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Minha Primeira Música – Laíse Neves

“Preciso dizer que não se trata da minha primeira música, mas sim da minha primeira “saga musical”.

Desde pequena sempre fui muito ligada à música e devo agradecer ao meu pai. Aos 7 anos ganhei meu primeiro rádio de presente de aniversário e lembro que minha mãe comprava cds infantis como os da Cristina Mel, Eliana e afins e eu ia escondida na sala pegar os cds deles pra ouvir (o único infantil que eu respeitava era o cd da Mulekada.

Porque, bem, era Mulekada, hahaha). Ouvia Jorge Vercillo, Maurício Manieri, Ray Charles, KC & Sunshine (inclusive costumo dizer que ‘Shake your booty’ é nossa “música de fazer passinho”), Whitney Houston (um cd versão remix tá comigo até hoje), Seal, Jon Secada, James Brown, Kenny G, Tim Maia e muitos outros que se deixar, passo o dia inteiro só citando artistas que meu pai sempre faz questão de passar na minha cara que “são da época dele” … E foi mais ou menos nessa idade que vi um comercial na tv anunciando o cd “100% Black”. Parece até que foi ontem: eu parada no meio da sala tentando identificar o ritmo e assim que o comercial tinha acabado, virei pro meu pai e disse “PAI, COMPRA ESSE CD?!”. Acho que música é a única coisa que não entrou na lista do ‘’na volta a gente compra’’…

Com o boom do computador, a pirataria também foi tomando proporção, e ainda que seja ilegal, de certa forma contribuiu muito pro meu acervo musical. Cds originais de Rap/Hip-Hop/R&B eram raros e fora do orçamento na época. Então a solução era comprar “por fora”.

Nove anos de idade, um aparelho DVD como presente de aniversário dessa vez e o primeiro contato com um mundo chamado Hip Hop Video Traxx. Como introdução, um slide de homenagem para um parceiro que morreu, um grupo de meninas dançando step e… “Touch it, bring it, pay it, watch it, turn it, leave it, stop, format it”.

A voz de uma mulher repetindo o refrão que até hoje tá grudado na minha mente e me traz sempre um cheiro de infância, mas não por causa do Daft Punk, e sim por causa de Busta Rhymes. “Touch it” foi a primeira música e o primeiro videoclipe que vi em dvd. Achava tudo foda demais: a batida, a quantidade de rappers (principalmente mulheres), as cores, as roupas, tudo! Me fez conhecer artistas que considero fodas e escuto até hoje, como Moob Deep, DMX e Papoose.  Na época, no trabalho do meu pai tava rolando amigo oculto e o presente que ele pediu foi “um dvd de hip-hop pra minha filha”. Desde então, Video Traxx 8 foi o portal da minha caverna do dragão musical. Nunca mais consegui parar de comprar ou pesquisar na internet (que era discada, hahaha).

Eram todos os dias depois da escola ouvindo ‘Run it’ enquanto fingia estar numa baladinha seguida de uma bad amorosa por não ser namorada do Ne-Yo enquanto ouvia ‘So Sick’. Os anos se passaram e sigo querendo o figurino de pelo menos a metade do dvd, pois naquela idade via as cantoras nos clipes e tinha a sensação de ver mulheres livres. Video Traxx 8 não só me proporcionou deslumbres pelas roupas e cantores novos nas minhas playlists, mas também colaborou na minha representatividade. Diante de um círculo social cheio de pessoas brancas, mantive cada vez mais meus gostos e percebendo o quanto de beleza tem a pele negra. Tudo isso naturalmente.

Se um dia eu tiver filhos, vou apresentá-los aos meus inúmeros dvds e falar como meu pai  -típico leonino- fala até hoje com seu orgulho musical: é da minha época!

Laíse Neves – Colunista de moda da AUR, estudante de comunicação, pesquisadora de moda, dançarina e menina mulher da pele preta.

Minha primeira Música – Kim Camargo

Eu me lembro de várias cantoras em vários momentos da minha vida, em crescimentos e conhecimentos que tive e ainda estou tendo. Lembrar de uma música em específico ficou muito difícil e desafiador.

Lembro de quando eu deveria ter uns 11 anos e estar em casa com a minha mãe, escutando rádio e brincando ou me preparando para ir para a escola, de ouvir centenas de mulheres de vozes inigualáveis cantarem e de querer ser melhor amigo de alguma delas.

De fato, uma das cantoras que mais marcou a minha vida foi Helen Folasade Adu. A famosa Sade, quanto tocava na JB fm me fazia estagnar no tempo e tentar entender o que ela queria dizer com toda aquela canção, e o melhor: para quem?

Eu sei que ouvir ao saxofone e a voz dela pareciam tão naturais como se eu já conhecesse Sade por muitos anos. O incrível é que nós nos perdemos durante um tempo e nos reencontramos anos depois quando ela entrou em turnê, e um dos shows que aconteceu no Rio de Janeiro chamado Bring Me Home em 2011, no qual me arrependo de não ter ido, me fez sentir como um grande traidor. Cheguei a chorar e me isolar durante uma semana. Até hoje guardo essa tristeza dentro de mim.

Sade foi uma cantora que me fez conectar com uma paz e um amor que jovem eu não entendia e que agora, um pouco mais velho, entendo e quero viver. Aquelas letras sobre amores que curam, que fortalecem, que independente de estragos que possam acontecer, sempre os (re)encontros de você com um alguém que te conecta ao mundo.

Your Love Is King foi, de fato, é uma das primeiras músicas que eu ouvi e que me marcaram. O difícil é escolher uma só música de Sade quando se fala da deusa negra do amor.

Kim Camargo – Administrador por formação e amante das artes por vocação e admiração.

Minha Primeira Música – DJ Sem Vulgo

Desde criança minha família sempre foi muito religiosa, meus pais e a maioria dos familiares são cristãos protestantes e há 15 anos atrás as igrejas eram bem mais mente fechada para outros movimentos que não fossem os tradicionais, mas foi ali dentro que eu ouvi o que eu considero a minha primeira música, antes dela eu realmente não lembro de nenhuma outra ( parece exagero mas juro que é verdade ) foi ali, dentro de uma igreja que tudo começou pra mim.

Lembro-me como fosse ontem, no ano de 2004 quando eu tinha apenas 10 anos de idade e era totalmente excluído do mundo lá fora, não sabia oq era HIP-HOP, FUNK, etc…. minha vida se resumia a corinhos da harpa cristã e ali minha tia ( Tia Lú ) me apresentou o RAP, DJ ALPISTE era o nome, cara, ali tudo fez sentido, pq quando eu ouvi a primeira música do cd que era gravado no formato acústico eu não conseguia descrever oq eu sentia, era muito intenso e logo na introdução ele falou uma frase que eu nunca vou esquecer na vida

– “Seja bem-vindo a uma viagem super sônica chamada HIP-HOP” e ali começou realmente essa viagem, a partir desse cd tudo começou, juntei uma pá de mlk que fechava comigo apresentei isso e montamos um grupo de dança chamado New Life (b-boys), a partir disso eu comecei a discotecar nas famosas Gospel Nights, até me atrevi a montar uma banda aonde eu era o vocalista e cantávamos RAP GOSPEL;  só que a viagem era realmente grande e as paredes da igreja eram pequenas para conter um jovem que queria conhecer o mundo e esse mundo era o HIP-HOP.

Hoje estamos em 2017 e eu ainda estou dentro desse trem aprendendo mais a cada estação do mundo HIP-HOP e estamos só aquecendo os motores.

 DJ Sem Vulgo – Designer e dj da AUR,.

Minha Primeira Música – Rafael Moura

“A minha primeira música não é exatamente a primeira música que me marcou, mas sim a música que marcou marcou minha vida neste ano de 2017.

Eu fiquei internado durante nove dias por causa de problemas na vesícula e na madrugada anterior ao dia anterior ao receber alta, sonhei com ela, mas não lembrava do nome!

A música é do Cartola – Preciso me encontrar, da qual a melodia da introdução, ficou na minha cabeça a manhã inteira. Depois da visita do médico me deu alta e disse que eu precisava “repensar minha vida e meus hábitos”, eu lembrei que tinha ouvido essa música no filme Cidade de Deus, fui ver o filme e “descobri” qual era música.

Ela marcou muito esse meu ano de 2017. “Deixe me ir, preciso andar, vou por ai a procurar, rir para não chorar…””.

Rafael Moura – CEO da LOOC e Coordenador de Moda do Instituto Black Bom

Minha Primeira Música – Camilla Ribeiro

Nunca demonstrei gostar de algo que transcedesse o tempo e o espaço…. e não tenho costume de ouvir música enquanto pratico outras atividades, prefiro permanecer atenta a tudo e elas sempre me desfocavam.

Em 2014, em um musical chamado Se eu Fosse Você, o mundo pareceu entender o que eu sentia através da música, ou pelo menos de uma específica. No espetáculo, homenageava-se Rita Lee, sendo assim todas as músicas eram dela, que eu já conhecia, só que dentre todas as músicas uma em especial, estava ouvindo pela primeira vez e pasmem já aos prantos. Parecia em conexão direta e única com aquela artista! Tudo me tocou, a letra, a melodia e a interpretação fantástica de uma atriz que parecia narrar o que eu sentia .

Na música fala-se do sentimento ou modo referente a Mutação… mudamos o tempo inteiro, evoluímos… e tem horas que tanta evolução não acompanha os passos de quem está conosco… talvez o tamanho que enxergam a gente, a grandeza de um ideal de uma nova mulher periférica e mentora de ideias revolucionárias não nos deixa caber num ideal de mulheres românticas, que querem ser cuidadas.

Muitos não entendem e deixam sentimentos jogados e estagnados na estante… Nos deixam ilhadas… mesmo cercadas de gente, um único sentimento paira sobre a gente, a solidão.

“KISS-ME baby, Kiss me! Pena que você não me quis, não me suicidei por um triz” Não é um pensamento de morte… mas sim por quase deixarmos de lado a grandiosidade do que somos ou do que queremos pra caber no sentimento, na vida, na expectativa do outro… suicidando assim quem realmente somos, o que foi construído…

A gente segue o caminho, segue a vida, mudando em evolução, mas acreditando num romantismo sem a diminuição da mulher preta, sem a diminuição da grandiosidade em que somos.

Nesse momento, dessa música que eu repeti um milhão de vezes seguidas… me senti compreendida, talvez encontrado a letra e melodia certa pra traduzir o que sentia, talvez romantizando tudo isso dizendo ser compreendida pelo mundo. Mas acalentada… ali sim, eu vi o poder que a música tem.

Camilla Ribeiro – Professora, Mãe da Bia e Produtora do Samblack JPA.

Minha Primeira Música – Caio Lima

Minha memória não permite que eu chegue à primeira música que tenha despertado meus sentidos para a arte que viria a ser tão importante — e necessária — na minha curta e agitada estadia neste plano. Músicas se empilham e conquistam espaços nas prateleiras da memória, ganhando, também, proporções e importância inerentes aos nossos momentos. Num desses casos, me lembro de meu pai e a nossa rotina de ver filmes que ele escolhia, acredito, para que me servissem como exemplo. Coisas de uma vida corrida. A rotina não permitia que tivéssemos muitos momentos juntos, talvez por isso eu guarde esses momentos tão vívidos na memória; talvez por isso a urgência dele em se utilizar de modelos pré-fabricados para incutir alguns conceitos que ele considerasse necessários, uma maneira expressa de me transmitir lições quando possivelmente nem ele mesmo soubesse o que era necessário para educar uma criança. A transição de século foi um período difícil para determinar limites e tangenciar metas e modelos para uma boa educação, diga-se de passagem.

Fim de 1999, num dia de férias qualquer com muito calor; o calor seco que só Campinas (SP) foi capaz de me proporcionar. Meu pai chegou com o pacote de fitas semanal que ele costumava locar. Anunciou que não precisaria sair às 16h de casa para ir pré-trabalhar, naquele dia ele só trabalharia. Logo emendou dizendo que trouxe um filme importante, que queria ver comigo e não poderia esperar muito tempo. Meus pais nunca me negaram acesso a absolutamente nada. De cultura a violência — Campinas era a cidade mais violenta do país à época segundo os jornais —, tudo sempre me foi explícito (dentro do que ambos considerassem “didático”, claro). O filme era o novo do Denzel Washington, cujo eu já sabia ser um baita ator e um dos preferidos do meu velho, que remontava a vida de um boxeador injustamente acusado de assassinato, tendo 19 anos da sua vida tomados pela lei americana; ou por seus cumpridores inveterados. E racistas.

É interessante lembrar de como as noções de estereótipo habitam nosso imaginário desde quando nem temos o mínimo de consciência sobre aquilo que fazemos. Lembro perfeitamente do começo do filme e da sensação de estranhamento causada por uma música atípica para uma história trágica, de dor e redenção. Nada de orquestra, nada de tristeza. A música tinha um certo suingue. Esquisito para ser a introdução de um drama biográfico, mas era o que era. A voz do intérprete meio raivosa, falando sem parar por cima daquela melodia que eu já havia escutado em algum disco do meu velho. Ele sempre gostou dessa linha meio country norte-americano, até modão de viola ele ouvia, aqueles sertanejos clássicos — e eu aprendi a ouvir com ele, lógico. O filme não começava, que aflição. Eram flashes do Denzel com a música de fundo. Quase dez minutos assim. Eu meio que queria avançar o filme e ao mesmo tempo estava completamente inebriado pela sensação esquisita que o som me proporcionava. Era muita música, literalmente. E eu já não fazia questão de entender a relação estranha entre a música e o filme.

O filme acabou e, como sempre, meu pai ligou o modo sermão dele. Me alertou para a anormalidade das “brincadeiras” que crianças praticam, sobre como a lei pode ser falha e por isso era importante andar limpo e perto de “bons exemplos” (seja lá o sentido que bons exemplos tinha para ele na época), e, principalmente, sobre racismo e suas diferentes manifestações. Eu não abri a boca para nada, a não ser para concordar e perguntar que música era aquela do filme, interminável e aparentemente fora de contexto. Poucos dias depois meu pai apareceu com o disco Desire, do Bob Dylan, e lá estava a música, primeira do disco. O encarte não veio traduzido, mas um amigo do velho deu uma mãozinha com a tradução. E então tudo ficou mais claro e ainda mais inacreditável. Foram semanas movido à Bob Dylan e curiosidade.

Hoje consigo reconhecer a importância — e paciência — que meu pai, no caso, teve em responder às minhas dúvidas inabaláveis e não brecar minha curiosidade. Eu passei a ter acesso a esferas de conhecimento interessadas em subverter a ordem das coisas e que fazem as conexões entre as artes que hoje me são tão valiosas, raízes do meu trabalho com literatura. Por isso fui um dos orgulhosos com o Nobel de Literatura conquistado por Dylan, inclusive. Hurricane não é um hino, um libelo pela liberdade, apenas. Composições como essas são libertadoras de verdade, capazes de suscitar questionamentos amplos, além da condição do injustiçado Rubin “Hurricane” Carter. Ninguém acredita no isolamento dos repetidos casos idênticos ao (ou piores que) de Rubin e no comportamento idôneo da justiça. Hurricane explicita verdades à prova de balas que funcionam para mim, até hoje, como um refúgio quando me deparo com a loucura do meu tempo presente. O poder de uma boa história aliada a uma boa música é revolucionário. Isso me soa tão conceitual quanto atual.

Caio Lima -Dono do blog Rede de Intrigas e editor no site RAPRJ.

Minha Primeira Música – Kennya Rosa

Eu já tive tantas fases dentro da Música que fica até difícil dizer a partir da onde tudo começou; a verdade é que ela sempre esteve ali, o tempo todo. E ela se fez presente de uma tal maneira que tentar evitá-la seria um dos maiores erros que eu, conscientemente, poderia ter cometido. Foi no final dos anos 90, época dos hits de Axé e das musas teens do Pop brasileiro estampando as capas dos cadernos na escola, foi naquela época que eu comecei a entender o que era Música, e as minhas referências eram poucas naquele tempo mas intensas o suficiente pra se tornarem lembranças reais do meu passado: o vizinho maluco que escutava Metal o dia inteiro, Só Pra Contrariar tocando no último volume nos churrascos de domingo, tudo isso me fez entender algo que é uma peça-chave pra quem se atreve a entrar nesse universo.

— Música é identidade e cada um tem a sua.

Na minha casa era assim ,quando os LPs de MPB não estavam tocando no rádio da sala, era da TV que o som iria surgir e eu posso dizer que eu vivi o surgimento de uma era crucial pra história da música, os videoclipes dominavam os programas em todos os canais da televisão e eram vistos como a grande revolução do audiovisual, algo novo e ousado que a mídia veiculava em ritmo exaustivo porque todos queriam ver de novo.

Até então muita música já havia passado pelos meus ouvidos, mas o primeiro som que me cativou de verdade foi uma faixa do By The Way, oitavo álbum lançado pelo Red Hot Chilli Peppers e apesar de não ter nenhuma informação a mais sobre nada daquilo a melodia se fixou na minha cabeça, ao ponto de sentir uma expectativa tão real toda vez que escutava aquela bateria que introduzia a canção e logo entraria a voz do Kiedis com aquele flow e timbre inigualáveis que só não eram mais fantásticos que o som da guitarra do Frusciante que aparecia no meio do música e era sem dúvidas a melhor parte, exatamente a parte que me fazia querer escutar aquela música quantas vezes fosse possível e viria a ser um dos primeiros acordes que eu aprendi a tocar assim que comprei a minha primeira guitarra muitos anos depois.

Tudo isso durou um longo tempo e foi uma fase maravilhosa, a Música ainda era uma novidade e eu não fazia ideia da importância singular que ela viria a ocupar na minha vida, a Música se tornou um álibi, o melhor que eu poderia ter encontrado, é a musa que evoca o meu fascínio pela vida, tão poderosa e gloriosa que através de mim consegue ainda influenciar aqueles que estão a minha volta.

E mais tarde eu realmente entenderia que uma das suas mais fantásticas propriedades é a de ser Infinita, e por tantas vezes mais e com as mais diferentes faces ela re-surgiria pra mim, e sempre com a mesma capacidade de provocar esse sentimento tão instigante, e arrebatador que se tornou gritante o quão era necessário que eu fizesse alguma coisa a respeito, e assim o fiz.

Kennya Rosa – Dj