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Um dos rolézins na Cidade Alta

Um dos rolézins na Cidade Alta

Eu tinha uns 23 anos, mó fé na vida. Nessa época, meus olhinhos brilhavam e eu acreditava real que aos 30 eu já seria rica, mas aquele tipo de rica que muda o mundo (HÁ HÁ HÁ). Me lembro como se fosse ontem: era tardezinha, papo de umas 15:00, estava meio nublado, eu tava no quintal de uma ONG que eu trabalhava, lá na CDA, de boa, batendo um papo sobre cultura.

 

Minha amiga discursava inflamada sobre os benefícios da leitura, o entendimento sobre política, citava uns autores, falava uns nomes de deputado estadual, sei lá. Foi quando um carro que eu não sei o nome mas é tipo Tucson (mas não era tão foda, era um pouquinho menor!) estacionou e de lá de dentro saiu uma crilorona gata, cheia de ouro pelo corpo. As feministas com pé fora do chão que me perdoem, mas aquele naipe clássico de mulher de bandido, que é meio brega porém gostosa e sempre de salto; tá ligada, né? Ela chegou sorrindo, cumprimentou geral e sentou na roda, tudo suave, tudo normal!

 

Fui saber mais tarde que a mina era casada com o dono do local, mas já tinha sido mulher do Catra, tinha um filho com ele. Era ex de algum malvadão pipipi, popopó. Sabe como é: ritmo cotidiano, nada demais. Algumas pessoas dedicam a vida à biomedicina, outras a não chegar atrasadas no trabalho que odeiam… e tem mina que dedica sua vida a ser a Mulher do Chefe. O que eu particularmente respeito muito, porque exige uma técnica específica. Tem que ter disposição, tem que ter habilidade. 

 

Apresentada a personagem deixa eu seguir com a minha história. Papo vai, papo vem e o assunto ainda é “seja universitária, seja heroína” quando a crilorona (crilora + gatona) dá uma risadinha debochada e lança com ar de vitoriosa:

“Mas amiga, quantos bens você tem? Mas assim bens, tô falando de bens, não to falando da sua televisão bonita.”

 

Meio sem graça, a menina da inteligência respondeu alguma coisa filosófica sobre informação ser a chave que abre as portas de outro nível de consciência política e racial, falou dos males do capital. Não era tão careta assim, tinha sua paixão. E a crilorona, muito plena, já soltou mais uma risadinha do bonde das debochada.

 

A essa altura eu já tava ligadaça assistindo aquela batalha épica. Mano, vocês não estavam lá; infelizmente não sou tão boa, não sei descrever em palavras, tinha drama no oxigênio, tava melhor que Shakespeare o bagulho.

 

A gatona acendendo um cigarro com os anéis de ouro, unhas impecáveis e um sorrisinho no cantin da boca: “Eu tenho três imóveis: um pra mim, um pro meu filho e um pras férias. Tenho carro e o mais importante: ouro, bastante ouro! Amiga, até onde eu sei, inteligência não tá valendo muita coisa por aqui não!”

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Todos riem! A amiga da informação fica meio confusa, passa o carro do ovo, eu fico querendo fazer uma peça e o baile segue normal.

 

Nada disso tem moral nem tem lição, mas é sempre bom lembrar que na vida tudo é questão de perspectiva.

 

*Coluna da Taísa Machado

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