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O que esperar de Marcelo D2?

A vida é feita de altos e baixos. A vida artística então é feita de mais baixos do que altos. Fama, dinheiro, arte, negócios, família, falsos e verdadeiros amigos… são tantos os fatores que envolvem a vida de um artista que é preciso ter cabeça e principalmente equilíbrio para sobreviver nessa selva. Se existe algum segredo para se manter relevante, respeitado e continuar tendo um verdadeiro protagonismo artístico, pode perguntar pro D2.

Faça um breve resumo da carreira do Marcelo D2 na sua cabeça e repare por quantas vertentes ele transitou e conseguiu respeito. Foi inovador ao criar uma banda de Punk Rock brasileira que possuía elementos fortes do hip hop, montou coletivos com novos e grandes MCs da década de 90, lançou um CD clássico com vertentes de samba dando uma nova visão para sua carreira e depois disso, manteve a qualidade em todos os trabalhos que lançou. Isso sem contar no respeito e admiração que adquiriu em todas essas vertentes – sem pagar pau pra ninguém – que o colocam como o artista mais genuíno desse país. Podemos tranquilamente comparar a sua trajetória musical com qualquer outro grande nome da MPB. Gil, Djavan e Caetano assumiram tantas vertentes, beberam de tantas fontes musicais ao longo dos anos que é praticamente impossível enquadrá-los em alguma vertente. E artisticamente isso é muito bonito.

O que a maioria das pessoas não entendem é que a MPB é abrangente. No sentido literal da sigla, Música Popular Brasileira reflete o que é popular. E por que o Rap, o Funk ou o Pagode não podem se enquadrar nessa nomenclatura? Ainda sinto um saudosismo exacerbado sobre “o que era a MPB” e uma forçação de barra com os artistas da “nova MPB”. Será realmente que esses artistas são realmente populares com o seu viés cult/zona sul/puc e será que esses artistas serão tão relevantes como um BK, por exemplo? Qual é exatamente o medo e receio com a palavra “popular”? Porque tudo o que se torna “popular” tende a ser taxado como ruim ou de baixa qualidade? Isso me dá a clara visão de um preconceito burro, de uma segregação musical estúpida. Me faz reparar que é sempre colocado uma barreira entre artistas populares dos anos 70/80 e os artistas da nova geração. Cada um tem a sua linguagem, cada um vive o seu tempo. É preciso ter sagacidade e perfeita compreensão da atualidade, sem nunca esquecer o passado para que os dois lados dialoguem. E é exatamente isso o que D2 faz.

Inovação. É isso que podemos esperar do D2. Nunca imagine que ele ficará numa possível zona de conforto fazendo o que o seu público espera. Quem é fã do D2 nunca pode esperar nada. Não espere mesmice de um artista verdadeiro. Deixe o artista ser artista. Essa semana ele lançou o primeiro clipe do seu décimo disco, trazendo nele integrantes da Piramide Perdida e vários outros jovens artistas da cena underground carioca. Numa entrevista bem maneira que ele e o fotógrafo do ihateflash e diretor do clipe “Resistência Cultural”, Wilmore Oliveira deram pra Noisey (http://migre.me/wnb6b), D2 explica melhor o processo de criação de todo trabalho audiovisual que ele vai lançar. O mais foda é ler as palavras de um artista consagrado dizendo que “quer fazer uma coisa bonita esse ano” o que deixa claro a sua vontade constante de sempre trazer algo verdadeiro, algo que seja realmente dele.

D2 vai lançar o seu décimo disco no dia do seu aniversário de 50 anos. Isso mesmo, 50 anos. Enquanto uma grande parte dos novos rappers brasileiros ainda não descobriram a real musicalidade do Rap nacional e ainda tentam referenciar (leia-se copiar) o Rap americano, D2 se mantém no trono com a sua cabeça aberta pro futuro sem nunca se esquecer do passado, nos ensinando sempre como a arte pode ser livre e abrangente.

Imagem: I Hate Flash/Rolling Stone

Joy Jones

Joy Jones é uma cantora que mistura Soul com o Afrobeat Nigeriano, o que no oeste londrino é conhecido por broken-beat, um subgênero da música eletrônica onde o ritmo é ancorado pelo Soul. Joy Jones tem o timbre das grandes cantoras de corais gospel e lançou seu primeiro e único disco em 2009.

 

Não existe quase nenhuma informação nas redes sobre Joy Jones, sabe-se apenas que ela saiu dos Estados Unidos para estudar e no Reino Unido encontrou a sua veia artística, lançando seu álbum Godchild, que é uma mistura única do eletrofunk de Bambaataa com house music. E pessoalmente falando é um disco que me acompanha desde então pela sua originalidade e pela mistura única que não encontrei em nenhum outro artista.

Imagem: capa do álbum Godchild

Saba

Tahj Malik Chandler, mas conhecido como Saba é rapper e já participou dos álbuns Ology do Gallant – Indicado ao grammy de melhor álbum urbano contemporâneo e do Coloring Book do Chance The Rapper – ganhador dos grammys de melhor artista revelação e melhor álbum de Rap.
O rapper de Chicago é considerado uma das apostas para os próximos anos, pelo seu desenvolvimento e pela capacidade de captar o peso e as cicatrizes de sua cidade com a visão e tristeza tipicamente reservadas para os observadores mais velhos e segundo a Noyse, pela sua poesia musical ele pode ser a voz da west side de Chicago.
Saba lançou em outubro de 2016 sua terceira mixtape – Bucket List Project – e o álbum Monday for Monday está previsto para ainda 2017.
Não percam Saba de vista.
Westside bound 3

Imagem: Village Voice

Comercial Skol

Ter formação em comunicação me fez entender de dentro, de que forma e por que meios a propaganda nos direciona a determinadas formas de consumo e de comportamento. Toda a minha trajetória dentro da academia sempre foi questionadora e crítica – a chamada problematizadora – os trabalhos, apresentações, seminários e até mesmo meu tcc foi colocando o dedo na ferida e fazendo apontamentos pela forma como a publicidade usa de seu poder e influência para estigmatizar e reforçar estereótipos.

Lembro bem que lá no por volta do segundo período tive que fazer um trabalho onde a proposta era pegar um case de uma propaganda de sucesso e analisá-lo. Peguei os cases de empresas que reforçavam estereótipos raciais como a Cerveja Devassa – Mulher negra objetificada -, Azeite Borges – O homem negro é sempre o segurança – e por último mas não menos preocupante, a Caixa Econômica Federal – ao embranquecer Machado de Assis em vídeo de divulgação.

Sim, a problematizadora. Mas saber elogiar também é válido.

Eu, que nunca fui consumidora de cervejas, fiquei surpresa e bastante feliz pela iniciativa da Skol em sua última campanha “ Redondo é sair do seu passado”, onde foram convidadas 6 ilustradoras para recriar pôsteres antigos sob um novo olhar: atual, diversificado e libertador.

Vamos as Ilustradoras:

Eva Uviedo, argentina radicada em São Paulo, é ilustradora de livros e colaboradora de revistas e jornais.

Criola é artivista negra, grafiteira e ilustradora, tem um trabalho que resgata a importância da identidade da mulher negra brasileira.

Camila do Rosário, é gaúcha, largou o curso de moda para se dedicar totalmente às artes, suas ilustrações já saíram em diversas publicações, participou de várias exposições coletivas e atualmente tem um ateliê no Rio de Janeiro.

Elisa Arruda, nascida em Belém a artista é graduada e pós-graduada em design e possui em grupo de 150 desenhos em nanquim que constituem a série “Essa é você”.

Manuela Eichner, artista visual formada em escultura, produz vídeos, performances, oficinas colaborativas, estampas, ilustrações e colagens tridimensionais.

Carol Rossetti é designer e ilustradora, possui 2 projetos autorais, o “Mulheres” e “Cores” que ganharam bastante repercussão na rede.

Update: Não poderia deixar de falar sobre o trabalho poderoso de Evelyn Negahamburguer, ilustradora e grafiteira, criadora do projeto Beleza Real, que retrata mulheres reais e seus desejos de viverem simplesmente como são, sem padrões e com respeito.

E com um adendo, a marca abriu precedente para qualquer um que ver uma peça antiga, informá-la que ela fará a troca por um Reposter novinho em folha.

Sem ingenuidades, sabemos que o mercado é flexível às demandas e que se adequa para não perder consumidores, porém é importante reconhecer que foi através de diálogo e de novas proposições dos movimentos sociais que um caminho de mudança, dentro do campo da comunicação, está sendo trilhado.

Imagem: Banners das ilustradoras e grafiteiras Evelyn Negahamburguer e Criola.

Christopher Gallant

Christopher Gallant é cantor de R&B e um dos jovens artistas que aparecem na lista Forbes 30 Under 30 com um depoimento de ninguém menos que Elton John que diz “Quando ouço a sua voz, eu me perco”. Estamos falando da recomendação de uma cara que tem mais de 50 anos de carreira.
Gallant tem melodias que irradiam uma grande intensidade sensual e muita paixão, ouça especialmente, Bourbon com feat. do Saba (guardem esse nome).
O Spotify apostou nele como revelação de 2016 e a Billboard o nomeou o número 1 do festival Coachella.
O seu álbum Ology, de 2016, foi indicado ao grammy de melhor álbum de urbano contemporâneo.
A voz do Gallant é potente e o vídeo de apresentação que ele fez para o canal de rádio NPR, mostra que o menino Gallant não veio a passeio.

Imagem: LA Weekly

Série Pitch (Fox)

O baseball, embora pouco conhecido no Brasil, é um dos esportes mais populares na América Central e na América do Norte, sendo ele o desporto que mais leva torcedores aos estádios nos Estados Unidos.

A Major League Baseball – Liga Principal de Beisebol – é o nível mais alto do jogo profissional na América, cujo atual campeão é o Chicago Cubs e o time que mais tem títulos (27) e o mais valioso (US$3,4 bilhões), segundo a revista Forbes, é o New York Yankees.

O contrato mais valioso da história de todos os esportes (US$325 milhões) foi assinado em 2015 por Giancarlo stanton para jogar no Miami Marlins por 13 temporadas.

Mas você deve estar se perguntando: Por que citar tantos números? Porque por trás de cifras que ultrapassam e muito a casa dos 3 dígitos, não há uma mulher. Seja nos bastidores, como manager ou treinadores, ou como jogadoras da Liga Principal.

Ah sim, a primeira mulher a integrar a lista de registros internacionais da MLB, foi a francesa Melissa Mayeux, em 2015, e lembramos que ela está elegível a ser contratada mas até o momento nenhuma equipe integrou ela em seu casting. Estamos falando de um esporte cuja primeira referência surge em 1744 e que aceitou um negro (Jackie Robinson) como jogador apenas em 1947.

“Jogar como uma menina” ganha outra conotação quando a menina em questão é Mo’ne Ikea Davis, 16 anos. Jogadora da Liga Americana da Filadélfia, Mo’ne Davis foi a primeira menina negra a jogar a 2014 Little League World Series e ganhar após lançar um shutout (é quando um pitcher – arremessador- completa um jogo sem ceder nenhuma corrida) e ser capa da Sports Illustratred como jogadora da Liga Menor.

E é aqui que a ficção entra para dar conta da representação da realidade…

Em Pitch, série de 2016 da Fox, Genny Baker (Kylie Bunbury) é a primeira mulher, mulher negra – racializar é necessário para situar uma mulher negra na linha histórica, quando há um apagamento (vide Hidden Figures) – a integrar a MLB no time do San Diego Padres.

Uma mulher negra de 23 anos, sendo a primeira a integrar um time na liga profissional de beisebol…Devido ao ineditismo, Genny Baker já chega balançando o time, fazendo com que todos os jogadores questionem a sua capacidade enquanto mulher e lançando para si todos os holofotes num mundo até então masculino.

A série se utiliza de flashbacks para contar a história em 10 episódios, a relação com pai que foi o grande influenciador para a sua entrada no esporte, as relações com a mãe e com o irmão. As suas expectativas sobre abrir caminhos e ver menininhas com cartazes sobre serem as próximas.

Aqui um ponto que poucas vezes tocamos e que quando somos extremamente pressionadas, ele vem a tona: A síndrome do impostor, essa síndrome aparece principalmente em mulheres e se configura por uma crise existencial intensa e por questionamentos sobre as nossas reais capacidades. Para saber mais sobre ( http://migre.me/wgS4t ) e vídeo (http://migre.me/wgS5u ).

Pitch trás para a discussão a pouca representatividade dos negros nos campos de poder quando Ginny Baker está como exceção assim como LeBron James (Basquete), Serena Williams (Tênis) e Barack Obama (Política).

Ginny Baker é uma menina de 23 anos no topo do mundo e de lá às vezes se sente só, se questiona, lembra de eventos e fatos que teve que abrir mão pra chegar onde chegou e de que todos, absolutamente todos os dias, ela tem que enfrentar um mundo que diz que ela está no lugar errado.

Mainsplaining (junção das palavras ‘man’ e ‘explain’): situação em que homens interrompem mulheres para dizer exatamente o que elas estava dizendo quando foram interrompidas, de forma paternalista. Essa situação que muitas mulheres passam, aprendi em Pitch.

Mas nem tudo é um jogo de She x Men, lá por volta do sétimo episódio temos uma verdadeira aula de como o corpo de uma mulher pode ser objetificado e de como os homens podem agir para mudar mentes e cenários machistas.(sem spoliers 🙂 )

Pitch é uma série sobre mulheres negras no topo, das guerras vencidas e perdidas, sobre relações familiares construídas a partir de um sonho, mas é sobretudo sobre acreditar em “I’m next”.

Assista o trailer:

Imagem: Banner de divulgação