A censura de Crivella não vai parar nos LGBT+

Postado por 11/09/2019

É bem possível que você tenha visto o que aconteceu nos últimos dias, na Bienal do Livro do Rio. Em resumo: uma história em quadrinhos com beijo entre dois homens sofreu tentativa de censura por parte de Marcelo Crivella, prefeito do Rio. Ele tentou recolher, os livros esgotaram, a Bienal entrou na Justiça para impedir novas tentativas de recolhimento. Foi um vai-e-vem na Justiça até que o Supremo Tribunal Federal decidiu: uma prefeitura não tem poder para apreender quaisquer obras que seja sob argumento de “defender crianças da pornografia”. A obra em questão foi alvo por motivação homofóbica. Se você não é LGBT, talvez não entenda o perigo, mas é aquele ditado: uma hora pode ser com você.

 

O ataque de Crivella a um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo é um ataque a tudo que foge do status quo, do padrão. E o que é o padrão? Homens heterossexuais, cisgênero, brancos e de classe média. Famílias “de comercial de margarina”, com aquele padrão bem claro — em todos os sentidos. Se hoje ele atacou o que é contrário à heterossexualidade, amanhã ele vai atacar o que é contrário à cor branca e por aí vai. Desculpas não irão faltar. O projeto de poder em curso no Brasil tem como meta restabelecer um modo antigo de viver, quando o tal status quo não era questionado. Negros em senzalas, gays invisíveis, transgêneros inexistentes. 

 

Por alguns anos, o Brasil tentou furar essa bolha. Políticas de acesso à educação têm grande impacto nisso. A população antes escanteada estudou e percebeu: “ei, algo está errado aqui. Eu existo”. E a partir de então, gritou. Não há nada que incomode mais o padrão do que os gritos daqueles que, via de regra, nem deveriam existir. Por anos, guardaram esses gritos, fingiram suportar essa toada em busca da libertação de corpos e mentes. Mas agora, o jogo virou. O poder é cíclico, e o conservadorismo no topo não hesita em dar um recado: não tem espaço para vocês. Sendo “vocês”, nós.

 

O Crivella manda um recado aos artistas de rua, às mulheres transgênero, às mães solo, aos jovens negros, aos funkeiros, aos rappers, aos artistas de rua, aos gays, às lésbicas, aos candomblecistas. Crivella manda um recado para todos aqueles que (ainda bem!) não considera normais. 

 

Infelizmente, a gente costuma achar que nenhum problema é grave o suficiente até nos envolvermos diretamente. Mas Crivella vem atacando o “diferente” há tempos. Passou pelo Carnaval, pelas rodas de samba nas ruas, chegou à população LGBT+ e não há indícios de que vá parar. Antes de chegar a mais setores da sociedade, a gente tem que gritar. Esse grito que incomoda, que incomodou por tanto tempo. E isso não significa, caso você não queira ou não goste, ir para as ruas portando um cartaz de protesto. Cada um de nós tem um lugar no mundo e a partir desse lugar podemos, sim, fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

 

Isso é fundamental que aconteça porque o problema é “o guarda da esquina”. Se o prefeito diz que o beijo entre dois homens é sinônimo de pornografia e ofende crianças, pessoas vão acreditar nisso. Seu pai, sua tia, seu avô. Seu colega de trabalho, o cobrador do ônibus. Pessoas boas e comuns, ok. Mas aquele pitboy também. E se ele acha que beijo é pornografia, pode se sentir no direito de acabar por qualquer meio necessário com a demonstração de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo. É assim que casos de homofobia acontecem também. Essa cruzada tem de parar agora, o quanto antes. Se amanhã o prefeito diz que determinado tipo de manifestação cultural é errada, porque ele sente-se autorizado a dizer isso, o que impede pessoas comuns invadirem determinados espaços e agredir fisicamente em prol do padrão?

 

E aí pode ser eu, meu cabelo, minha religião, a música que ouço. E pode ser você, o ritmo que você dança, o lugar que você frequenta, o espaço que você mantém. Seu amigo e a profissão dele. Pode ser qualquer um. 

 

Se não pararmos os agentes da censura e da repressão agora, com muita informação e voz alta, eles é quem vão nos parar. E demoramos muito para ter o mínimo de liberdade para perdê-la agora. Gritemos.

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