Todas as matérias referente a opiniões

Festival Latinidades Afrolatinas

“Precisamos imaginar este tipo de sociedade em que queremos viver. Não precisamos simplesmente presumir que, de alguma forma, magicamente, vamos criar uma nova sociedade na qual haverá um novo tipo de seres humanos. Não, precisamos começar o processo de criar a sociedade em que queremos viver agora”. Angela Davis

O Festival Latinidades Afrolatinas é o maior festival de mulheres negras da América Latina e articula redes nacionais e internacionais, dando visibilidade para a produção artística, cultural, política e intelectual de mulheres negras em enfrentamento ao racismo e ao machismo.

O tema desse ano é:

Horizontes de liberdade: afrofuturismo nas asas da Sankofa

De 27 a 30 de julho de 2017 será realizada a 10ª edição do Festival Latinidades e para que isso aconteça o Festival precisa do apoio de todos.

Para a realização do projeto, o Festival conta com diversas parcerias. Em 2017, eles optaram também pela campanha de financiamento coletivo que tem como objetivo: financiar parte da programação artística, passagens e hospedagens de mulheres negras de diferentes regiões brasileiras que virão a Brasília acompanhar a programação.

Com o valor mínimo de R$ 10,00 você pode contribuir com o projeto. Como forma simbólica de agradecimento aos apoios, O Latinidades Afrolatinas tem 09 tipos de objetos, também chamados aqui de recompensas, para serem entregues durante o Festival, a quem contribuir com valores a partir de R$ 20,00.

Contribua!

https://www.catarse.me/festival_latinidades_10_anos_0a0f…

Mano Livre Brown

O maior objetivo de um artista é ser livre. Livre pra mostrar sua obra, seus sentimentos, suas ambições e devaneios. E essa liberdade é acompanhada pela vontade do artista em ser unânime. Dizemos que não mas ligamos muito para a opinião alheia. No final das contas, ser compreendido é basicamente o que queremos. Tudo aqui é tão denso e tão intenso que achamos que todos tem que aceitar e agregar aquilo que estamos jogando para fora.

Fui ver o show incrivelmente bonito do Mano Brown, que apresentou o seu mais novo trabalho “Boogie Naipe”, e no meu rolé pela Lapa pós Circo Voador fiquei me perguntando por quanto tempo Brown segurou esse trabalho e aqueles sentimentos para si. Eu vi um Mano Brown sorrindo no Circo Voador. Alguém tem a verdadeira noção disso? Quem realmente o acompanha e segue a história e a luta dos Racionais, sabe o quão difícil seria ver aquela cena de um Mano Brown livre, sem amarras e demonstrando sentimentos que a gente não conhecia. Ou não queria conhecer.

Mano Brown é uma espécie de Mandela do Rap nacional. Sério. Mandela abdicou da sua vida pessoal e dedicou os seus esforços e sua luta a uma causa que era muito maior do que ele próprio. Acredito que se você quer ser referência e entrar realmente na história por ter deixado alguma verdadeira marca no mundo, algum grande sacrifício você terá que fazer. Algum preço alto você terá que pagar. Qual é o tamanho do seu sonho? Será que vale passar 27 anos na cadeia por ele? Será que vale a pena deixar seus sentimentos de “stand-by” por alguns longos anos até que chegue a hora certa de soltá-los para um público que você dedicou sua vida e que provavelmente não te entenderia?

Pro Mandela valeu a pena. Pro Mano Brown acho que tá valendo também. Ele tá menos agressivo, menos sisudo, menos intempestivo. Mas meu coração e intuição me dizem que ele está 10 vezes mais perigoso hoje, pelo simples fato de ter evoluído. Brown hoje ocupa espaços, atinge pessoas que quem tinha medo da mudança e revolução que o poder da palavra dele poderia causar não imaginaria. E é aí que tá o verdadeiro perigo para eles. Quando eles menos esperarem, Mano Brown assume de novo o seu papel revolucionário – que nunca deixou de existir – e passa essa mensagem de uma nova forma. Sempre eficaz e direta.

Tudo tem a hora exata para acontecer. Deixe o seu mito ser humano. Deixe o artista ser artista. Não fique esperando muito dele. Deixe ele sair da sua zona de conforto pra te tirar da tua zona de conforto. Todo mundo merece ser o que quiser e ser minimamente respeitado e admirado por isso. Se o seu sonho não te exige sacrifícios, alguma coisa tá errada por aí. Mandela se sacrificou e virou um mito. Mano Brown se sacrificou, virou um mito e tem a coragem de pôr isso em risco justamente para ser o que Mandela demorou 27 anos para ser. Livre.

Foto: Lucas Sá

“Inshalá Inshalá”

Vamos falar de dinheiro. Palavra que todo mundo quer ter mas que ninguém nesse país pode falar que quer ter. Porque a partir do momento que falamos que queremos viver uma vida minimamente confortável, parece que nos é apresentado o oitavo pecado capital e iremos arder no mármore do inferno. Somente por dizer que quer ser rico.

Ainda mais se essa pessoa for do gueto.É praticamente impossível para outra pessoa de uma classe social superior perceber que você possui desejos, ambições e responsabilidades com a sua própria vida e a da sua família. Parece que seu destino já foi definido antes mesmo de você nascer. Tu vai trabalhar exaustivamente a vida inteira de 8hs às 18hs, ter uma vida bem mediana e viver o sonho dos outros. E você ainda tem que agradecer por isso.

O poder supremo desse país sabe muito bem como o nosso povo é. Desde o início da nossa construção, todos que comandavam isso daqui sabiam do potencial e onde o nosso povo poderia chegar. Mas o poder e o sistema são tão maquiavélicos que eles se beneficiam da nossa notória bondade e humildade e transformam esses dois fatores em armas que sabotam a nós mesmos. Eu juro que consigo fechar os olhos e fazer um exercício de imaginação sobre o dia em que uns políticos e 7 ou 8 representantes de umas famílias extremamente ricas fizeram uma reunião conspiratória lá por volta de 1888 que moldaria as cabeças da população brasileira desde então. Vê se tu consegue me acompanhar:

É uma segunda feira simples e normal no império. Uma reunião secretíssima é convocada no Palácio do Catete para que o poder vigente pudesse discutir sobre os novos rumos do país. Muitas revoltas na rua, muitos progressistas. Alguma coisa não tava muito certa. Se aquele clima continuasse, em alguns anos o poder poderia ser dividido e pessoas de classes inferiores poderiam frequentar os mesmos lugares, comer as mesmas comidas e ser tão instruídos quanto a classe dominante. Olha que audácia.

Um banquete é servido, mas ninguém toca na comida. Todos preocupadíssimos com as suas próximas gerações. Todos preocupadíssimos em manter as linhagens arianas e européias de suas famílias. Isso nunca poderia mudar. Tudo deveria ser como está. A minoria rica e instruída e a maioria trabalhando para que essa minoria se mantivesse abastada. O clima de tensão paira no ar.

Eis que surge um barulho de um garfo batendo três vezes numa taça de champagne. É pedida a palavra e aquela pessoa começa a expor as estratégias para que tudo continue nos trilhos. Uma oratória perfeita, poder de convencimento e persuasão incríveis. Resumidamente essa voz disse mais ou menos isso:

“ Gente, momento complicado mas não impossível de ser resolvido. Sabemos muito bem do potencial, talento, garra e vontade das classes inferiores. Se dermos ferramentas para crescerem, eles um dia estarão frequentando esta mesa conosco ou até mesmo os nossos privilégios diminuirão para que todos tenham uma vida mais igual. Isso é inadmissível. A tática é simples: Faremos com que eles nunca descubram esse potencial que sabemos que possuem. Faremos com que eles não conheçam a sua história para nunca saberem para onde querem ir. Faremos com que eles nunca tenham auto estima para que nunca tenham vontade de mudar. E o melhor de tudo, mesmo com toda a dificuldade faremos com que eles agradeçam constantemente pela dádiva de viver aquela vida, em um país lindo com belezas naturais e com um povo bom de coração que suprem todas as dificuldades para se viver. Se fizermos isso, eles trabalharão para nós a vida inteira e não teremos nenhum tipo de problema, revolta ou mudança pelos próximos 100 anos.”

Voilá! Todos aplaudem. O banquete é devorado, todos bebem e comem como se não houvesse amanhã. E a vida segue. Em cima uma pequena parcela da população rindo da parte de baixo que se ataca, não se conhece e não possui auto estima. Combinações perfeitas para essa população se tornar gado.

É fazendo esse exercício fictício com fortes indícios de verdade, que chegamos a conclusão do quão incrível é a cultura HIP HOP. O rap é uma das pouquíssimas expressões culturais que nos dá salvo conduto para falar abertamente sobre sucesso, seja ele financeiro ou emocional. Aqui não temos medo nem receio de falar que queremos sim ter uma vida melhor e é aqui que enxergo pessoas parecidas comigo falando uma linguagem de evolução e saída da zona da dificuldade. É o que eu chamo de socialização da imagem. A partir do momento em que olhamos ao nosso redor e enxergamos os nossos pares vivendo uma realidade que nos foi imposta, vemos também MCs/DJs/Bboys/Grafiteiros que estão inquietas e que querem mudar aquela realidade através do HIP HOP.

Pode soar como superficial, mas não é. Está muito longe de ser. Você pode ver aquele clipe bling bling com várias motos, carros, dinheiro voando, mulheres impossíveis, vidas inimagináveis e se perguntar se tudo aquilo ali é verdade. Se aquele MC que tá cantando aquele som tem realmente toda aquela grana ou se é tudo emprestado ou alugado. Pode até ser que seja. Mas já parou pra pensar em quantas mentiras e hipocrisias são impostas para que nós fiquemos sempre parados? Quantas vezes já nos foi dito que seria impossível ou inimaginável? Já que essa realidade que lhe foi imposta só o prejudica/deprime, agora ele vai em busca dessa ilusão e vai fazer de tudo pra transformar essa utopia em realidade.

Eu dei essa volta gigante pra dizer que o Akira Presidente dá esse papo de uma forma muito reta no seu novo trabalho, “Fa7her” pela Piramide Perdida. Ele coloca muito bem tudo isso em forma de metáforas e punch lines mostrando todas as ambições e contradições de um homem feito. É um dos melhores discos nacionais do ano. E a faixa “$$$$$” com o Bk’ foi a que me fez cuspir esse texto. Primeiro pelo refrão viciante que é o retrato do Bloco 7. Segundo por toda a produção, mixagem e masterização geniais de El Lif e Arthur Luna que refletem bem o bom momento que o rap nacional passa na parte da produção musical. Sempre houve uma lacuna gigantesca entre a qualidade de som dos americanos e a nossa. Essa distância diminuiu muito nos últimos anos e mostra a dedicação e estudo dos novos produtores da cena. Terceiro pelo flow Zidane que Bk’ mais uma vez mostrou nessa participação. A forma como ele rima define que você vai dançar de umas 4 formas diferentes dentro das suas 16 barras e os seus versos soam como hino de evolução que certamente será gritado nos próximos shows do Bloco.

Todas as participações são muito pontuais e chamam bastante atenção, onde cada convidado mostra a sua identidade nos sons. Brill se porta como um dos rappers mais autênticos da cena atual, tendo um flow muito característico. Luccas Carlos se firma cada vez mais como um dos melhores na hora do refrão, conseguindo manter as suas rimas no topo. JXNV$ surpreende cada vez mais ao mostrar rimas concisas e metáforas bem inteligentes. Sain sempre se destaca e Djonga se consolida como realidade. Todos na dose certa, deixando o protagonismo merecido pro dono do trabalho.

Ao mesmo tempo que quer grana, Akira quer principalmente o melhor pra sua família. É isso que a capa de “Fa7her” mostra e é isso que o HIP HOP prega. Que somos acima de tudo seres humanos. Erramos, seguimos caminhos tortos, tomamos atitudes às vezes erradas mas que no final das contas moldam a nossa visão de mundo e nos fazem enxergar o que é realmente importante. Todo mundo merece sonhar e ter a vida que quiser ter. E o Akira mostrou muito bem isso.

Tu merece, eu mereço. Inshalá.

Imagem: Divulgação

Donald Glover

Sabe aquela pessoa que é //? Tipo faz mil e uma coisas ao mesmo tempo e faz muito bem essas mil e uma coisas? Esse é o Donald Glover, quando Mc é o mcDJ e quando cantor, é o Childish Gambino e além disso, é ator, escritor, produtor, comediante e compositor, ou seja, muitas //.

Conheci o Donald Glover por uma série de coincidências – será? – soberbas, (1) a série Atlanta – Criada e estrelada pelo próprio Donald Glover, que conta a história de dois primos que sonham em se destacar no cenário rap de Atlanta, em um esforço para melhorar suas vidas e de suas famílias – , (2) a capa estupenda do seu álbum de 2016, Awaken, My love, que meus amigos estavam postando enlouquecidos no instagram, (3) a faixa Sober do mesmo álbum que estava escutando no spotify e (4) o belíssimo clipe que ele fez com Chance The Rapper , assita abaixo:

Donald Glover é multi-talentoso e se permite explorar todos os seus talentos, numa era onde é possível utilizar das // ao nosso favor. A geração anterior estava bem preocupada em ser algo, alguma coisa, uma só coisa com excelência, já a geração seguinte, consegue e realiza bem a multiplicidade de ser várias coisas ao mesmo tempo, em campos variáveis ou no mesmo campo, as artes por exemplo, como o Donald Glover.

Curiosidade: Donald Glover escolheu seu nome de cantor (Childish Gambino) no gerador de nomes do Wu Tang Cla (http://www.mess.be/inickgenwuname.php).

Imagem:MePlusTv

Falar de beleza também é falar de moda

Lembro que em 2015, escrevi um texto como trabalho de uma disciplina na faculdade. Foi sobre a falta de produtos de cabelo e cosméticos para negras e representatividade neste nicho. Hoje em dia tô mais feliz por ver empresas se posicionando a respeito.

Agora em 2017, no dia 4 de abril, a empresa brasileira de produtos de cabelo Salon Line, apresentou a cantora Ludmilla como a mais nova Embaixadora da marca. A cantora está passando por transição capilar e particularmente achei esse casamento maravilhoso, pois atualmente é a empresa que mais investe em cabelos crespos e cacheados, tendo a linha #Todecachos como a mais famosa.

O que a empresa – e nem eu – não esperava, era a chuva de críticas sobre a escolha na representatividade. Mesmo com a explicação muito bem explícita no texto, muitas mulheres disseram que a cantora não tinha nada a ver, que ela só usa perucas e tranças s e que deveriam chamar a Sheron Menezes ou outras artistas mencionadas nos comentários.

Pera aí, gente! A mina tá passando por transição! Para muitas é complicado, difícil e um processo lento, sendo artista nacionalmente conhecida ou não. A gente vive diariamente em processo de aceitação. Já parou pra pensar nisso?

A sensação que tenho é que tá tudo muito 8/80 pras pretas. Ou é isso ou é aquilo. Nadinha de diversificar por um tempo. Tá tendo muita imposição dentro de alguns discursos de liberdade e isso tem acontecido na maioria das vezes com pretas mais retintas. Porque Sheron Menezzes, atriz da Globo, preta de pigmentação mais clara logo de cara e não Ludmilla, preta de pigmentação mais escura, cantora de pop-funk?

Por quê?

Link do vídeo abaixo:

Imagem: Facebook Salon Line

Neto

Estava fazendo umas pesquisas sobre canais de rap no youtube e consegui acessar 4 muito bons, com matérias, resenhas e opiniões sobre o rap e seus derivados. Fui olhar a caixa de comentários dos vídeos que mais me chamaram atenção – sim, olho caixas de comentário e pelo menos desses canais, as caixas são muito bem frequentadas – e todas elas tinham em comum pedidos massivos para entrevistar o Neto do Síntese.

O nome não me era estranho, então lembrei que ele que ele participou da faixa Plano de Voo do Álbum Convoque seu Buda do Criolo (2014), com versos que despertaram meu interesse por fugirem da “tríade do mal” vigente no Rap – Drogas, festas e sexo -.

Neto é cria de São José dos Campos – Vale do Paraíba (SP) e de 2010 até 2012 formou com o Leonardo Irian a dupla de rap, Síntese, que após um recesso em 2012, volta somente com o Neto , que preferiu manter o nome Síntese por entender que a mensagem que ele se propõe a passar é maior do que ele.

Neto canta sobre transcender, sobre espiritualidade, canta sobre fé mas sem se alinhar a alguma religião, sobre conexão com algo que não vemos mas que sabemos existir – algumas pessoas dão o nome, deus, outras, energia, outras universo -, canta sobre os diversos níveis de consciência e contextos sociais.

Em uma das inúmeras entrevistas que vi com Neto, ele diz que foi diagnosticado esquizofrênico com 18 anos por causa dos pensamentos frenéticos, constantes e por sentir em demasia o que ninguém ensina nas escolas. Em qualquer vídeo de entrevista com o Neto é impossível não ficar surpresa com a quantidade de informação e conhecimento que ele carrega, não reparar que ele deixa todos os entrevistadores sem palavras. Ele tem uma parada de pregador, de quem fala com propriedade de assuntos e lugares que poucas pessoas vão acessar.

O Neto é um agente de transformação. Ele é um rapper que está muito além do seu tempo, é possível que as palavras e as informações que ele transforma em música seja de difícil assimilação para muita gente, contudo vale a pena tentar ouvir e se deixar ser tocado. Neto celebra a vida e quer mudar o mundo.

“Hoje em dia a sensibilidade das pessoas tá sendo colocada a serviço do que não é relevante, do que arrasta. Nosso sopro é um tufão da vida de um muleque de 15 anos que tá vendo noiz, o muleque vai reparar em cada pedacinho do nosso corpo, em cada trejeito, tudo é uma sugestão.”

“O Síntese é isso, essa mensagem, essa ideia, esse compromisso com a verdade. É a verdade, as consciências, independente da nossa conduta, é a urgência da luta. Sempre foi o rap,né? Os mazeladão com a vida, no tratar das consciências e com dificuldade para se expressar ainda, eu creio que seja isso, tá ligado? É o que noiz consegue preservar de pureza no meio desse labirinto, sabe, é um depósito de pureza, é uma delicadeza, olha como são os brutos homens, que faz música, que faz rap e olha como a poesia é delicada, tá ligado? Eu acredito que seja muito sagrado isso e que eu quero levar essa energia, esse espírito de transformação que é o Síntese acima de tudo, é esse espírito da renovação que me pede uma conduta na minha vida, eu tenho que tá morrendo e renascendo todo dia

pra eu poder fazer show do Síntese, tá ligado? Pra eu poder levar esse espírito de transformação para as pessoas, pra executar essa obra que tá contida toda essa energia de transformação, de morte e renascimento e ressurreição”.

Citações da Entrevista do Neto para o Rap Box:

“Rap pra mudar o mundo. Essa é a missão do Sìntese.

Verso, Verdade & Vida. De São José pra reacender sua fé.

Sinta-se.

Amem. Amém

Imagem: RND

O Lázaro se parece comigo

As suas referências te norteiam. É incrível quando essas referências que você adquire ao longo da sua trajetória te mostram além do que você imaginava para aquele momento do encontro ao vivo. Por muitas vezes nos decepcionamos e descobrimos que aquele ídolo que seguíamos não era tão maneiro e legal assim.

As minhas referências (fora mãe e pai) sempre foram muito reais e possíveis. Sempre admirei alguém próximo que trabalhava muito para realizar um objetivo, um amigo que tinha um bom coração e que tava dando a vida para realizar os seus sonhos ou algum rapper brasileiro que, pela cena ser bem acessível, uma hora ou outra eu iria acabar me encontrando e trocando algumas ideias olho no olho com ele. Meus ídolos sempre foram pessoas que estavam e estão próximo, me mostrando dia após dia que é possível realizar algo. Minhas unicas referencias minimamente utópicas (Kendrick, Obama, Kanye, Denzel, Angela Davis) tão bem distantes de mim. Parece loucura, mas – por algum motivo que eu não sei explicar – eu tenho a quase certeza de que vou conhecer todos ou uma boa parte desses ídolos distantes ao longo da minha vida. Tomara que isso se realize.

Lázaro Ramos era meio que uma referência utópica. Mesmo tendo alguns amigos em comum e morando na mesma cidade, ele não é tão acessível como os meus rappers brasileiros favoritos. Ontem (02/05) fui a uma palestra dele na PUC onde o tema era o protagonismo negro na arte e ele. Inevitavelmente ele mesmo seria o tema da palestra. É muito curioso e intrigante pensar pela cabeça do artista. A gente sempre se coloca ludicamente na posição de destaque deles e fazemos um exercício mental para saber que posições tomaríamos se fossemos eles. As perguntas passaram muito por aí. Angústias, solidão, construção de personagens, criação dos filhos, peso de ser referência, relacionamento com outra referência, etc. Para cada resposta, Lázaro foi real.

A sensação de ver um dos maiores atores brasileiros – tanto pela sua luta e principalmente pelo seu talento – sendo verdadeiro, foi o que me fez enxergar o quanto eu era parecido com aquela minha referência. Não somente parecido esteticamente (fato que é extremamente importante), mas parecido como ser humano. Como mesmo ele tendo sua vida financeira e afetiva praticamente resolvida, ainda assim possui medos e angústias que não o fazem parar no tempo. Que não o faz se acomodar com o status de maior referência negra na dramaturgia. E que ele não deixa sua vaidade e ego serem maiores do que suas lutas e seu propósito na vida, que é viver e utilizar a arte como um meio de mudança.

Falo sobre referência. Poderia tentar transcrever aqui tudo o que me marcou nessa noite, mas acho que não conseguiria ser tão verdadeiro. Acho que só quem tava lá conseguiu absorver toda a energia e confiança que nos foram impostas desde a primeira vez que ele pegou no microfone. E é basicamente disso que a gente precisa. Por que assim como ele, estamos trabalhando para também sermos referências e precisamos ser tão verdadeiros quanto Lázaro para influenciarmos futuros Pedros, Karinas e Nathans.

Eu sou muito parecido com o Lázaro e ele se parece muito comigo. Eu tenho muito orgulho disso.

Imagem: Pinterest

Péricles e o seu necessário reconhecimento

Eu adoro rankings. Juro, me amarro mesmo. Gosto muito das discussões de quem foi melhor naquele ano, quem lançou a melhor música, quem foi o melhor cantor (a), enfim, quem “foi o melhor da temporada”. Acho que essa minha tara por concursos vem da minha paixão por futebol.

Porque o futebol é visto por temporadas. Se o time vai bem no ano, isso dá a possibilidade de idas a campeonatos maiores no ano seguinte, melhores receitas, maior felicidade das suas torcidas. Mantém a possibilidade desse clube se manter no topo, nem sempre tendo a máxima certeza de ser campeão no ano seguinte. Mas como disse no texto do Rincón, uma hora vai bater. E entre os jogadores que se destacam, sempre existe as premiações do final da temporada. Seleção do campeonato, melhores de cada posição, os gols mais bonitos. Isso dá o devido reconhecimento pro jogador e após aquela temporada ele pode fechar contratos melhores, ir para a Europa e jogar pela seleção.

Parece que não mas existe temporada no mundo da música. Dá perfeitamente para identificar quem foi melhor naquele ano em específico. Arte pode ser subjetiva e de repente não dá para julgar tão perfeitamente um resultado final, assim como acontece no futebol. Mas são essas discussões que fazem o público ter mais vontade de ouvir e conhecer o trabalho do cantor/cantora/mc que está disputando com o seu artista favorito. É maneiro pro publico torcer, acreditar que o seu artista preferido tem que ser unanimidade mesmo sabendo que isso dentro da arte é impossível. O público é o resultado do trabalho árduo de criatividade e paixão do artista, então – movido a paixão – esse público tende a achar que o seu artista preferido pode ser unânime e isso não é ruim. Acredito realmente que a roda gira melhor com esse tipo de premiação.

Alguém aí tem alguma dúvida que o Péricles é uma das 3 vozes mais bonitas do Brasil? Isso eu nem falo de agora, já tem um bom tempo que não existe discussão sobre isso. Todo mundo sabe, é notório e não resta questionamentos. Porém, o Péricles não ganhou nenhum prêmio considerado grande por aqui. Nenhum. Desde o falecido VMB, Prêmio Multishow e Prêmio da Música Brasileira nenhum deles deu o devido reconhecimento ao seu trabalho. Não deu a ele e a quase nenhum outro artista do samba/pagode que rodam o país com agendas lotadas de shows, são queridos pelo público, fazem sim bons e sólidos CDs mas que nunca ganham atenção da famosa “crítica especializada”. A mania de colocar num mesmo grupo de premiação pop/rock/hip hop/funk é de uma falta de sensatez tão grande que rebaixam todas essas expressões culturais genuínas a nada. E me fazem mais uma vez pensar naquela palavrinha (que começa com pre e termina com conceito) que persegue todas as expressões artísticas oriundas do gueto.

Péricles montou um dos maiores grupos de pagode de todos os tempos e dividia os vocais dele com outro gênio chamado Chrigor. Depois daquelas idas e vindas, altos e baixos e kos internos, Chrigor sai e logo depois vem o Thiaguinho, muito talentoso e cheio de gás pra fazer acontecer. Uma outra roupagem pro Exaltasamba. Eles explodem muito mais do que haviam feito na década de 90 e início de 2000, ganham outro publico, mantém o público que tinham conquistado e colocam o nome do grupo como um dos maiores grupos de pagode de todos os tempos. Thiaguinho anuncia a saída do grupo e pairou uma dúvida entre os fãs do grupo: Será que o Péricles vai manter o mesmo sucesso que fez com o Exalta?

Era aquilo né, todo mundo dizia que o Thiaguinho, mesmo sendo extremamente talentoso, era mais “comercial”. Palavrinha chata. Jovem, boa pinta, sorrisão. Todos tinham a certeza da continuidade do seu sucesso e muitos creditavam totalmente a Thiaguinho a nova guinada do Exalta, esquecendo da sagacidade dos integrantes do grupo em convidá-lo para um novo projeto e a parceria muito bem feita com Péricles em todos os anos vividos juntos. Thiaguinho confirmou o seu status de estrela e Péricles quebrou todos os que duvidaram e se consolidou como a maior referência do seu segmento dentro do samba. Desde 2012 lançou 4 CDs muito bons, colocou hits nas rádios e nas rodas de samba, uma penca de shows pelo país e obteve um respeito ainda maior dos amantes do samba por toda sua história e talento.

Talento. Essa é a palavra. Você até pode não ser interessante para aquele tipo de público ou não estar nos “padrões” (outra palavrinha escrota) da “crítica especializada” da saudosa “Música Popular Brasileira” de outrora. Mas mesmo os gigantes dessa MPB, como Caetano e Djavan – que fez um feat. absurdamente lindo no recém lançado “Deserto da Ilusão” de Péricles (assista abaixo), reconhecem o trabalho e o talento dos nomes que surgem nos ritmos realmente populares brasileiros.

Quem vive e respira música não pode virar as costas para o que está acontecendo ao seu redor, não pode tapar os olhos pro que os jovens estão ouvindo e vivendo naquela época. Nunca podemos tirar o crédito de uma época que não é a nossa em favor de um tempo que vivemos e que supomos que foi melhor. Pensamentos são outros, costumes e modos de viver são outros. A evolução é sempre acreditar que sempre podemos aprender com o que não vivemos, para que possamos agregar ainda mais ao nosso momento.

Depois de ler e escrever esse texto, meu coração ficou mais tranquilo e comecei a lembrar de todas as lutas que o samba, o hip hop e o funk tiveram pra chegar até aonde estão hoje, sem o carinho e tapinha nas costas de ninguém. Reparei que não precisamos do reconhecimento alheio para sabermos do nosso real potencial e o quão incrível é o nosso poder de mudança através dos nossos talentos. Mas aí fiz a besteira de pesquisar quem foram os últimos vencedores do Prêmio da Música Brasileira (http://www.premiodamusica.com.br/edicao-20…/vencedores-2016/) e vi que ainda precisamos de reconhecimento, mas agora dos nossos. Quanto mais as expressões culturais vindas do gueto estiverem juntas, se respeitando e se valorizando menos precisaremos de uma valorização de quem nunca nos deu valor. É impossível não amar a nossa cultura. Mas por incrível que isso ainda possa parecer, ainda é possível que não nos amem.

Foto: periclesoficial.com.br

Rincon Sapiência e o Poder da Canção

É muito louco enxergar a cena musical atual e reparar como é difícil pra qualquer artista se destacar e ter o seu devido reconhecimento. Tente imaginar todos os venenos que o artista passa até chegar num bom patamar de visibilidade.

Dennis DJ lançou dois hits naquele clássico cd verde da furacão 2000 (http://migre.me/wpI7F) que vendeu que nem água no país inteiro. Isso lá no começo da década passada. Depois disso ele passou por problemas pessoais que refletiram diretamente na sua carreira e só veio estourar quase 10 anos depois. Imagina a quantidade de dúvidas e incertezas que passaram em sua cabeça até ele encontrar o caminho certo e se firmar como a maior referência do Funk atual. Criolo é MC desde 1989, dois anos antes do ano do meu nascimento. Ele só foi lançar o sensacional e underground “Ainda há tempo” em 2006. E só estourou com o “Nó na Orelha” em 2011. Mais de 20 anos na pista, comandando a “Rinha dos MCs”, passando por provações, provocações, empregos que certamente não o faziam feliz mas sempre acreditando – e tendo pessoas apoiando – que a música era mais forte.

Uma hora vai bater. Isso é um fato. Só não sabemos quando. Mas vai bater. Rincón Sapiência mostra isso de uma forma bem bonita. Começou a carreira em 2000, passou por diferentes grupos de rap, mudou de nome duas vezes e apareceu de forma mais consistente em 2009 com o som “Elegância”. Ali ele já mostrava uma personalidade forte e identidade diferente dos outros MCs da época.

“.. acostumado a passar por despercebido

exceto quando tão procurando bandido.

A conclusão pra evitar ando bem vestido,

conforme a grana que vem e tem me permitido.”

Eu tenho uma tática para identificar se aquele MC que eu estou ouvindo, nasceu e se dedica de verdade pra fazer um bom rap ou se ele só tá ali de teimoso querendo aparecer. Escute e leia as letras desse MC e tente chegar a conclusão se os versos que ele criou fizeram sentido ou se ele simplesmente encaixou palavras clichês de fácil entendimento no seu verso somente para completar uma rima. Rincón não desperdiça nenhum verso. Nenhum. Não é daquele tipo de MC que rima palavras só por rimar. Cada verso dele traz alguma visão, alguma metáfora ou alguma alusão aos seus questionamentos e é isso que torna o que é extremamente difícil parecer fácil. É que nem ficarmos em frente a televisão embasbacados com o que o Messi faz nos jogos do Barcelona e tentarmos fazer as suas mágicas nas peladas que jogamos por aí. Nunca acertamos, mas achamos que aquilo seria fácil por ter visto um gênio fazendo aquilo com extrema tranquilidade. No rap é a mesma coisa.

Voltando pro poder da canção, eu juro que to tentando achar o melhor verso do Rincon em “Ponta de Lança” pra tentar chamar a sua atenção pra aquele momento importante da música, mas eu realmente não consigo. É uma sucessão de punch lines, de ideias sagazes em que tudo faz sentido. São inúmeros assuntos e metáforas abrangentes que te fazem pensar. Pra mim, o rap não tem que ter regra. Ele precisa ser livre. Seja o mais comercial falando de festas ou maconha ou o mais cru falando sobre alguma realidade. Ele só precisa te tirar da tua zona de conforto. Precisa te intrigar e fazer você se perguntar como que aquele MC chegou naquela rima. Rincon quando diz que “a noite é preta e maravilhosa, Lupita Nyongo”, ele te joga de volta a alguns anos atrás quando Lupita foi criticada por meio mundo por ter ganho um concurso de “mulher mais linda do mundo” numa revista pop/comercial/escrota americana. O padrão de beleza comercial que as pessoas estão acostumadas, não permitia enxergar a Lupita como uma mulher extremamente bela e que poderia sim ser considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo.

“Meu verso é livre ninguém me cancela,

tipo Mandela saindo da cela”

Ligar na mesma rima a palavra “livre” com o Mandela que ficou 27 anos preso dentro de uma “cela” e fazer uma comparação com a liberdade de expressão que qualquer artista tem que ter, é genial. É ir de encontro com todas as minhas definições de músicas clássicas dentro do Hip Hop.

“Ponta de Lança” foi lançado no final de dezembro e tem mais de 4 milhões de views no Youtube. De repente pros padrões dos hits megalomaníacos do Youtube, esse número não seja tão relevante. Mas como por aqui odiamos os “padrões” e acreditamos no que tem essência e sentimento, ver que um artista verdadeiro e genuíno – e não comercial – como Rincon tendo um número expressivo de views e uma das músicas mais celebradas das festas undergrounds do Rio de Janeiro, é de extrema importância e felicidade. Porque acredito que qualquer artista que seja verdadeiro, precisa ter reconhecimento para que isso se torne um combustível cada vez maior para sua caminhada, que nunca será fácil. Uma hora vai bater. Isso é um fato. Só não sabemos quando. Mas vai bater.

Imagem: I Hate Flash

O que esperar de Marcelo D2?

A vida é feita de altos e baixos. A vida artística então é feita de mais baixos do que altos. Fama, dinheiro, arte, negócios, família, falsos e verdadeiros amigos… são tantos os fatores que envolvem a vida de um artista que é preciso ter cabeça e principalmente equilíbrio para sobreviver nessa selva. Se existe algum segredo para se manter relevante, respeitado e continuar tendo um verdadeiro protagonismo artístico, pode perguntar pro D2.

Faça um breve resumo da carreira do Marcelo D2 na sua cabeça e repare por quantas vertentes ele transitou e conseguiu respeito. Foi inovador ao criar uma banda de Punk Rock brasileira que possuía elementos fortes do hip hop, montou coletivos com novos e grandes MCs da década de 90, lançou um CD clássico com vertentes de samba dando uma nova visão para sua carreira e depois disso, manteve a qualidade em todos os trabalhos que lançou. Isso sem contar no respeito e admiração que adquiriu em todas essas vertentes – sem pagar pau pra ninguém – que o colocam como o artista mais genuíno desse país. Podemos tranquilamente comparar a sua trajetória musical com qualquer outro grande nome da MPB. Gil, Djavan e Caetano assumiram tantas vertentes, beberam de tantas fontes musicais ao longo dos anos que é praticamente impossível enquadrá-los em alguma vertente. E artisticamente isso é muito bonito.

O que a maioria das pessoas não entendem é que a MPB é abrangente. No sentido literal da sigla, Música Popular Brasileira reflete o que é popular. E por que o Rap, o Funk ou o Pagode não podem se enquadrar nessa nomenclatura? Ainda sinto um saudosismo exacerbado sobre “o que era a MPB” e uma forçação de barra com os artistas da “nova MPB”. Será realmente que esses artistas são realmente populares com o seu viés cult/zona sul/puc e será que esses artistas serão tão relevantes como um BK, por exemplo? Qual é exatamente o medo e receio com a palavra “popular”? Porque tudo o que se torna “popular” tende a ser taxado como ruim ou de baixa qualidade? Isso me dá a clara visão de um preconceito burro, de uma segregação musical estúpida. Me faz reparar que é sempre colocado uma barreira entre artistas populares dos anos 70/80 e os artistas da nova geração. Cada um tem a sua linguagem, cada um vive o seu tempo. É preciso ter sagacidade e perfeita compreensão da atualidade, sem nunca esquecer o passado para que os dois lados dialoguem. E é exatamente isso o que D2 faz.

Inovação. É isso que podemos esperar do D2. Nunca imagine que ele ficará numa possível zona de conforto fazendo o que o seu público espera. Quem é fã do D2 nunca pode esperar nada. Não espere mesmice de um artista verdadeiro. Deixe o artista ser artista. Essa semana ele lançou o primeiro clipe do seu décimo disco, trazendo nele integrantes da Piramide Perdida e vários outros jovens artistas da cena underground carioca. Numa entrevista bem maneira que ele e o fotógrafo do ihateflash e diretor do clipe “Resistência Cultural”, Wilmore Oliveira deram pra Noisey (http://migre.me/wnb6b), D2 explica melhor o processo de criação de todo trabalho audiovisual que ele vai lançar. O mais foda é ler as palavras de um artista consagrado dizendo que “quer fazer uma coisa bonita esse ano” o que deixa claro a sua vontade constante de sempre trazer algo verdadeiro, algo que seja realmente dele.

D2 vai lançar o seu décimo disco no dia do seu aniversário de 50 anos. Isso mesmo, 50 anos. Enquanto uma grande parte dos novos rappers brasileiros ainda não descobriram a real musicalidade do Rap nacional e ainda tentam referenciar (leia-se copiar) o Rap americano, D2 se mantém no trono com a sua cabeça aberta pro futuro sem nunca se esquecer do passado, nos ensinando sempre como a arte pode ser livre e abrangente.

Imagem: I Hate Flash/Rolling Stone