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AUR, Radar: O grafismo de Raphael Cruz

Raphael Cruz tem 28 anos. Me lembro do nosso primeiro encontro há oito anos, quando ambos começamos a trilhar o caminho que percorremos hoje. 

Com um sorriso no rosto, Cruz lembra da infância, conta sobre histórias pessoais, família e a importância de seus pais, Andrea e Roberto Cruz, referências na sua busca pela liberdade e foi ali onde tudo começou. 

 

Como um bom e velho capoeirista, resolve seus assuntos com gingado. Inicia a correria no Xarpi e logo migra pro grafite. Naquele primeiro momento, Cruz não tinha espaço dentro do mercado que é, em maioria, feito por brancos financeiramente estabelecidos. Porém seu sonho não acaba ali, muito pelo contrário: se impulsiona. 

Por observação e prática, começa a experimentar o audiovisual e fotografia, onde por volta de 2011 e 2012 estuda no Observatório de Favelas, onde o interesse virou prática.  

 

Entre 2012 e 2013, Cruz frequenta a Oi Kabum e nesse período faz parte da ocupação no Hotel da Loucura. Lá, desenvolve projetos interessantes como o Cinegrada e o Afrontamento, entendendo seu lugar dentro da arte e da cultura. 

Cruz começa a explorar seu lado mais pessoal dentro da arte a partir das exposições junto do coletivo Crua, produzindo  um documentário com material de grande valor sobre os quilombos do Brasil, passando pelo Bracuí e pela Fazenda da Caixa, ambos em Paraty; além do Caçandoca, em Ubatuba, e outros. 

 

Podemos perceber que a partir de 2012 a vida do Cruz não parou por um minuto sequer e o aluno da arte que antes tinha interesse em aprender, mantém essa essência e começa a dar aula passando pela escola SESC como professor de Audiovisual.

Em 2017, Cruz começa a aprofundar seus projetos pessoais e embarca na pintura corporal. Tem em Aninha uma grande motivadora desse corre, realizando sua expressão na pele, com amor. 

 

O grafismo de Raphael e Rack soam como a liberdade em forma de arte. Mãos sujas de tinta e corações preenchidos com aquela curiosidade da infância. Indo cada vez mais fundo naquilo que ambos acreditam, formam o coletivo Rato Preto, um verdadeiro laboratório de experiências artísticas, quase uma dimensão paralela dentro do estado caótico do Rio de Janeiro atualmente.

Em 2018, Cruz faz parte do Setembro Doce na galeria Z42 no Cosme Velho e continua produzindo suas telas. Faz parte do Festival de Inverno no Sesc de Friburgo tendo grande influência na projeção mapeada, onde Jeferson Arcanjo contribuiu fortemente para seu aprendizado nesse caminho.

 

Do ano passado para cá, o Coletivo Rato Preto migra para seu segundo pico, uma casa ainda na Baixa do Sapateiro, onde nos recebeu junto a seu braço direito.

Este ano ainda não chegou em seu final e Cruz já realizou inúmeras atividades. Ele cita sua viagem para Berlim onde aprendeu mais sobre a cultura local e compartilhou sua correria. Cruz voltou da Alemanha colocando em prática projetos que estavam engavetados. Ele me conta sobre a vontade de subverter os retratos de família tradicionais da década de 50 para fotos com famílias pretas, vestidas com sua arte. 

Atualmente, o Coletivo Rato Preto vem captando editais e recursos para a promoção de ações sociais, oficinas e a produção de conteúdo, como a captação de Roupas para  a companhia de dança do ventre Belly Black.

 

Fazia tempo que eu não ia até a Maré e com certeza esse contato vai ficar marcado pra sempre, como as artes que Cruz pinta e tatua na pele de todos que passam por lá.

 

*Todas as fotos são de Edson Jonatan

“Rap da Norte” representa a força da cultura do Viaduto de Madureira

Quem não gosta de ir num lugar clássico, ouvir música boa, dançar a noite inteira e pagar muito barato num ítem valioso da noite carioca que se chama bebida? É isso tudo que o baile “Rap da Norte” te proporciona.

Comandado pelo rapper e grande movimentador cultura urbana de madureira, Chico Tadeu, a festa aposta na qualidade dos DJs para movimentar uma cena que sempre foi criada e colada nos preceitos do Viaduto de Madureira. Donnie, Teco, Will Ow, Julio Rodrigues, LP e Seduty comandam o baile até altas horas com Hip Hop, Funk, Charm, Bass Music e qualquer outra vertente que se encaixe dentro do Viaduto. A acessibilidade é marca registrada do evento. Com bebidas extremamente baratas pros padrões das festas atuais, o Rap da Norte beneficia quem valoriza a música e a companhia dos seus amigos.

“Nossa proposta é levar muita diversão com preço bastante acessível. Essa coisa de eventos com entradas a preços elevados não me atrai, muito menos o povão. Nossas bebidas vão custar entre R$ 1 (água e ice) e R$ 2 (cerveja e refrigerante). Ou seja, com muito pouco a pessoa acessa o evento, curte um som de qualidade, bebe sua gelada e gasta pouco. Isso é a Zona Norte”

Chico é um dos grandes rappers da área mas não se coloca como artista do seu próprio baile. É humanamente impossível produzir e cantar, segundo ele. Conhecendo-o bem, sei que ele tem a missão em movimentar um lugar que foi muito importante em sua vida e dar palco a grandes amigos e DJs que vivem realmente disso. Cola no “Rap da Norte”. Com certeza, o simples vai valer muito a pena.

 

Serviço:

Rap da Norte

16 de agosto
A partir das 22h
Embaixo do Viaduto Negrão de Lima (Dutão)
Madureira // Entrada: R$ 10

Errata. O evento é no dia 16 de agosto (sexta feira). Não no dia 18, como foi erradamente divulgado.

AUR, Radar: Felipe Combo e o Blues das Ruas

Felipe Aguiar sempre respirou a rua. Criado pelo Rio de Janeiro, teve experiências em diferentes bairros, um pouco em Honório, em Barros Filho, no Cajueiro, no Teixeiras, no Vidigal, Tabajara e até mesmo em Magalhães Bastos e no Méier. Um suburbano convicto.

 

@edi0ta

 

Crescer em uma favela do Rio de Janeiro não é pra qualquer um. Imagina morar em várias em uma fase tão intensa como a adolescência, conhecendo pessoas, amores, músicas, contato com amigos que morreram, outros que saíram do seu ciclo e uma infinidade de momentos colecionados.

 Felipe começa sua experiência artística no rock, foi escritor e guitarrista da banda A Queda de Ícaro, ali começou sua curiosidade pelo audiovisual. Felipe sempre jogou nas 11 e nessa fase passou a aprender mais sobre produção visual e fotografia.  

 

Teve experiências interessantes passando pelo Esporte Interativo,  Balanço Esportivo e a Calvino Filmes. Apesar de toda essa experiência corporativa, seu principal gatilho para entrar de cabeça na arte foi sua irmã, Maria Andréa de Souza, atriz e uma de suas maiores referências artísticas, como ele mesmo diz.

Nota-se que a vida não caminhou para essa rota apenas com sorte e referências. Felipe passou por diferentes situações perigosas para executar seu corre, a polícia mira em um alvo e na grande maioria das vezes ele é preto, experiência que o artista vivencia todos os dias.

Flamenguista convicto, Felipe viajou para torcer e fez parte da Raça, torcida organizada do seu time de batismo. Uma contribuição gigante na formação de seu caráter e aprendizado sobre a rua. 

Os anos se passaram e Felipe, já como videomaker, começa sua empreitada produzindo material para artistas de renome. Ele lembra de Ludmilla, Wanessa Camargo, Mumuzinho, Jeito Moleque, MV Bill, Thiago Martins, Mellin, Sant, e inúmeros materiais para Banca Records e Original Boca, dois grandes selos do rap nacional.   

 

Felipe é dedicado, um ávido estudante da cultura e a partir dessa necessidade de estudo e prática surge seu projeto pessoal mais importante, o Blues das Ruas.

Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça. Madrugada afora, Felipe registra a rua, sorrisos, lamentos, reflexões, pontos de ônibus, trens, ruas, vielas, amores e a vida como ela é: um grande filme que não termina, vive em todos nós. 

Felipe corre, quer alcançar cada vez mais seus objetivos através da arte, usando seu olhar sobre a vida e o que há nela. O Blues das Ruas toca e ele cria, assim como faz seus vlogs pessoais registrando seu processo de criação, família, aconchego e inúmeros copos de cerveja, criando sempre com um sorriso no rosto. Brindando à vida.

 

 

Todas as fotos são de Edson Jonathan

“Simonal” estréia hoje e conta a verdadeira história de um gênio

Estréia hoje nos cinemas a cine biografia de um dos maiores ídolos da história da música nacional, Wilson Simonal. Sua controversa história, aliada a um extremo sucesso, delação na ditadura e boicote da classe artística faz com que sua trajetória seja caso de estudo para novos artistas.

Simonal era negro, talentoso e muito auto confiante, fato que assusta até hoje a classe dominante vigente. Segundo declaração de Fabricio Boliveira, ator e personagem principal do longa, esse fato foi preponderante para a queda do astro. “Ainda hoje, é insuportável no Brasil que um negro seja famoso, rico e genial”.

Os filhos Max de Castro e Simoninha tem o grande objetivo de resgatar a memória artística do pai e, pelo trailer abaixo, parece que conseguiram.

Veja o trailer, o filme e nos conte o que achou

 

 

AUR, Radar: A vivência de Thiago Raka

A cultura urbana respira em diferentes pontos, em cada quintal. A cada círculo a sociedade cria e nos mostra a necessidade da liberdade de expressão. Cada painel, cada eterno, cada sequência de nome carrega o orgulho e a vivência de quem tá no corre, nota-se que aqui não é pelo errado ou pelo certo, é pela rua, pela expressão, pela operação diabólica. Od2′ é a sigla dele, o nome? Bem, temos vários em diferentes vertentes da arte urbana, hoje vou falar um pouco sobre o Thiago Raka. 

 

 

 

 

Nascido e criado na zona norte carioca, Thiago tem 26, tá em todos os pontos possíveis da cidade, pelo street view do Google talvez você consiga enxergar ele por aí, seja na noite, no rolé, tomando um gelo ou em projetos sociais contribuindo pela cultura.

 

Em 2005, Thiago tacava ‘Lost’, e nessa fase os rolés se limitavam a rua e tinta, não existia uma pretensão sobre entender o que aquilo ia acrescentar no futuro. Anos mais tarde, 2008 pra ser mais exato, Thiago entra para o terceiro pelotão da Jovem Fla, torcida do Flamengo. Lá ele aprende mais, talvez por um caminho impetuoso, somado ao novo nome nas paredes. Nessa fase, Lost fica na gaveta, ou melhor, nos muros da cidade dando espaço para Raka que respira até hoje.

 

Entre 2008 e 2012, Raka fechava com a sigla Ln, Largados na Noite pros cria que sabe. 

 

A questão é, se você não estiver nesse universo talvez os nomes sejam só mais um rabisco. Na realidade essa visão é totalmente errônea, as paredes falam e as telhas ouvem cada pegada na calada da noite.

 

Em 2012, um clique: a morte de César José da Silva, seu avô paterno, homem misterioso como o próprio neto diz. César foi de grande influência para Thiago em pequenos detalhes, como a visão dele assistindo ao noticiário, os livros na estante sobre anarquia e política, as anotações, as saídas de branco às terças e de terno às quartas. Seu avô faz falta.

Em 2013 Thiago entra para a Anistia Internacional, uma ONG com atuação global  e fica lá até 2017. Entre experiências e manifestações em prol da causa preta, Thiago assina em 2013. Foi pego pela polícia lutando por seus ideais, fato que resultou em uma postura mais séria na sua empreitada social.

 

Entre trabalhos comunitários e troca de experiências enriquecedoras para sua formação, aprendendo mais sobre a cultura, sua cor, seu cabelo –  hoje já com dread, não por estética, mas pela liberdade de se fazer o que quiser com seu próprio corpo – Raka continua sua vivência.

 

Em 2016, muito influenciado pelas ações políticas e por seu avô, Thiago sente a necessidade de conversar com as crianças e um dos projetos mais enriquecedores de sua formação nasce: a participação no Emancipa, uma atividade cultural ministrada na Ilha do Governador. Nascia, então, uma ação conjunta com o Degase, a convite de Talita Gamboa, marcando um resgate às suas origens, dando às crianças algo que ele próprio não teve na escola, mas que aprendeu na rua.

 

Em 2018 Two Two, Vint2 ou Chp, como os amigos mais próximos o chamam, assina de novo, dessa vez pelo xarpi. Nessa situação, Ln não era mais a sigla, dessa vez Thiago tacava pela Operação Diabólica, ou Od2′ criada por Wboy pra quem sabe.

 

Atualmente, Thiago faz parte do laboratório Oi Kabum e está desenvolvendo uma pesquisa interessante sobre o street view. Seu objetivo é transmitir as relações interpessoais que acontecem na cultura, no caminho entre a ponte centro-subúrbio. Thiago e sua equipe unem tecnologia, arte e as conexões urbanas, culturais e sociais. Raka tá no corre.

@edi0ta

 

*Todas as fotos foram feitas por ED

Blood Orange e a sua leveza em “Angel’s Pulse”

Depois de Negro Swan o quarto álbum de estúdio de Blood Orange, “Angel’s pulse” soa como uma mixtape interessante, não apenas pela experimentação de sonoridades e diferentes tipos de vocais, mas pelo conjunto completo, incluindo a excelente curadoria de participações. 

Contextualizando: 

Dev Hynes A,K,A Blood Orange é um produtor e cantor britânico. Fez parte da banda Test Icicles e, com o grupo, já apresentava experimentações sonoras mesclando synth e guitarras tendo pequenas aparições nos vocais. A partir de 2011 passou a disponibilizar seus discos por seu pseudônimo, onde temos os interessantes Coastal grooves (2011), Cupid Deluxe (2013), Freetown Sound (2016) e o aclamado Negro Swan (2018)

 

Apesar das colaborações de Negro Swan serem de peso como A$AP Rocky, Georgia Anne e Steve Lacy, Orange mostrou passear nas produções, sempre leve, fino e, assumo dizer, brilhante. Isso é um fato marcante principalmente por ser uma mixtape, despretensiosa quando falamos de números da Billboard mas direta quando direcionada para o público que acompanha sua carreira. 

Angel’s Pulse soa cinematográfico, versa entre o soul, hip hop e variações de guitarra em diferentes coleções e sobras de canções como o mesmo intitula de sobras apaixonadas. 

Entre as participações de Angel’s Pulse temos o produtor e músico Toro y Moi em Dark & Handsome, Kelsey lu & Ian Isiah em Birmingham, Good For You com Justine Skye, um interessante toque em Gold Teeth, com Gangsta Boo, Project Pat & Tinashe em que inclusive colabora na faixa 10, Tuesday felling, com excelentes vocais. BennY RevivaL, Arca,Joba e Justine Skye também fazem pontuais participações, já que a preocupação de Hynes nessa mixtape não é apresentar uma acessibilidade abrangente, ele experimenta, recorta e toca a sensibilidade. 

Um outro ponto interessante da mixtape está nas letras, que toca nos mesmos assuntos que seus acordes quando canta em Baby Florence (Figure):

“What is it you notice?

All that we do are think in sounds

Can help you figure it out (…)

I’ll help you figure it out.” 

Angel’s Pulse repete algumas fórmulas de antigos trabalhos, principalmente quando pensamos na produção, o que não é um ponto negativo, pois soa de forma nostálgica, não repetitiva. 

 

Colaborando com outros artistas de forma inesperada, esse trabalho de Blood Orange, talvez soe duvidoso pela opção de não abordar um tema central, o que para alguns ouvintes novos possa soar um tanto aleatório. Por isso, talvez seja importante ouvir trabalhos antigos do artista para entender melhor seu universo, ou imergir em Angel’s pulse de forma leve, assim como as sensações que o disco transmite. 

Angel’s Pulse em uma faixa: Benzo.

 

 

“Lost Boys”, de YBN Cordae, é um dos melhores álbuns de rap do ano

YBN Cordae é uma das grandes apostas do rap americano. Ele soltou o seu primeiro álbum “Lost Boys” que já é considerado um dos grandes destaques do ano.

Com várias participações de peso como Chance The Rapper, Meek Mill, Anderson .Paak e Pusha T, o álbum mostra as vivencias de YBN Cordae como um jovem que ainda não descobriu o seu caminho.

” “Lost Boy” representa quem ainda não encontrou o seu caminho ou as suas conexões”, disse ele a Apple Music. “É como se eu estivesse perdido em um momento da minha vida”

Confira porque vai valer a pena!

 

 

Beyoncé e a Beleza da Cor em “Spirit”

A entrega de Beyoncé é gigantesca. Em tudo que ela se envolve, todos nós podemos esperar o mais alto nível de qualidade e beleza em seus trabalhos, desde os detalhes das suas roupas, indo da fotografia até a parte musical.

Em “Spirit”, Beyoncé cumpre o nível de exigência dos seus trabalhos e entrega um clipe primoroso. As cores do clipe se unem as cores do filme Rei Leão, em que ela faz a voz de Nala, uma das personagens principais da trama. É bonito ver no clipe a comparação entre a relação de Mufasa e Simba com a dela e sua filha Blue e a beleza das cores das peles dos dançarinos misturadas com a estética proposta.

O single faz parte do álbum “The Lion King: The Gift”, que será lançado amanhã (19/07) e tem várias participações pesadas como Kendrick Lamar, JAY Z e Pharrel. Beyoncé canta 10 das 14 faixas do disco e mostra a conexão entre ela e o filme Rei Leão.

O clássico filme da Disney será relançado hoje nas telas de cinema do Brasil e tem, na gringa, vozes de Beyoncé e Childish Gambino como Nala e Simba e por aqui Iza e Ícaro Silva dublam os personagens.

 

 

O Festival Pirâmide Perdida foi a cara do Rap carioca

No último sábado 13/07 o selo pirâmide perdida realizou seu segundo festival no Circo Voador.

Diferente do ano passado, esse ano o line foi voltado pro lançamento dos discos Running do Febem e Nandi do Akira Presidente. A abertura da casa ficou por conta do B7DJ$ e na sequência DKVPZ e Afrolai fazendo as honras.

O destaque dessa edição esteve em três pontos: O Merch da Pirâmide Perdida que contou com 3 peças,  “Ancestrais”, “ALL ACESS”, “Injured” e o Merch dodisco NANDI; A estética visual dos shows e os já normais Mosh deixando o rolé pesadão.

Quanto as apresentações:

Febem, artista da Ceia apresentou seu disco Running trazendo os convidados que fazem parte do projeto, além de contar com Fleezus nas dobras.

Bril, CHS, Luccas Carlos e Jxnvs também  cantaram seus últimos lançamentos e  contribuíram pra uma festa a cara do rap carioca.

BK’ fez pontuais participações, além dos versos em “Esse é meu estilo” com Akira Presidente no disco do Febem, ele cantou algumas músicas dos seus últimos trabalhos, preparando o terreno para o Father apresentar seu novo projeto.

O Show de Nandi foi incrível. As participações também marcaram presença ajudando a mostrar a que o disco veio, com uma proposta interessante e muito intimista já que o trabalho leva o nome de sua filha e teve grande contribuição de sua esposa AinA.

Mais uma vez a pirâmide fez um trabalho bem profissional, conseguindo criar um evento com casa cheia no mesmo dia que Sango, mostrando que o rap do Rio de Janeiro está mais forte que nunca.

*Todas as fotos foram cedidas por Lucas Sá

Akira e uma ode a família e a persistência | “Nandi”

Existem algumas coisas que me fazem ser muito apaixonado por rap. Conhecer as reais intenções, a família, as dores,  os desejos e traumas de um ser humano é o que faz o Rap ser uma das maiores formas de expressões da história. Eu não quero conhecer um artista pelo os seus stories. Quero conhecer quem eu curto através da música e Akira faz muito bem esse papel.

“Nandi” de Akira Presidente é uma ode a família, ao rap e a perseverança em acreditar em si como artista. A família pois são inúmeras citações sobre sua filha Nandi e sua esposa Ainá, que participa de uma das faixas. E a perseverança pois Akira é uma das relíquias do rap carioca. Primeiro campeão da lendária batalha do real, Akira é um verdadeiro soldado e amante do rap, tendo uma disposição e perspicácia que poucos MCs de sua época tiveram. Sempre se renovando, Akira construiu relações verdadeiras com rappers bem mais novos mas que tinham uma visão nova e fresca da nova cena de rap que estava surgindo. Ao invés de travar batalhas estúpidas entre gerações, onde sempre os mais novos levam vantagem por justamente serem novos, Akira sempre se reinventa e se posiciona como um dos grandes destaques da cena.

A “Intro” do álbum traz a homenageada com o nome do álbum apresentando a obra. Sua filha Nandi conversa com o público apresentando o álbum e as suas participações. “Assumindo o Risco” traz as melhores linhas do álbum.

“Tô assumindo o risco,

de ser feliz muito mais do que só rico.

Sem falar no sacrifício

Minha vida andou só depois do quinto disco”

Esse verso traz a tona a questão da perseverança do Akira em sua carreira. Ele explica em quatro linhas que vai demorar a chegar o que você almeja e é preciso persistir. “Vivo Como Quero” tem um dos melhores beats do álbum e “Livre” traz o feat do Baco Exu do Blues. A rima de Baco fica repetitiva no seu final, mas ele consegue passar a sua mensagem. “Dance” é a track mais comercial do álbum e continua pregando o sentimento de liberdade que foi imposto desde a música anterior. Pelos stories de Bk e Akira, vem clipe em breve.

“Ela Sobe, Ela Desce” é a track mais envolvente de “Nandi” e traz a sua esposa Ainá no feat. Ainá se mostra mais segura e confiante nos seus versos e a sua rima se encaixa perfeitamente no beat de El Lif. Bom ver o crescimento dela como rapper e os olhos estão abertos para suas próximas músicas

“Promessas” é o som mais reflexivo do álbum e, na minha opinião, é a melhor track de “Nandi”. É nessa track que conhecemos mais a fundo o interior de Akira pois é ali que enxergamos os seus medos e desejos. Parece que Akira faz uma reflexão sobre os esporros que ele deve ter recebido das mulheres que sempre cercaram a sua vida, onde ele concorda com elas que precisa cuidar e querer mais de si. E ao mesmo tempo, Akira reconhece os erros e a falta que ele faz dentro da sua família, por conta de sua vida corrida. Não da pra saber ao certo se ele fala diretamente para Ainá, Nandi ou para as duas. É uma conversa sincera sobre família e um reconhecimento de erros pela sua ausaência.

“Lamborghini” traz um feat quente de Bk’ é o tipo de track que vai abrir roda no Circo, assim como “Eles Riram”. “Sem Saída” fecha o álbum e fala sobre respeito e afirmação como homem e rapper. É essa auto afirmação que é sempre necessária pra qualquer homem preto. Mesmo que tenhamos que gritar retoricamente sobre isso.

El Lif, DJ e o principal produtor da Piramide Perdida, dominou o álbum com 9 das 10 tracks sendo produzidas por ele. Somente a faixa “Livre” não esteve nas mãos dele. Foi produzida por um dos maiores destaques da cena dos últimos tempos, a dupla DKVPZ.  É com esse tipo de percepção de cena, com as conexões criadas e, claro, com o talento inegável que tem para fazer rap, que Akira se mantém como um dos rappers mais relevantes e vivos do cenário.

*Capa do álbum por Wilmore Oliveira