente queria ver um dos rappers que mais verdadeiramente se conectaram com o Viaduto nos últimos tempos. O exemplo que Djonga passa para o seu público é de se admirar. Cheguei em cima da hora do show e vi uma boa parte dele no meio da platéia. O mais bizarro era reparar que uma boa parte da galera, que estava atrás das duas pilastras centrais do Viaduto, não conseguia ver o show e mesmo assim cantava todas as músicas a plenos pulmões e batia palma. A rapaziada que fica grudada nos tapumes de alumínio fora do Viaduto cantavam juntos de forma pesada e batiam na estrutura como se aquele fosse o último show do cara no espaço. Todo aquele ambiente jogava junto com o rapper e mostra que independente do seu tamanho como artista, você precisa ter a obrigação de tocar naquele lugar como um dos seus maiores sonhos. E se você estourar, você precisa voltar e cativar aquele público que não vai te deixar.

Ver o show da platéia me relembrou da fraternidade entre amigos quando estão juntos vendo um artista que amam de verdade. Em 2009 fui em um show do Rappa na Fundição com 2 amigos e volta e meia aquelas imagens, aquela multidão e aquele choro engasgado que senti quando cantei “Reza Vela” me voltam a cabeça. Eu me senti representado por 3 amigos, sem camisa, abraçados e chorando com “BENÇA”. Juntos, sem vergonha dos seus sentimentos e compartilhando do que era mais importante pra eles naquele momento. O amor pelas suas amizades.

Assim como num estádio, quando o seu time faz um gol, você abraça até desconhecido para compartilhar aquele momento único contigo. Ou numa missa quando você deseja a paz de cristo pra aquela pessoa que tá do seu lado e que você nunca viu. Grandes artistas causam esse impacto e o Djonga é foda por isso. Ele dá o exemplo através da raiva e do amor. Da dor e da família. Da energia e da calmaria. Ele uma atmosfera onde as pessoas vibram, compartilham, se sentem representadas. Meu avô entrava de um jeito no maracanã para ver o Pelé e saía diferente. Eu entrei no Viaduto de um jeito para ver Djonga e saí diferente.

*As fotos são de Lucas Sa

*Agradecimentos ao coletivo O Trem

O interminável fôlego de Marcelo D2

Ver um ídolo nos palcos é sempre bom. Vê-lo feliz, com um show novo, fazendo parceria com um dos maiores nomes da nova geração, é mais gratificante ainda. Marcelo D2 ainda tem fôlego de sobra pra se posicionar cada vez mais como um dos maiores artistas desse país.

 

A Namoral, produtora do D2, BK’, Planet Hemp e Sain, teve uma idéia simples e ousada. Juntar as duas estrelas de seu escritório e botar uma turnê conjunta na rua. Bk’ lançou recentemente o seu álbum “Gigantes” e estivemos na cobertura história do show de lançamento do álbum. D2 lançou no mesmo período o aclamado “Amar É Para os Fortes” e já tinha divulgado a novidade sobre a tour conjunta pra gente em primeira mão. Ficamos muito ansiosos para ver duas referencias do rap nacional juntando dois públicos e duas gerações distintas num mesmo show.

O primeiro show no Rio da tour entre D2 e Bk’ rolou no Km de Vantagens Hall, aquela famigerada casa de shows da barra que mudou de nome mil vezes. O show merecia um ambiente como a Fundição, na Lapa. Mas era estratégico pros dois irem para a Barra. Existe um público consumidor gigante pela zona oeste que, com a escassez de casas de shows atual da nossa cidade, não se deslocam com tanta facilidade para outros cantos da cidade. Se tá ruim pra quem mora por ali, imagina pra quem é da baixada.

 

 

Bk’ abriu o show com sua banda. Com muito mais confiança, Bk’ impulsionou sua performance em cima do palco e a banda tava mais redonda e mais segura de si. Isso fez uma grande diferença no que já tava muito bom no início do ano no circo e que ficou muito melhor meses depois. O foco nos ensaios, o posicionamento de Bk’ como músico e, principalmente, a consistência de shows deram confiança e colocaram na cabeça do rapper que a decisão arriscada de assumir uma banda nesse momento da carreira foi acertada.

O choque de choque de gerações foi um fato que não rolou. D2 se mantém tão atual que o seu público se renova com uma facilidade impressionante. Colado na grade havia um público muito jovem que consumiu e entendeu um dos álbuns mais artísticos e, ao mesmo tempo, mais difíceis de D2. O palco era todo decorado com tulipas vermelhas, na mesma estética da capa do álbum, e parecia que D2 estava flutuando entre as flores ao andar no palco. A banda teve a inclusão de 3 músicos do respeitado Afrojazz o que deixou o show ainda mais groovado. DJ Nuts sempre está preparado com os seus scratchs e Sain tem seus momentos de destaque fazendo as dobras do pai.

A primeira vez que Marcelo D2 pisou naquele palco foi em 1994, num show do Planet Hemp. Há 25 anos atrás. Hoje, aos 51 anos de idade, D2 se tornou um dos artistas mais respeitados do país, sendo referencia em mais de 3 gêneros musicais, tendo rodado o mundo várias vezes e sempre se reinventando. No final do show, D2 fez um bis da “Febre do Rato”, desceu na plateia e foi pro meio da roda. Com microfone, presença e fôlego. Acredito que meu filho, que ainda não nasceu, verá essa mesma cena quando ele for em algum show do D2.

Todas as fotos foram cedidas pelo nosso amigo Wilmore Oliveira

Agradecimento a Namoral Produções.

Festa Cyranda e a busca pela essência cultural

#festacyranda

Vivemos num país multicultural. A facilidade que o Brasil tem de criar novas formas de expressão e dialogar com inúmeras culturas ao redor do mundo faz com que a nossa mente sempre borbulhe com ritmos, energias e formas artísticas. Bebemos de outras fontes, damos o nosso toque e fazemos com que expressões musicais originalmente estrangeiras se tornem melhores a partir do momento que a inserimos dentro do nosso contexto. Tudo se torna novo e diferente ao mesmo tempo.

Ou não tão novo e diferente assim. Seja por motivos estéticos ou sociais, temos uma visão errada da nossa própria cultura. As vezes, valorizamos mais o que é originalmente de fora e nos esquecemos que a cultura regional criada aqui é extremamente valorizada ao redor do mundo, ganhando prêmios e reconhecimento. É importante sabermos que a ancestralidade criada e passada pelos griots africanos se estendem além dos nossos famosos funk ou hip hop e resultam numa cultura rica e extremamente brasileira.

Festa Cyranda possui essa percepção e promoveu ao seu público uma experiencia cultural brasileira unica. Desde a incrível musicalidade, passando pelas artes e até pelas marcas parceiras presentes da cerveja Praya, a grande curadora do evento. O line foi estrategicamente pensado para que houvesse uma veracidade dentro do conceito proposto pela festa. Foram convidados DJs, grupos e movimentos culturais que são inseridos de fato dentro da cultura nordestina como um todo. Com isso, o público, em sua maioria acostumado as festas mainstream combo de vodka com red bull, se sentiu a vontade e inserido dentro daquela realidade.

A presença do DJ LP no line de fato me surpreendeu. Relíquia das festas de hip hop da cidade, LP fez um set todo inserido dentro xote e xaxado. Ele me disse que a vivencia dele é maior dentro da música brasileira, do que até mesmo no hip hop. E outro detalhe importante que o próprio me disse. Quem de fato estuda a cultura hip hop, está conectado com pelo menos 70% da música mundial, por conta dos recortes e dos samples usados. DJ Raiz trouxe uma linha regional muito futurista, fazendo umas misturas incríveis entre xote, bass music e pagodão baiano. Raiz faz parte do Ministério Público Sound System, movimento atual e já histórico de Salvador que revelou nomes como Baiana System, e a presença dele deu uma outra personalidade a pista.

Os grandes responsáveis pela curadoria musical do evento foram os DJs Zeh Pretin e Zedoroque. Os dois são bastantes conhecidos e reconhecidos pela vontade e luta pela valorização da cultura brasileira nas suas festas como o Baile do Zeh Pretin e a Festa Brzzil. E por incrível que pareça, eles não tocaram no evento. Acredito que não por medo de uma rivalidade com os artistas vindos de fora da cidade, mas sim por uma vontade de dar oportunidade ao público de ouvir outros artistas, tão bons quanto, mas que sejam de fora da nossa bolha. É colocar no curriculum que são curadores musicais de fato, assumindo os prazeres e os riscos de quem tem o poder de escolha sobre quem vai comandar a experiencia musical do seu público.

Zeh Pretin e Zedoroque deram uma indicação aos artistas. Sejam livres para fazer o que mais sabem. O show do Sexteto Sucupira foi uma viagem orgânica musical que fez todo o público ficar boquiaberto com a qualidade, sincronismo e talento dos 6 artistas. A liga entre percussão e o sopro e a forma como a técnica e a alma do sexteto eram expostos ao público fizeram a galera viajar numa fusão entre todas as variações do forró. Marcelo Mimoso na voz e sanfona e Julia Vargas, também na voz, impulsionaram a apresentação e fizeram uma cama incrível para a rainha da ciranda se apresentar.

Lia de Itamaracá representa a ancestralidade de toda mulher negra, artista e guerreira. Ela estava vestida com um grande vestido azul, que combinava com o palco e sua iluminação. Era notório o prazer e a devoção que o Sexteto sentiu quando ela subiu ao palco. São 75 anos de idade e desde os seus 19 sendo artista, a maior representante da ciranda. Mesmo gripada e com a voz bastante rouca, Lia não perdeu o carisma, subiu ao palco e deu 100% de si no seu show. Seu amor e sua luta em prol da ciranda eram estampadas no seu rosto e tudo ao seu redor a fez se sentir a vontade e confortável. As rodas de ciranda se abriram e o público, mais uma vez, teve uma experiencia única.

O lugar era incrível. Sempre descobrem novos lugares no alto da boa vista e esse foi um dos mais legais que já fui. Caiu uma tremenda chuva na cidade horas antes do evento. Mas graças a São Pedro e a Lia de Itamaracá a chuva não voltou a dar as caras no evento. Foi possível abrir uma outra pista, anexa ao palco principal. O respeitado DJ 440 comandou a pista e trouxe linhas futuristas misturando a sua regionalidade com bass music, numa onda irada e que conversava muito com as linhas de DJ Raiz. A minha grande surpresa da noite foi ver o set da DJ Luana Flores que foi o grande destaque musical da noite. Num set com mais da metade das músicas sendo autorais, Luana trouxe toda a sua vivencia musical da Paraíba e manteve a pista muito quente por todo o seu set. No seu instagram, Luana define sua musicalidade como “Música Afroindígena Futurista Contemporânea Nordestina” e soou exatamente assim. Em certo momento do seu set, ela toca triangulo junto com a música e isso faz com que ela interaja bastante com o público. É uma artista que precisamos seguir e ficar de olho.

O onipresente, e indiscutivelmente ótimo DJ, Nepal assumiu a pista e manteve a mesma la em cima com suas viagens sonoras. Ele foi um pouco além e trouxe clássicos da MPB como “Samurai” e deu um novo folego na pista. Sempre mantendo o conceito brasileiro do evento. Rio Maracatu foi pra dentro da pista e tocou ali mesmo. No meio da galera, dando mais uma vez a experiencia que a Festa Cyranda se propôs a dar.

Um detalhe importante, mas não essencial. A festa era open bar. É óbvio que esse é um detalhe que chama a atenção de qualquer um. Mas pela primeira vez senti que esse detalhe era só mais um dentro de todo ecossistema que a festa criou. A bebida era importante. Mas a música era essencial.

 

*Todas as fotos foram tiradas por Lucas Sá

A rainha Lia de Itamaracá e sua riqueza cultural

A riqueza de uma cultura é medida pelo impacto que os seus representantes causam no público e na relevância que esse artista consegue através dos tempos. Através de muito esforço, dedicação e amor por aquilo. Lia de Itamaracá representa muito bem a riqueza artística e cultural que a cerca. Patrimônio vivo de Pernambuco, Lia tem 75 anos e desde os 19 defende a cultura da ciranda com unhas e dentes. Muito antes de fazer sucesso, Lia levava a profissão como merendeira em paralelo a música, fato que perdurou até pouco tempo atrás, e essa profissão garante sua aposentadoria até os dias atuais.

Lia pode falar como ninguém sobre os problemas e obstáculos que um artista passa. Ela é a rainha de um dos maiores movimentos culturais do país, a ciranda, e é muito pouco reconhecida na sua região. Já fez mais de 5 turnês pela Europa, ganhou prêmios, teve um livro lançado em comemoração aos seus 75 anos e foi homenageada pelo homem da meia noite e o galo da madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo. A importância de ser uma mulher negra, de pele retinta, no alto dos seus 1,80 metros e que defende com toda força a sua cultura, a faz ser uma das maiores representantes de cultura regional do país.

Tentando dar de fato a reverencia que essa artista merece e valorizar a cultura brasileira como um todo, a Festa Cyranda traz Lia de Itamaracá como atração principal de sua festa que abre a temporada de festas juninas da cidade. Além de Lia, Sexteto Sucupira, Rio Maracatu e os DJs Luana Flores, LP, Nepal, 440, Raiz e Mam completam o line e focam nas tradições regionais do país. Um ponto extremamente fora da curva dentro das proposições atuais rasas do atual mainstream carioca e que promete criar um legado sobre a cultura da cidade.

 

 

Não vai ter funk, hip hop ou qualquer outro tipo de cultura que não seja a que naturalmente seja nascida e criada nesse país. Merecidamente, teremos uma rainha de verdade nos palcos da nossa cidade. Quem gosta de arte e entende que a música é muito maior do que toca nas rádios, precisa ir e entender um pouco melhor o que é o nosso país. Quem tem a cabeça fechada para a nossa história, é melhor ficar em casa e perder a melhor festa junina da cidade. 

 

 

O rap voltando aos eixos – Djonga e O Trem

Djonga e o coletivo O Trem fizeram uma noite histórica no armazém da utopia, um dos maiores espaços para eventos do Rio de Janeiro. Cerca de 9 mil pessoas compareceram ao show de lançamento do álbum “Ladrão” na cidade e provaram que é possível fazer um evento gigantesco com um rapper que recoloca esse movimento nos eixos.

 

“Somos pessoas com capacidade de fazer arte, empreender e fazer política com responsabilidade e qualidade. A importância é: Mostrar para todos que somos capazes de fazer tudo.” Djonga.

Além de ser um evento comandado por pretos, com a maioria do público e staff também sendo pretos, o evento era totalmente consciente com relação a sua função de impulsionar outras pessoas e negócios pretos. O Trem fez questão de dar espaço a novos empreendedores das áreas de moda e gastronomia. A galera que é realmente da rua e do corre. Isso parece simples mas é um ato que mostra que, independente do lugar que for, O Trem irá levar consigo a mesma galera que estava junto desde o início.

O inicio do evento mostrou que o ambiente era feito sob medida para Djonga. Dizeres com “Fogo nos racista” rodeavam o espaço, a Thug Nine , uma das patrocinadoras do evento, montou seu stand de vendas com uma camisa exclusiva que trazia o poema final de “Hat Trick” em suas costas. Um dos artistas mais renomados da cidade, Airá Ocrespo, fazia um live painting da imagem de Djonga. Tudo em cima do palco, para todo o público curtir e entender o que o artista estava fazendo.

 

Apesar da estrela da noite ser o Djonga, todos os DJs desempenharam muito bem os seus papéis. Seja pra manter a pista aquecida antes do show, ou pra manter a pista viva no pós. Ainda com a pista vazia, DJ Solyma fez um ótimo set tocando R&B e charm. Kmina apostou no underground, linha parecida com que Saddam também fez após o set dela. DJ Tamy e a dupla Treze & Nizz conseguiram colocar a pista lá em cima misturando várias vertentes atuais, como trap e funk. Relíquia da noite, já envolvido com inúmeros projetos sociais e entendedor da atual realidade política e social brasileira, Saddam pegou o microfone pra si e deu um papo muito reto e sensato pra uma galera bem mais jovem que ele.

“Um artista como Djonga, vir o seu papo reto pra essa juventude, é fundamental nesse momento obscuro que nós vivemos. A produção ta de parabéns e vamos continuar resistindo. Vamos permanecer na rua até o final.” Saddam.

A galera já tava bem la em cima quando as luzes do palco se apagaram. Uma das maiores surpresas desse show é a presença essencial de Yuri Marçal no espetáculo em sua totalidade. Yuri abre o show com piadas muito coerentes sobre inúmeros aspectos que circulam as nossas próprias vidas. Relações inter-raciais, localidade da galera e discurso militante. Tudo isso de forma leve mas ao mesmo tempo consciente de como as suas palavras fazem sentido pra aquele público.

“Pra mim, não caiu a ficha ainda de estar fazendo uma coisa no Brasil sem precedentes. A galera do rap estar se unindo com a galera da comédia. Juntamos essas duas artes, que tocam a pessoa de imediato. O que as músicas do Djonga fizeram pela minha auto estima, nada antes conseguiu fazer.” Yuri Marçal.

É sem precedentes mesmo. E demonstra que a cultura de entretenimento negra vive um momento único e marcante onde temos rappers, atores, comediantes, comunicadores, produtores e inúmeras outras vertentes de profissionais focados em assuntos importantes pro nosso crescimento profissional, emocional e mental. Falar sobre racismo e representatividade de forma tão clara e direta, como Djonga e Yuri Marçal fazem, atinge nossa mente de forma agressiva, explicativa e reflexiva. Tudo isso colabora pro nosso crescimento e forma cabeças que acreditam que é sim possível querermos qualquer coisa que esteja ao nosso alcance.

Djonga tem um peso muito grande, desde as suas letras até a sua imagem. Ele, sua banda e sua equipe entram totalmente encapuzados no palco, mostrando toda a atmosfera que envolve o conceito e estética de “Ladrão”. Ele começa recitando o verso de “Moleque Atrevido” de Jorge Aragão e de fato tem que respeitar aonde ele chegou. Em 3 anos, ele lançou 3 álbuns e o seu crescimento foi exponencial desde então. Há menos de 1 ano atrás, Djonga lançou “O menino que queria ser Deus” no Viaduto de Madureira com um sold-out, que deixou uma parte do público de fora do espaço. Com O Trem e alguns meses depois, Djonga manteve o seu nome no alto e deu mais um sold out em outro espaço gigantesco do Rio. De fato, “Moleque Atrevido” serve perfeitamente para ele.

“Hat Trick” abriu o show e, consequentemente, abriu umas 2 rodas na galera. A música mais icônica do álbum novo. Djonga aposta numa mini banda enxuta (1 DJ e 1 guitarrista/tecladista) que funciona bastante. DJ Coyote dita as regras do show e se posiciona como um dos produtores mais respeitados do país pelo o seu trabalho com o rapper e o músicos Thiago Braga atua como um coringa atuando tando na guitarra, quanto no teclado e também no baixo. A formação dá certo e traz uma cara orgânica ao show. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Tipo” com participação de MC Kaio dão uma acalmada e uma outra cara ao espetáculo, acalmando a galera e o próprio Djonga.

 

Nesse meio tempo Yuri Marçal volta ao palco. Mais duas vezes. São voltas extremamente arriscadas, mas que são muito bem desenroladas pelo comediante e mostra o talento e versatilidade do próprio ao lidar com aquela multidão de pessoas. Os retornos dele são essenciais para o seguimento do folego do artista.

Djonga praticamente recita “Leal” para a namorada Malu que estava embaixo do palco, junto com toda a família do rapper. Esse foi um dos momentos mais marcantes do show, que mostra a versatilidade de Djonga em cima do palco e na sua vida.

“Independente do momento que a gente viva, não podemos nunca falar sobre amor. Isso sempre vai ser uma verdade na minha vida e ponto.” Djonga

Djonga faz questão de sempre citar a sua família e como ela é importante na sua vida. Sua mãe, seu pai, sua namorada entre outros familiares o acompanharam em todos os 3 show feitos em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Essa presença é importantíssima e mostra que Djonga não é mais um rapper emocionado com o sucesso e deixa as suas raízes de lado nos seus melhores momentos. Além disso, Djonga fez questão de colocar ingressos acessíveis para que o seu real público pudesse comparecer ao evento. Isso fazendo de tudo pra que a conta fechasse, dentro de um lugar caro com custos altíssimos de produção. É o real detrimento da grana em prol dos seus fãs. Sem demagogia de não querer ganhar dinheiro, mas conseguir achar uma fórmula onde a conta seja favorável ao artista, a produção e, principalmente, ao público.

 

A pisada firme no palco, a forma como Djonga rege o seu público e a força que ele passa pra gente é a certeza de que o artista é e será marcante na história da nova música popular brasileira. Vai ser aquele cara que teremos prazer em ensinar a obra aos nossos filhos, como os nossos pais fizeram nos mostrando Milton ou Djavan. Os assuntos e a voracidade podem ser diferentes. Mas a genialidade e a cor são as mesmas. Artistas que marcam uma era com os suas músicas, nunca deixando ninguém se sentir profundamente tocado com aquilo. E é essa a real função de um artista, principalmente no momento obscuro que vivemos.

“Árvore sem raiz, não cresce fruto.” Djonga

 

Todas as fotos por Lucas Sá

 

Uma voz, um universo. Milton Nascimento

Existem muitos artistas geniais na música Brasileira. Dentre mentes brilhantes, compositores incríveis, cantores e cantoras sublimes, instrumentistas fantásticos, arranjadores geniais e mais inúmeras classificações de profissionais que compõem as engrenagens do nosso relógio analógico chamado de “MPB”, algumas pessoas possuem algo que parece vir de outro plano. Quando ouvimos algo que realmente nos toca profundamente, alimentamos nossa alma e temos a sensação de que estamos ficando fartos e satisfeitos, algo impossível de explicar totalmente com palavras.

Uma das vozes que mais me levam pra esse estado é a voz de Milton Nascimento. Não só a sua voz, mas também as suas composições, suas construções de melodia e harmonia e todo o universo que acontece quando a música dele está tocando. É uma reunião de qualidades que chamam atenção de gerações. Eu, pessoas mais velhas, mais novas, os mais importantes músicos e musicistas de Jazz de todo o mundo, críticos de música, pessoas que não entendem teoricamente de música, nomes da comunicação e por aí vai. Todos atentos a cada sentimento que será gerado a cada nota que ouvirem.

E falando no universo de Milton, o próprio está agora em turnê pelo Brasil e pelo mundo cantando músicas dos aclamados álbuns “Clube da Esquina” (1972) e “Clube da Esquina 2” (1978). Eu recomendo que você ouça esses dois álbuns, estão disponíveis online. Não vou contar aqui a história toda do Clube da Esquina, a internet já está cheia de informações, pesquisas e documentários (inclusive muito bons), sobre isso. Em uma pesquisada rápida você conhecerá mais sobre esse momento tão fantástico na história da música Brasileira.
Mas aqui cabe uma brevíssima introdução:

“O Clube da Esquina foi um movimento musical brasileiro surgido na década de 1960 em Belo Horizonte – Minas Gerais, onde jovens músicos começaram a se reunir. Seu som se fundia com as inovações trazidas pela Bossa Nova a elementos do jazz, do rock – principalmente os Beatles –, música folclórica dos negros mineiros com alguns recursos de música erudita e música hispânica. Nos anos 70, esses artistas tornaram-se referência de qualidade na MPB pelo alto nível de performance e disseminaram suas inovações e influência a diversos cantos do país e do mundo.”
(Fonte: Wikipedia)

 

Alguns desses jovens geniais eram: Milton Nascimento, e os irmãos Borges (Marilton, Márcio e Lô), Wagner Tiso, Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho Moura, Toninho Horta, Beto Guedes e os letristas Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Tavito, e Murilo Antunes, e outros nomes de grandes instrumentistas, interpretes foram se achegando e tornando o grupo ainda mais plural e maior. Cada um desses nomes, merece a sua atenção como ouvinte. Dão uma vida inteira de degustação musical.

Meu primeiro contato maior com a obra de Milton, foi quando eu ouvi a música “Fé cega, faca amolada”, do álbum “Minas” (1975), essa música que é um rock piscodélico misturado a vários outros elementos, me chamou a atenção e me fez querer entrar no mar profundo que é a obra do Milton. Na verdade, pra quem está em contato com a arte é interessante ouvir as referências das suas referências. E foi dessa maneira que conheci pessoas que são pilares fundamentais da música.

Essa matéria breve é um convite pra você se alimentar e conhecer mais (Se ainda não conhece) da obra do Milton. Se permita sentir as mensagens e sensações da maneira mais simples possível. A internet nos permite ouvir discos fantásticos, mesmo sem tê-los fisicamente. Depois de ler essa matéria,te convido pra ouvir 12 músicas do Milton que me chamam muita atenção (Acaso você ainda não tenha ouvido). Cada uma com sua característica:

*”Tudo o que você podia ser”.
*”Travessia.
*Ponta de Areia.
*Fé cega, faca amolada.
*”Milagre dos peixes.
*Para Lennon e McCartney.
*Clube da Esquina N°2.
*Cravo e Canela.
*Os escravos de Jó.
*Canção do Sal.
*Vera Cruz
*Bicho Homem

Se curtir, procure saber mais, vá aos shows se puder. Fará um bem para os seus ouvidos e alma.

 

EVEHIVE em mais um set pesado | MEBATUQUE

 

EVEHIVE sempre se supera. DJ do nosso coletivo e hoje morando em São Paulo, Eve mostra em um set muito pesado as suas novas pesquisas de música underground.

“Mebatuque” remete a ondas sonoras africanas muito dançantes, totalmente direcionadas ao groove e gera sentimentos únicos.

Confira agora!

“MEBATUQUE” de EVEHIVE

 

 

O legado do faraó | AUR, Cover Show

Tudo o que é visualizado com otimismo, planejado com cuidado e executado com coragem possui grandiosas chances de dar certo. Venho acreditando nisso com o passar dos anos e o tempo vem mostrando que fica quem persiste e quer mais do que a maioria. Os show que o Baile do Faraó deu no sábado passado prova isso.

Conheço o MSE há uns 4 anos. Me recordo que conheci o trabalho do produtor Sango ouvindo uma mixtape dele no soundcloud. Tocamos juntos varias vezes e desde a primeira vez mantivemos uma relação muito verdadeira, como acredito que seja a maioria das relações do cara. Gabriel dos Anjos, o MSE, é um dos caras mais queridos da cena do rap da nossa cidade. Sorri, brinca e passa uma leveza num meio onde o hype é fazer um carão pras fotos e ostentar o que as vezes não existe. Isso faz com que a sua imagem inspire uma confiança única e crie laços verdadeiros com os que andam ao seu lado.

@louquera

Nessa correria artística, MSE reparou que, pra ser alguém na carreira e não deixar a chama apagar, ele deveria ser mais do que um simples DJ. Visão que pode parecer óbvia mas que poucos possuem. Ele percebeu que se ele não atuasse em outros segmentos na cena, sua carreira ficaria sempre naquela média de cache entre R$300,00 e R$ 500,00, quando o contratante pagava. Essa incerteza da nossa carreira, junto com uma cena que não ajuda e não vira de fato para DJs de rap, faz com que sejamos empreendedores do nosso futuro, concentrando os nossos esforços em ampliar as nossas chances de fazer o game acontecer.

Há mais ou menos 1 ano e meio atrás, encontrei o MSE no ganjah e ele me abriu esse papo. “Mano, ser só DJ não dá. A gente precisa ter o nosso baile e fazer o nosso corre do nosso jeito. Quero pegar essa grana que os grandes produtores pegam.”. Tava ali montada a visão do que seria um dos bailes mais respeitados da cidade atualmente. Depois de algumas edições que passaram pelo viaduto de madureira, o Baile do Faraó chegou ao seu ápice invadindo um dos espaços mais democráticos e difíceis de se virar uma festa, o Hub. Difícil pelo simples fato do lugar ser enorme. Devem caber tranquilo por ali umas 3 mil pessoas e não é nada fácil movimentar essa galera toda pra qualquer baile na cidade. Nessa última edição, MSE trouxe simplesmente os dois maiores expoentes do rap em suas respectivas gerações, e um peso pesado do Funk 150 bpm. Mano Brown e BK’ são de fato os maiores representantes do público negro das suas gerações e suas músicas transcendem o real poder do rap e FP do trem bala é uma das maiores referências do 150 bpm, tendo seus podcasts e videocasts explodidos por todo país.

@louquera

“Eu acho que as mulheres negras entenderam que esse lugar de competição ele só atrasa. que é o lugar onde o machismo e a cultura coloca a gente. então assim, a gente sempre conversa quando estamos juntas. é tão bom a gente estar juntas, falar sobre coisas. nossa angústia, solidão da mulher negra, mas o quanto a gente é foda. pra mim é super importante ter essas mulheres do meu lado” – Lellezinha

Fazer qualquer evento duas semanas antes do carnaval, na cidade do Rio de Janeiro, não é uma tarefa fácil. Várias outras festas 0800 na pista, blocos ao redor da cidade e um calor pesado que deixa a vida de qualquer pessoa mais difícil. Mesmo assim, tudo correu bem. A DJ Afrolai abriu a pista e chamou a rapper Ainá para fazer uma participação bem foda no seu set. Lellezinha chegou mais cedo justamente para ver sua amiga Ainá no palco. Para ela, é importantíssimo mulheres negras se ajudarem nesse tipo de momento.

O DJ Knines fez um set muito preciso e variado. Mas é aquela variação que faz sentido, não uma farofada que não deixa ninguém entender as camadas e recortes de um set. Fez uma variação bonita entre trap, boombap, música brasileira e trap funk. Deu muito certo e manteve a galera, que ainda tava chegando, num bom clima. Minha grata surpresa da noite foi o set da DJ Pauly, que eu ainda não tinha ouvido tocar. O set foi extremamente bem mixado e muito pesado, trazendo camadas muito bem posicionadas de trap, sua vertente principal. O set foi dinâmico e não deixava uma track ter mais que dois refrões. Isso dá uma velocidade na pista e mantém a galera acelerada. o B7DJs subiram ao palco e tocaram varias “rares” que sempre deram a identidade dos seus sets.

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“Eu vejo uma evolução dentro da cultura urbana e um novo olhar pro mundo pra gente estar cada vez mais antenados e se posicionando como pessoas que vem da cultura urbana e estar levando esse game a frente pra gente estar cada vez mais crescendo.” – Thiago de Jesus

O baile tava extremamente organizado. Os horários do line foram muito bem respeitados. Houveram poquíssimos atrasos, que foram por pura e simplesmente troca de equipamentos. Coisa normal em qualquer grande evento. Não vi filas nos bares e dificuldade pro público comprar suas bebidas. Os preços geraram discussões, mas não estavam tão diferentes de outros grandes eventos que acontecem no Rio.

BK’ subiu no palco com muita expectativa. Muitos que estavam ali, não tinham tido a oportunidade de ver o seu show de lançamento do álbum “Gigantes” no circo voador. Infelizmente, o show do Baile do Faraó não foi com banda, mas a energia imposta por ele, JXNVS nas dobras e o DJ Ellif mantiveram a galera firme e quente o show todo. A mesma tática que foi utilizada na abertura do show do circo – um áudio do Mano Brown, na abertura do show, elogiando a sonoridade do álbum – deu certo novamente e essa abertura deve ser utilizada ao longo dos shows do rapper pelo país a fora. O set list tá misturando perfeitamente os dois álbuns do BK’ e suas outras participações em outros projetos paralelos. Bril subiu ao palco para cantar as músicas do nectar e a galera abriu a clássica roda.

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Enquanto o show do BK’ ia caminhando ao seu final, Mano Brown já se preparava no backstage para a sua entrada no palco. O show Brown iria ser logo após o do rapper carioca e rolou uma suspeita de participação. Não rolou o feat, mas um abraço histórico rolou no pós show. Assim que BK’ desceu do palco, os dois se encontraram e o rapper que havia acabado de fazer um show incrível passou o bastão para o maior artista desse país. Brown monta uma entrada muito teatral, usando dois grandes dançarinos para esquentar a galera e trazer ao palco um elemento esquecido dentro da cultura hip hop, a dança.

O palco fica todo vermelho e Brown começa a dar alguns papos retos no microfone antes de rimar o refrão de “Mil faces de um homem leal”, single que narra a história do guerrilheiro Marighella. O show foi rolando e inúmeros clássicos dos Racionais foram cantados. “Jesus chorou”, “Capítulo 4, versículo 3”, “Preto zica” foram os ápices mantendo o show bem quente. Em um certo momento, Brown pede que o seu DJ solte uma música do Marvin Gaye para que ele possa descansar e retomar o show. Ele recupera o folego retoma as rédias da galera.

A galera é um caso a parte. Sempre acho que o público do Rio é morno e muito difícil de ser conquistado. Temos que reparar a dificuldade de juntar um público realmente consumidor de música, não utilizando ela como mais um fator interessante numa night, dividindo atenção com as cervas, os beques e os flertes. É cada vez mais difícil capturar a atenção do público e até pro consagrado Mano Brown essa tarefa foi árdua. A galera, principalmente do backstage, não deu a atenção merecida ao show do Brown, preferindo ficar numa resenha atrás do palco e cantando os trechos das músicas mais famosas. Não viram, por exemplo, o momento que os dançarinos de Brown abriram um mapa no centro do palco e os quatro artistas encenaram “Eu sou 157 ” ao vivo, fazendo uma interação e ilustração da letra do clássico ali no palco.

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“Meu rap nunca foi desprendido do entorno, ele sempre foi muito envolvido e muito compromissado com o entorno. Com a ideia maior que é a evolução do nosso povo, Já que eu disse naquela hora que o rap é o instrumento do negro e de luta do negro. E tem q ser usado bem. Tem que usar. Pra ganhar dinheiro e gerar emprego. Fazer o dinheiro negro girar e tirar os nossos irmãos do anonimato e da reta da arma, morô? Da injustiça e da covardia das madrugadas. Tem que ser um elo da corrente pra trazer sempre mais um, essa é a nossa maior missão. sempre trazer mais um, entende? o seu trabalho e o meu, a gente se completa. somos um corpo só.” – Mano Brown

Mano Brown foi ovacionado quando saiu do palco. Fizemos uma entrevista com ele que, não é exagero dizer, mudou as nossas vidas. Logo após, FP do Trem Bala assumiu a pista e fez um show muito avançado, como era de se esperar. Vários efeitos pirotécnicos e a presença de um dos DJs mais animados do funk. Turbininha assumiu após dele e tinha a difícil missão de manter a pista acesa, sem tocar alguns hits que FP já havia tocado. Ela conseguiu fazer bem a missão e o céu já amanhecia quando MSE entrou no palco para conseguir exercer a sua função principal, que é ser DJ.

@louquera

MSE, Thiago Diaz e todo o bloco 7 deixam um legado de faça por você mesmo, levando essa expressão ao extremo. Usam dos contatos, das suas correrias e das suas possibilidades para realizar o que parecia impossível. O legado é esse.

 

 

Agradecimentos especiais:

Kaire Jorge, por ter viabilizado a entrevista com o Brown.

Ao Baile do Faraó.

A coroação de quem acreditou | BK’ no Circo Voador

Histórico. O que vimos no circo voador naquela sexta feira foi realmente impactante. Pra quem gosta de assistir espetáculos sonoros, BK’ e sua banda realizaram um feito que era de alto risco, mas que foi muito bem executado

 

“Esse tipo de arte que a gente faz, eu acho que ela é mais duradoura do que um hit de verão. Acho que isso é pra quem realmente acredita nisso, pra quem gosta de conteúdo. O que essa rapaziada ta fazendo agora, é uma coisa realmente duradoura. Mais do que tomar de assalto a cena, acredito que a gente vá ter uma cena rica e eles vão contribuir muito para a música brasileira.” – Marcelo D2

O show começou de forma bem impactante.  Logo após o lançamento do álbum, Mano Brown mandou um áudio para BK’ elogiando o disco. Entre outras coisas, Brown dizia que ficou muito feliz pelas ideias passadas e, principalmente, pela sonoridade que tirava o artista da zona de conforto. BK’ e sua banda tiveram a genial ideia de utilizar esse áudio como abertura do show. A galera veio ao delírio e ficou aquecida para o inicio. “Novo Poder”, com seu beat enérgico, foi a melhor escolha para abrir o espetáculo, vindo acompanhada de “O próximo nascer do Sol”

A alquimia entre os álbuns “Gigantes” e “Castelos e Ruínas” foi muito bem pensada e executada para o show. As presenças de Juyê e JXNV$ nas dobras trouxeram calma e euforia para BK’ respectivamente. Enfrentar um circo lotado não é pra qualquer um e a ajuda deles e de sua banda deram a ele a confiança e segurança necessárias para seguir em frente.

 

“Mano e o mlk é isso, ele é um monstro. É um dos melhores liricistas do Brasil, que tem um flow diferenciado que é dele, bagulho característico. E o disco foi isso. Ele é um mlk que tem muita influencia musical e no disco ele botou um peso maior nas bases, tem uma produção muito maior que qualquer trabalho dele. É a coroação de um trabalho, no circo e na nossa área. – Sain

A correria e o risco em se montar uma banda para o lançamento da turnê, foi todo assumido por BK’ e sua equipe. Correria pelo tempo que tinham para montar o show (menos de duas semanas). E risco por escolher essa virada de jogo no lançamento do seu disco na sua cidade. O rolê de montar uma banda, principalmente de qualidade, é muito mais complicado do que qualquer pessoa possa imaginar e BK’ sentiu que aquele era o momento. Numa conversa informal com o cara que viria a ser o diretor musical do show, Theo Zagrae, BK’ lançou a ideia e Theo logo comprou a parada. Em menos de duas semanas eles se enfurnaram no estúdio, juntaram os melhores músicos que tinham em mente (Magno Brito no baixo, Pedro Malcher nos teclados, El Lif nos scratches, Juyê e JXNVS  nos vocais) e montaram um show coeso e direto, que foi dividido em 5 atos, como se fosse uma peça de teatro.

 

Os interlúdios de “Castelos e Ruinas” foram bem utilizados para mostrar ao público que uma outra onda sonora iria se iniciar. BK’ já impressionava os fãs em seus shows com o DJ El Lif virando as bases e JXNV$ fazendo as dobras. Nessa performances com banda  – que teve a honestidade e sagacidade em manter a mesma sonoridade ouvida nos álbuns – o resultado foi impulsionado para outros lugares, educando o seu público a querer ouvir rappers se apresentando naquele formato.

 

 

“Acho que é o momento de tomar o que é nosso. Sempre foi nosso na realidade mas por um tempo nos foi tomado. Acho que estamos num momento lindo, dá pra bater no peito e de fato falar pretos no topo. Essa é a parte mais gratificante. Acredito que o que eu falo e o que o BK’ fala pessoas brancas podem ter empatia e gostar. Mas entender de fato e sentir na pele, só gente preta.” – Baco Exu do Blues

 

As participações foram os pontos altos do show. O lendário saxofonista Léo Gandelman foi o primeiro a subir no palco com o seu saxofone no pescoço e um na mão para dar de presente a BK’, que ficou visivelmente emocionado com aquilo. Quando a banda soltou a intro de “Vivos”, BK’ cantou uma parte de “Me desculpa JAY Z” preparando com classe a entrada de Baco. Marcelo D2 e Sain colaram para cantar “Falam” e juntos deram um abraço gigantesco em BK. Drik Barbosa subiu e a mulherada preta presente a recebeu com muitos aplausos. Junto com Akira e fizeram o remix de “Correria”.

 

O ultimo ato do show foi muito bem pensado. Com a confiança de que o público iria pedir Bis, BK’ volta ao palco com todos os integrantes da Piramide Perdida  subiram ao palco e cantaram todos os hits da banca. “Mec Life”, “Top Boys”, “$$$$$$$”, deram ao público a antiga formação de show do artista com o palco cheio de amigos e El Lif virando as bases. Sacada inteligente pra não fazer essa mudança de carreira de forma brusca. O clássico “KGL” abriu uma das maiores rodas que o Circo já viu, com a formação original do Néctar Gang.

 

No pós show, BK’ estava aéreo. Ainda processando tudo de mágico que tinha acontecido naquela noite. Até pouquíssimo tempo atrás, estávamos trabalhando na mesma festa juntos. Eu como DJ e ele como MC. Antes de “Castelos e Ruínas”, antes de AUR, ou de qualquer outro projeto mais ou menos realizado. Tudo era vontade, sonho e desejo de execução e realização. Ver o meu rapper favorito sendo coroado na casa mais foda da cidade é um triunfo enorme pra quem quer viver de arte. A inspiração que aquele show passou para quem estava por lá foi real e é isso que a gente precisa. Pessoas talentosas parecidas com nós, colocando a gente pra cima.

“O mesmo conselho que o BK de 2013 deu pra ele mesmo. Não desiste mano. É tudo ou nada mas de uma forma que não pareça que se você não conseguiu de uma vez, você não vai conseguir nunca. E isso não é real. É você insistir e sempre ver aonde você erra. Em “Castelos e Ruínas” eu vi onde eu errei e tentei melhorar, em “Gigantes” eu já sei onde eu errei e vou tentar melhorar no próximo álbum. É um papo meio cliche mas é um papo reto, é acreditar e botar a cara.” – BK’

 

Entrevista: Pedro Bonn

Fotos: Lucas Sá

Agradecimentos a Namoral Produções e ao  Circo Voador