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Um corpo preto e tudo o que ele carrega

Numa cidade em que o governador comemora execuções públicas e libera autorização para que helicópteros de guerra atirem granadas na população, eu sempre fico curiosa para entender o quanto o corpo dos cidadãos pobres somatiza esses problemas e quais doenças podem ser desenvolvidas nesse cenário de guerra. Cresci ouvindo que depressão era coisa de rico, mas observando o ritmo cruel dessa cidade desconfio que seja exatamente ao contrário. Quem cuida da saúde da população favelada do Rio de Janeiro? Com certeza não é o governo, mas acho das ferramentas usadas pelo povo, a fé e a dança são algumas delas.

Aqui a gente samba ou bate a raba pra liberar as toxinas do corpo. Eu mesma, durante muito tempo, usei a dança como única ferramenta de cura. Maconha também, mas esse assunto a gente deixa para outro encontro. 

 

Quando eu me sentia muito feia e pouco desejada, eu joguei a bunda para o alto e fui me curando. Quando eu me senti muito oprimida, eu sacudi o ombrinho e abri o canal do deboche. O funk era um espaço onde meu corpo podia estar vivo e luminoso.

 

Claro que eu não entendia essa filosofia toda de terapias e autocuidado, mas eu sabia que aquela paixão por estar em movimento significava alguma coisa. 

 

Durante muito tempo, a dança foi a única plataforma que eu tinha experimento para reciclar meu corpo. Até que nesta terça feira, o André bateu à minha porta, um homem negro, alto, com voz grave e olhar firme. Depois de uma breve conversa, me mandou tirar a roupa e deitar no colchão que nós colocamos no chão do meu quarto.

 

Embora eu ficasse muito feliz de dizer que o André é um crush, porque não é todo dia que se encontra um homem inteligente de um metro e noventa, não posso afirmar este fato: ele é meu terapeuta. Uma amiga muito generosa me ofereceu uma sessão de massagem tântrica a fim de liberar meu corpo de toda essa tensão que é ser uma preta na cidade do Rio de Janeiro.

 

A massagem tântrica é uma técnica de um povo antigo, que viveu onde hoje é território do Paquistão, e é basicamente uma massagem para despertar o prazer. Uma experiência psicodélica comandada pelo prazer. Eu flutuei, como se eu tivesse entrado numa câmara de orgasmos, onde todo o meu corpo fosse merecedor e com habilidades suficientes para derramar litros e litros de gozo e felicidade. Em algum momento em que aquele homem masturbava minha buceta e eu me contorcia de tesão, eu me perdi e achei que estava numa festa. Lembrei de quando eu danço, lembrei da pressão da caixa de som no meu corpo.

 

Mas diferente do que você possa imaginar, embora tenha sido uma das experiências mais intimistas que vivi, eu queria estar vivendo aquele momento em praça pública, para que a minha cidade observasse e absorvesse um corpo preto se contorcendo de prazer e não de dor.

 

Não existe cura fora do corpo assim como não existe corpo saudável num ambiente de caos. Me deixa sentir, me deixa dançar, me deixa gozar. Parem de nos matar.

 

Coluna da Taísa Machado

Sain e o seu refinado “Slow Flow”

Sain sempre foi um cara entusiasta do rap. Isso é meio que óbvio pela sua criação e seus fortes laços familiares com a arte. Quando juntamos o seu entorno com a sua natural vontade de pesquisa por coisa nova, chegamos a conclusão que Sain é um dos caras mais evoluídos dentro do rap, culturalmente falando.

“Slow Flow” mostra bem isso. Mantendo as suas raízes dentro do underground e em todas as referencias da golden era, Sain solta um álbum direto, reto e refinadamente diferente. A produção musical de El Lif traz esse cuidado com o disco onde cada beat e cada sample foram muito bem pensados e encaixados para as rimas de Sain.

Em um momento onde o trap vem dominando todo o abrangente conceito de urban music, Sain decidiu seguir a sua linha dentro do boombap. Mas é aquele boombap bem underground que marcou o rap dos anos 90, com muitas referencias de Jazz e Soul. A maior referencia para o álbum foi a label Griselda Records, que impulsiona vários artistas da cena hip hop underground dos EUA. Após El Liff apresentar a ele essa referência, Sain mergulhou ainda mais numa onda que já era sua.

Sain gosta de rimar. Atualmente existem alguns rappers que, quando estudamos toda a sua obra, ainda temos dúvida se aquele artista entende do que vive. Rapper vive de fazer rima. Sem repetir palavra e sem desperdiçar verso. E isso reafirma a sua função como artista, dentro de uma das culturas mais subversivas de todos os tempos.

Fizemos um “Faixa a Faixa” com o cara e nesse material ele fala sobre toda a onda criativa que definiu o formato do álbum.

 

“Direitos humanos” e “morte” são antônimos, e você deveria saber disto

Em um espaço que pretendemos divulgar, reforçar e enaltecer a cultura urbana, dedicar duas semanas aos desmandos da política de segurança do Rio de Janeiro parece um desperdício. Talvez seja. Mas como ignorar que após seis jovens inocentes serem assassinados (entre eles, Dyogo), o chefe do Executivo estadual associa mortes em operações policiais a defensores de direitos humanos? É como dizer que 2+2=5: está errado, não tem interpretação. É obrigatório refutar.

 

Nesta semana, Wilson Witzel declarou: “Pessoas que se dizem defensoras dos direitos humanos, pseudodefensores dos direitos humanos não querem que a polícia mate quem está de fuzil, mas aí quem morre são os inocentes. Esses cadáveres não estão no meu colo, estão no colo de vocês, que não deixam que as polícias façam o trabalho que tem que ser feito”.

 

Se a gente quer uma sociedade em que cada vez menos jovens artistas, criativos e pensadores morram de forma abrupta, violenta e cruel, permitir a crescente do pensamento que “direitos humanos são inimigos” é destruidor. E não refuta-se por ser o governador, poderia ser meu vizinho. Em tempos em que vários direitos estão meio balançados, explicar o que são direitos humanos é cansativo mas fundamental. Para todos.

 

Por definição da Organização das Nações Unidas, “os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros. Todos merecem estes direitos, sem discriminação”. Por isto, e somente isto, já seria possível explicar porque a afirmação do governador é errada. Mas vamos além.

 

Por querer garantir o direito à vida, defensores dos direitos humanos (questão: por que ainda é uma parcela e não toda a população?) jamais poderiam concordar com qualquer prática que resulte em morte. Seja helicópteros na favela, concordar com o discurso de “abatimento” ou algo do tipo. Parece difícil, mas é simples: é obrigação do Estado garantir os direitos básicos de todo cidadão, e quem escolheu defender tais direitos, em qualquer frente, jamais poderia concordar com algo que vá contra a vida de um ser humano. Sem vida não há direito. E o trabalho da polícia, por definição, não é matar. O que busca-se é o trabalho bem feito, sim, de forma não militarizada, principalmente.

 

Ao subverter a ordem e recortar a realidade ao seu bel-prazer, quem concorda ou profere discurso contra a vida esquece de contextualizar que a defesa não é “só” para portadores de fuzil. A segurança é uma engrenagem, muito complexa, então ao escolher a política de abatimento, estaremos ignorando estratégias e formas de lidar que se preocupem em resolver o problema na raiz. Ao escolher acreditar que direitos humanos são para bandidos, estaremos ignorando o fato de que amanhã poderemos ser abatidos por uma “bala perdida”.

 

O que os “defensores de direitos humanos” querem é a vida, plenamente vivida. De todos os seres humanos. A morte é responsabilidade só de quem ignora isso.

O futuro é funk

O futuro, assim como a liberdade, é uma experiência. E o que eu mais curto nessa minha obsessão pelo funk carioca é que ele tá o tempo todo me fazendo sentir aquele friozinho na barriga, aquela ansiedade de saber o que tá rolando de novidade, já que tudo muda e uma onda pode ficar velha depois de três meses de existência. E eu tô sendo muito generosa: o futuro pra massa funkeira é logo ali, muito acelerado.

Este tipo de papo é bom de ter com funkeiro, porque geralmente quem não conhece a cena e ouve a gente dizer que o funk carioca é acelerado, automaticamente pensa nos 150bpm revolucionários que fazem geral chacoalhar os ombrinhos. Mas não dá pra parar por aí. Se eu fosse algum tipo de historiadora de arte eu ousaria dizer que o funk é a linguagem artística brasileira genuinamente afrofuturista, não só por aquelas coisas de estar sempre conectado com a tecnologia e fabricação de equipamentos, mas pela agilidade com que ele busca se transformar all the time.

Estamos no começo de uma nova era no funk carioca e quem não tá vendo é quem não tá interessado. Mais uma vez ele vai dar uma virada triunfal e ficar mais forte e, consequentemente, vai jorrar muito mais dinheiro dessa fonte milionária. Os produtores com o faro aguçado já estão trabalhando firme nessa nova direção.

A diversidade é novo foco do funk e tudo bem, porque é por aí mesmo, né. Uma linguagem pra ficar viva precisa acompanhar os acontecimentos, senão vira folclore.

Em janeiro de 2019 rolou a primeira Parada LGBT dentro de um baile funk de favela no Rio de Janeiro. Ali, um portal que já tava há muito tempo pra se abrir finalmente se rompeu.

As mulheres que estão na linha de frente do movimento desde os primórdios hoje não são mais vozes isoladas. Existe uma mudança de comportamento e vários MCs estão compreendendo que um funk sem misoginia é mais gostoso de dançar, o prazer feminino não fica mais solitário num lugar de reivindicação. Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona e Valeska ensinaram direitinho. Os MCs espertos viram que “Surubinha de Leve” representava um tempo que as minas não aceitam mais, a favela entendeu o recado e está acontecendo, quem curte sabe. Os meninos estão ainda que lentamente mudando os processos de composição e as minas estão firmemente levantando a bandeira LGBT pra dentro da cena. Iasmin Turbininha já não é mais a única abertamente lésbica. São dançarinas, DJs, produtoras, geral saindo do armário, dando visibilidade pras pretas sapatão que curtem funk, sim. Sem falar na dona da porra toda: nossa pepita de ouro, Ludmilla, que desde 2018 escreve e emplaca sucessos na voz de outras funkeiras como “Cai de boca [no meu bucetão]”. Mesmo “vendendo” majoritariamente para o público hétero, também mostrou para o Brasil que o coração da mulher preta bate onde ela quiser!

O cheiro de novos tempos está no ar e daqui há, no máximo, dois anos a heteronormatividade não vai ser mais o único argumento do funk. Quando novos artistas alcançam posições de protagonismo suas ideias vêm junto com eles. E se o funk influencia o bregafunk, o lambadão, o pagodão, o rap e o sertanejo, tudo pode mudar.

Agora vou parar aqui, talvez este texto esteja otimista demais. Enquanto eu fico ansiosa aguardando o primeiro grande sucesso que vai rimar xota com xota, sem o contexto do fetiche masculino. Ou quando finalmente MCs como a Catten, que cantam putaria de bicha preta pra bicha preta ganharem os bailes e as rádios.

O cara que começou o movimento onde os produtores homens abraçam a causa está preso, limitado pela Justiça a construir seu movimento: o DJ Rennan da Penha. Rennan foi quem produziu vários desses sucessos de letra “feminista” e, logo depois de produzir um baile que levou mais 10 mil pessoas a viver a realidade LGBT na favela, declarou que continuaria a produzir eventos nessa pegada. Mas foi injustamente preso.

Na última terça-feira (13) foi divulgada uma carta em que Rennan da Penha agradece aos fãs e artistas amigos pelo carinho e por manterem vivos o seu nome. E por não deixarem o Brasil e o mundo esquecerem que se, por um lado a juventude preta, que empreende no mundo da arte e constrói o futuro cultural do país ainda está detida pelas garras do passado escravagista que o governo insiste em manter vivo, por outro nos mantemos vivos e conscientes. Como diz DJ Rennan da Penha: “O funk não tem fronteiras”.

Liberdade para o Dj Rennan da Penha. Liberdade para a juventude preta, liberdade para o futuro. Nós exigimos, nós alcançaremos.

A Casa do Meio e o progresso artístico da Zona Oeste

Um movimento é feito de pessoas. E o resultado disso sempre vem de um centro, um lugar de apoio, de troca e de impulsionamento de tudo e todos que estão ao redor de um objetivo. Um porto seguro. A Casa do Meio representa esse relevante legado na Zona Oeste.

Lucas Sá

Lucas Sá

 

Lucas Sá (@louquera)

De um espaço vago na sua casa, com ajudas e uma grana guardada do seu criador e comandante Rennan Guerra,  surge a Casa do Meio. Além de ser um estúdio de gravação,  a casa se posiciona como um espaço de criação e um verdadeiro polo criativo extremamente importante para os músicos da cena underground da Zona Oeste. Ali rolam filmagens, reuniões e trocas que ajudam e impulsionam os artistas e projetos que são curados dentro da casa. A facilidade que Rennan tem de dialogar com diferentes tipos de clientes – muito por sua vivencia, desde muito novo, sendo roadie de várias bandas de rock que faziam um barulho há 10 anos atrás – e a qualidade na entrega final do produto, que é a música, o faz ter uma percepção diferente e visionária sobre tudo de novo e interessante que possa chamar a sua atenção e resulta em um respeito e admiração dos seus amigos e parceiros.

 

Quando falamos sobre a percepção de Rennan sobre o que está a sua volta, focamos num dos programas de áudio visual que mais prestamos atenção por aqui. O Brasil Grime Show – criado e comandado por Yvie Oliveira, Antonio Constantino, Lucas Sá, Dini, Diego Padilha e pelo próprio Rennan – se posiciona como um dos mais interessantes cases de sucesso no YouTube, muito por conta da identidade empregada no programa e na pesquisa, descoberta e impulsionamento de inúmeros novos artistas da cena urbana carioca. Todo o áudio do programa é gravado, editado e mixado por Rennan e as imagens são captadas dentro do estúdio, gerando interação com o ambiente e fazendo com que todos os artistas que brotam no programa se sintam a vontade como se a gravação fosse na sua própria casa.

 

“O Grime, que era tão desconhecido, acabou salvando a minha vida, pois me deu um ar de empolgação num momento em que eu de fato precisava. Eu to ligado que dá pra melhorar o trabalho, mas tento ser o mais honesto possível e ainda sim a galera compra o barulho do que estamos fazendo aqui no estúdio.”

 

Já passaram por ali Akira Presidente, CHS, Scarlett Wolf, Juju Rude, SD, Leall, Fleezus, PhKbrum entre outros. Kbrum e SD gravaram seus EPs no estúdio e toda a cultura Grime, que era bem pequena no Rio de Janeiro pré Brasil Grime Show, tomou uma outra proporção pós a execução do programa no estúdio. Sem demagogia nenhuma, Rennan acredita que o grime salvou a sua vida por ter lhe dado um ar de empolgação e entusiasmo no momento exato em que ele precisava de um fôlego. Os números no YouTube e os feedbacks positivos do público dão impulso e visibilidade ao trabalho do estúdio e em todos os que estão a sua volta.

Além do Brasil Grime Show e da gravação de vários artistas da cena do grime, o estúdio também é curador do programa “Tem Como Apresenta”. O programa – criado por Mariozin, Lucas Sá, Diego Padilha e por Rennan – tem por objetivo dar palco e visibilidade aos DJs que são crias da Zona Oeste. Ser um “defensor da musicalidade” da Zona Oeste não é um objetivo da Casa do Meio mas o fato é: a escassez de cultura e ações áudio visuais na área é tanta que é inevitável entender o crescimento do estúdio como um ato quase político.

O “Tem Como” é como se fosse um videocast com os DJs fazendo os seus sets autorais, com total liberdade para mostrar os seus trabalhos. Tago, DJ Bala e o próprio Mariuzin já fizeram parte do programa que ainda tem muito mostrar.

O movimento que é feito por pessoas e precisa de um porto seguro, necessita de duas coisas pra seguir em frente e com qualidade. Trabalho e progresso. Executar bem, pensar á frente, manter relações verdadeiras e progredir. Assim que se cria um belo legado. Rennan Guerra e a Casa do Meio vem cumprindo bem esse papel.

Rio de Janeiro: o estado que virou playground de genocidas

“Ser preto não é fraqueza, é força. Nós somos guerreiros, e é assim que tem que ser: vamos lutar pelos nossos.” A frase é de Alexandrina da Cunha Rodrigues, de 42 anos. Alexandrina é uma das milhares de mulheres negras e pobres vítimas “por tabela” da política genocida de segurança pública do Rio de Janeiro. Entre os dias 30 de julho e 6 de agosto, ela viveu uma verdadeira cruzada para provar à opinião pública, ao Judiciário e à Polícia Militar que seu filho era inocente. Na tarde do dia 30, policiais da UPP do Complexo do Alemão plantaram um rádio transmissor junto a Weslley Jacob Rodrigues, estudante de 21 anos. Ameaçaram-no com uma faca, obrigaram ele a utilizar o tal rádio — que testemunhas denunciam ter sido encontrado no lixo, pelos PMs, poucos minutos antes. A partir daquele momento, os pesadelos de Alexandrina e Weslley se tornaram reais: por várias vezes, já tinham avisado que forjariam algo contra o rapaz, além de pará-lo em “revistas de rotina” quase diariamente. 

 

Com o flagrante forjado concretizado, Alexandrina buscou a imprensa. Ao UOL, ela contou que o que moveu sua luta pela liberdade de Weslley foi a cara de “mãe, me ajuda” que o menino tinha ao entrar no camburão. Alexandrina buscou a Defensoria Pública, a imprensa, tentou ter a opinião pública do seu lado e, por fim, conseguiu um habeas corpus para Weslley. Réu primário, empregado e estudante, ele vai responder em liberdade. A noite do dia 6 de agosto foi de alívio para Alexandrina, porque ela conseguiu vencer uma guerra. Mas quantas outras mães, esposas, filhas e sobrinhas — porque quase sempre são elas — não conseguem êxito? Choram em cima de túmulos, sofrem na fila de visita à cadeia, rezam aos pés dos leitos de hospital. Viver no Rio de Janeiro é acordar bem e não saber qual é o inimigo do dia: o tiroteio na esquina, o helicóptero atirando para baixo, o assalto a mão armada, a bala perdida. Não saber de onde ele vem, como vai agir, para onde vamos correr aumenta as chances de perder o jogo. 

 

Gabriel Pereira Alves, de 18 anos, perdeu. Trajado de uniforme escolar e num ponto de ônibus, foi atingido por uma bala dita perdida na manhã de sexta-feira (9). O projétil saiu do Morro do Borel e encontrou os sonhos de Gabriel em frente ao Carrefour da Conde de Bonfim, na Tijuca. A surrealidade do fato fez a amiga, que estava com ele no ponto, pedir: “para de brincadeira”. Mas ele só conseguiu dizer que era sério. Gabriel foi assassinado. Naquela manhã, a Polícia Militar afirmou que foi atacada ao chegar na base da UPP (sempre ela) do Borel, morro mais próximo do local onde Gabriel foi atingido.

Reprodução Facebook.

A mesma PM que disse que Weslley tinha um rádio transmissor no Alemão sem ele ter, disse que não revidou no momento em que foi atacada, se adiantando ao julgamento popular de ter parcela de culpa na morte de Gabriel. O menino sonhava em ser jogador de futebol, namorava, fazia curso de informática. Flamenguista e jogador sub-20 do Olaria, Gabriel morreu sem saber se o seu xará, artilheiro do time de coração, iria balançar ou não o Maracanã ontem à noite e sem jogar a partida que estava marcada para o Olaria na própria sexta-feira. Gabriel foi assassinado porque esse estado não se importa. Gabriel morreu no dia em que seu pai, Fabrício, completou 40 anos. Ao Globo, Fabrício apelou ao governador, na esperança de ter alguma resposta: “Ele devia saber que isso aqui não é videogame para jogar uma bomba lá e os inocentes sobreviverem. (…) A comunidade é nada para ele. Todo mundo é culpado? Não pensa nos filhos das outras pessoas?”.

 

Para Fabrício, e não só, parece que Witzel crê estar jogando uma partida, uma fase, brincando de ganhar um jogo injusto. Mas gerir um estado não é brincadeira de sofá. É coisa séria. 

 

A questão é bem maior do que a UPP do Borel, do Alemão, e atinge mais gente que Weslley e Gabriel. A política genocida que marca o Rio de Janeiro desde sempre está vivendo seu ápice. O governador repete dia sim, dia também que matará sem pudor, num país em que não há pena de morte prevista na legislação, e fincou seus pés na política do “mira na cabecinha”. Não dá para dizermos por quanto tempo mais a política de segurança, focada no extermínio e não no cerne do problema, irá vitimar Weslley, Gabriel, Douglas, Marcos e Vinicius estado afora. Mas sabemos que isso acontece todos os dias, repetidamente. Está acontecendo neste minuto. 

 

E enquanto isso estiver em curso, temos que seguir as palavras de Alexandrina e não abaixar a cabeça. Se a guerra está posta, que lutemos pelos nossos. Mas não podemos esquecer também das palavras de Fabrício e começar a perguntar: Witzel, quando o Rio começará a ser visto mais como um estado complexo e menos como um playground?

Uma história de luta e liberdade em “Free Meek”

Hoje 09/08 a Amazon Prime disponibilizou o documentário FREE MEEK contando a história por trás dos acontecimentos que levaram a prisão do rapper e fundador da Dream Chasers Records Meek Mill.

Os fatos históricos por trás do acontecimento:

Em 2008 na Filadélfia estado da Pensilvânia Robert Rihmeek Williams A.K.A Meek MIll foi preso foi preso sob acusação de posse ilegal de arma de fogo após uma ronda da polícia que foi de encontro aos seus companheiros motociclistas. Nessa primeira ocasião além de ser preso, Meek Mill foi espancado. A foto desse acontecimento anos mais tarde se tornaria capa da mixtape DC4 e do próprio documentário disponibilizado pela Amazon.

Naquele período, Meek foi sentenciado em 11 meses de prisão em regime fechado só retornando em 2009 após um acordo de liberdade condicional de cinco anos.

Fora da prisão Meek Mill alcançou grande renome no cenário do rap Norte Americano com a mixtape DC (Dream Chasers) , o disco Dreams and Nightmares e seu contrato com Rick Ross assinando o selo MMG (Maybach Music Group).


Como todo caso de glória sempre possui uma reviravolta, com Meek não foi diferente. Em 2012 o rapper foi abordado pela polícia enquanto dirigia sob alegação de uso de maconha por seus companheiros, sendo o Meek liberado no dia seguinte, o que resultou em uma perda de imagem em cerca de 40 mil dólares em sua parceria com a PUMA, gerando uma revolta por parte do rapper e sua equipe que processou o departamento de polícia da Filadélfia pela violação dos direitos civis, invasão da privacidade e prisão falsa.

A partir daí o cenário começa a se estreitar para o chefe do selo DC e braço direito de Rick Ross, quando em 2012 ele foi impedido de viajar após não enviar um relatório sobre sua condicional devido a chegada de sua turnê, através de um comunicado que o rapper só poderia se manter na cidade da Filadélfia.


Em 2013 Meek volta aos tribunais sob alegação de violar a condicional mesmo com a equipe do rapper tendo fornecido ao departamento de polícia um itinerário e cronograma dos destinos. Nesse momento a justiça se mostrou totalmente displicente em relação às funções do rapper que também é empresário, cuidando naquele período de 7 artistas, um programa de rádio e inúmeras entrevistas agendadas. Esse caso ainda iria mais longe.

Em 2014 Meek foi declarado culpado pela violação da condicional conseguindo uma revogação da pena, logo após o rapper foi condenado a prisão domiciliar. 

 

Com o término da liberdade condicional Meek Mill mais uma vez seguiu em atividade trabalhando em suas mixtapes, clipes, álbuns, seu relacionamento com a rapper Nicki Minaj e família, tudo parecia caminhar em conformidade, pelo menos até o momento.

Em 2017 Meek Mill foi acusado injustamente de agredir um homem, onde o caso com vídeo registrado apresentou o rapper tentando não ser filmado por um segurança do aeroporto que insistiu em realizar as imagens enquanto Meek pediu que ele não o fizesse.

Ainda naquele ano, Meek foi condenado de dois a quatro anos de prisão pelo Juiz Brinkley, sendo considerado uma ameaça ao estado. Esse acontecimento ficou marcado em todo estado Norte Americano movimentando diversos artistas como Jay-z, o qual já possuía relações interessantes como a atual união da DC Records e a Roc Nation, Beyoncé com o verso:


“In the hood, hollerin’, “Free Meek”

Two deep, it’s just me and JAY

Just posted in them courtside seats.

Além de A$AP Ferg, Rick Ross, Pharell, Will Smith, entre outros artistas de renome.


No segundo semestre de 2018 Meek conseguiu sua liberdade após o peso das manifestações e da comunidade em seu apelo à conseguindo de forma definitiva,

Passado esse acontecimento, Meek Mill marcou sua volta com uma apresentação insana no Summer Jam Festival abrindo as portas para o documentário disponibilizado hoje.

 

O material tem entrevistas de Jay-Z, seus produtores, a equipe de Meek Mill e ativistas culturais afirmando o peso e a importância do rapper atualmente e afirmando que o sistema prisional Norte Americano precisa mudar. Se você é fã da cultura Hip Hop precisa assistir esse material.

 

 

 

A volta do Planet Hemp ao estúdio. Na hora e no momento certo

A atemporalidade sempre foi marca registrada do Planet Hemp. Seja na estética sonora, na atitude ou, infelizmente, nos assuntos que rondam cada época que os caras viveram. A fusão quente entre Rock, Rap, Samples, Reggae e qualquer outro rítmo urbano que der na telha dos caras, junto com todos os assuntos que revoltam os integrantes da banda fazem com que o Planet se torne uma banda que atravessa os tempos e seja uma pedra no sapato dos porcos fardados que comandam o Brasil.

Wilmore Oliveira

Após 20 anos sem lançar músicas novas, o Planet decidiu se reunir novamente em estúdio para criar uma obra que retrate o momento obscuro que vivemos atualmente. Marcelo D2, BNEGÃO, Formigão, Pedro e Nobru Pederneiras vão passar 10 dias enfurnados na Bahia gravando o seu mais novo álbum, ainda sem nome mas que será lançado ainda esse ano.

““Vamos passar uns 10 dias gravando na Bahia. Vamos produzir esse disco. Estamos num momento político, econômico e social no país que envolve exatamente a temática do Planet e temos que escrever sobre isso”, conta Marcelo D2 sobre o que podemos esperar do que vem por aí.

É engraçado imaginar como deve ser o sentimento dos caras gravando um novo álbum hoje. Não sei se, há 20 anos atrás, D2 e BNEGÃO tinham a verdadeira esperança que a violência policial, a discussão sobre a legalização da maconha ou o momento político daquela época seriam melhores, mais bem discutidas ou solucionados 20 anos depois. A montanha russa de avanços e retrocessos desde aquela época foi tão grande que, provavelmente, eles devam estar se sentindo tão famintos por gritar as suas verdades quanto em 1999 quando lançaram “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça”.

Mais maduros e calejados, sabendo o que conquistaram e a luta que ainda está por vir. Juntando todos os seus talentos e o tempero que o momento social e político brasileiro vivem, é muito provável que mais um álbum clássico do Planet invada os nossos ouvidos.

*Foto Wilmore Oliveira

*Errata: O guitarrista atual do Planet é o Nobru Pederneiras.

 

Uma análise sobre a colaboração entre Golf Le Fleur x Lacoste

No final do primeiro semestre desse ano, como religiosamente cumpre, Tyler nos apresentou seu novo material, IGOR. Um disco bem intimista, dentro de um universo amadurecido em relação a sua trajetória na música desde Bastard – 2009.
Algumas semanas depois, ele trouxe sua nova coleção de Primavera/Verão da GOLF Le Fleur, uma parceria interessante e inovadora junto da gigante converse.
Como se não bastasse, dia 17 de Julho ele está disponibilizando sua coleção em colaboração com a Lacoste, o que para alguns críticos, pode ser uma superestimação do designer. Sim, aqui Tyler não cumpre papel de músico, mas mostra uma versatilidade digna de grandes designers, como Virgil Abloh, Kanye West e ousaria dizer Patrick Kelly.
Aqui, a questão entra em um ponto muito comum nos dias de hoje, onde vemos uma cultura urbana cada vez mais crescente no topo das paradas e como a indústria cultural direciona esse conteúdo para às massas; Talvez, lá atrás, a moda não seria como é nos dias de hoje, tão acessível, se não fosse a união entre mídia e música. Run DMC, Dyamond John, Dapper Dan, Puff Daddy e diversos outros artistas contribuíram para às experiências que hoje, aplicamos e louvamos, pela ousadia, mas principalmente, representatividade.

É inegável que Tyler vem construindo um legado dentro da indústria da moda que foge da correnteza, vai na direção do novo e apela pro “estranho”. Entretanto, “estranho” é sinônimo de qualidade pois entra pela porta da frente do espaço que por séculos foi de propriedade das camadas elitizadas, indo em direção ao futuro, sem medo de errar e construindo inúmeros acertos, tanto em estética, quanto originalidade.

Apesar de Tyler em sua coleção colaborativa com a Lacoste não modificar muito o padrão da marca, ele consegue trazer tons de cor interessantes, numa referencia de uma partida de tênis oitentista, com forte influência de Yannick Noah, vencedor de Roland Garros em 83.

Precisamos ir além do que só  é apresentado como uma idealização inacessível, a criação existe. Tyler vem expandindo seus horizontes e assim como Virgil Abloh mescla Off White e Louis Vuitton encabeçando suas direções, Tyler cria uma peça interessante, esbanjando estética e experimentação.

Por fim, falar sobre o acesso dessas peças ou até mesmo da coleção completa aqui em solo Brasileiro ainda é uma dúvida que pode se tornar real na medida que o streetwear nacional avança. Nesse quesito, Emicida e a LAB tem cumprido um papel excelente, assim como diferentes mentes criativas fora do ciclo da mídia maior, influenciados de certa forma por Tyler que dá mais um passo na escalada da cultura urbana.

https://www.youtube.com/watch?v=N5mJ3p-0_q4

Um Rennan que não era só mais um silva

Desde que o mundo é mundo, tudo de criativo e grandioso que vem de fora de uma classe dominante gera falatório, olho torto e, principalmente, inveja. Desde a criação das Piramides do Egito até a chegada do samba. Com o funk não seria diferente.

Rennan da Silva Santos, mais conhecido como Rennan da Penha, tem 25 anos e é o maior DJ da sua geração de funk que tem o 150 BPM como o ditador das novas regras artísticas do gênero. O 150, que renovou o funk carioca de forma avassaladora, colocou a cidade no mapa novamente. Revelou novos MCs e catapultou o DJ ao velho protagonismo que a profissão tinha no início da jornada do funk e também do hip hop.

DJ há mais de 10 anos, Rennan inúmeras vezes contou casos de seu início de carreira em alguns dos seus posts do instagram. Certa vez lembrou de uma época em que tocava em eventos minúsculos na favela ou abrindo shows de grupos de pagode, onde era regra ter que tocar de tudo. Ou da vez em que ele compartilhou o presente que ganhou do seu empresário: Um par de toca discos mk2. Para ele, era um sonho ganhar aquele equipamento. DJ de verdade tinha que saber tocar nos toca discos.

Falo isso tudo pra afirmar que: Assim como Alok, Rennan da Penha tem profissão. E além de ter profissão, ele é extremamente bem sucedido no que faz. Possui agenda cheia (mais de 60 bailes por mês), tem endereço fixo, carro e casa própria. E é um dos organizadores do maior baile funk da atualidade, que é o Baile da Gaiola. Só que Rennan tem uma qualidade que pra muitos é um clássico problema. Rennan vive pelas suas raízes.

Rennan não namora a atriz loira global, fato comum entre personalidades negras que ascendem socialmente. Rennan já poderia ter a sua mansão na barra, mas ainda prefere viver na penha. Rennan distribuiu na sua comunidade materiais escolares para centenas de crianças, como uma forma de retribuir tudo o que de bom tem acontecido na sua vida. Rennan é o tipo de preto que nenhum setor de elite gosta. É extremamente inteligente, sabe e valoriza suas origens, dá o papo reto pra quem tiver que ouvir, sabe como movimentar milhares de pessoas através da música e dialoga com qualquer tipo de pessoa.

Setores de comando do país não aturam um DJ criado em comunidade tendo relações afetivas com pessoas que, por um motivo ou outro, tomaram outros rumos na vida. Mas aceitam o presidente da república e sua família tendo relações claras e óbvias com milicianos e assassinos de aluguel. É o tipo de hipocrisia que não queremos cair e nem acreditar que é comum.

Rennan é daquelas forças da natureza que temos que proteger. Para que não se frustre e não volte a ser só mais um silva.