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Tuareg Music: o blues do deserto

Tuareg Music: o blues do deserto

Na região fronteiriça entre Mali, Níger, Líbia, Argélia e Burkina Faso, vivem os tuaregues. São aproximadamente 4 milhões de pessoas semi-nômades do povo berbere (pertencentes a diversas etnias), sendo a maioria muçulmana. O norte do Mali concentra grande parte dessa população, que por décadas tem se organizado politicamente pela autonomia do seu território, localizado no deserto do Saara.

Essa luta por independência resultou em diversas rebeliões armadas ao longo das anos. A mais recente delas aconteceu em 2012. O resultado foi uma crise humanitária e de direitos humanos com dezenas de mortos e milhares de refugiados em países vizinhos. Um levante de proporções ainda maiores ficou ativo de 1990 a 1995, após uma represália militar sangrenta na cidade de Gao. Esse foi o segundo levante em resposta a primeira derrota que os tuaregues tiveram nos anos 1960, após a independência do Mali, então uma colônia francesa. 

 

Ibrahim Ag Alhabib
Ibrahim Ag Alhabib | Foto: Divulgação

 

É nesse ambiente efervescente que nasce a Tuareg Music (também chamada de Tuareg Rock e Desert Blues). Nas suas bases estão a cultura musical tamasheq, produzida a partir do imzad  (espécie de violino de uma corda, tradicionalmente tocado por mulheres durante a declamação de poesias), o tambor tindé, flauta, o alaúde teherdent, palmas e cantos. Sob a influência do rock, esses instrumentos tradicionais começaram a ser substituídos por guitarras elétricas e bateria no final dos anos de 1970. Um dos responsáveis pela eletrificação e por criar o característico som do desert blues foi Ibrahim Ag Alhabib, líder da Tinawriwen, formada em 1979.

O estilo apelidado inicialmente de “Tishoumaren” (“a música dos desempregados”) começou a ser desenvolvido em campos militares montados na Líbia pelo Coronel Muammar Gaddafi, governante do país, para treinar jovens Tamasheqs. Ag Alhabib era um deles. Teve de deixar a vida nômade para se alistar involuntariamente no serviço militar “rebelde”. Toda a hostilidade da guerra influenciou a lapidação de um tipo de música que reflete na sua textura a rigidez e o vigor daqueles tempos (tem a essência do blues do Mississipi, mas a distorção e os overdubs das guitarras dá um identidade própria, que se difere do rock clássico e se aproxima da estética desenvolvida pelos ancestrais da África Ocidental – evidenciando mais as cordas do que os tambores). 

Isso também se faz presente nas letras com temas relacionados aos problemas do exílio, repressão, despertar político, liberdade e soberania. Assim, a Tinariwen se tornou a voz popular de uma “nação deslocada e sem direitos” e, ao mesmo tempo, inimigo de quem detém o poder. No Mali e na Argélia, alguns dos seus álbuns são proibidos. Para o registro do disco lançado em 2019, “Amadjar”, eles viajaram no deserto da Mauritânia com uma equipe de produção francesa, que transformou sua van de apoio em estúdio móvel. Durante quinze dias acampados, cercados por escorpiões, gravaram em barracas e sob a luz das estrelas. A excursão o pode ser acompanhada no documentário que intitula o projeto.

 

 

O protagonismo das Mulheres

Pela singularidade, a Tinariwen expandiu seus territórios. Conquistou os ouvidos do mundo, recebeu premiação do Grammy pelo álbum “Tassili” (2011), tocou em vários festivais, incluindo Glastonbury e Coachella, e influenciou gerações de músicos nômades que ainda tem muito a dizer. 

Esse mesmo caminho foi seguido por seus contemporâneos da Tartit, composta por cinco mulheres e quatro homens. A banda liderada cantora e ativista Fadimata “Disco” Walett Oumar se organizou no campo de refugiados em Burkina Faso (nos anos 1990), um lugar “onde a música era um meio de sobrevivência em face das lutas econômicas, sociais e políticas da região”.

A sonoridade é mais percussiva, cadenciada e “tribal”. Os ruídos das guitarras ficam em segundo plano para que tambores metálicos e instrumentos africanos, como o imzad e teherdent ngoni, sejam enfatizados. 

 

 

Paralelo à música, a Tartit possui uma organização dedicada a preservar e aumentar a conscientização sobre a música e a cultura do Mali. O projeto foi reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas por criar escolas para crianças e oportunidades de trabalho e inserção social de mulheres. 

É por causa de trabalhos iguais aos feitos por Disco (sua banda e diversas ativistas) que Fatou Seidi Ghali se tornou a primeira mulher tuaregue a tocar guitarra profissionalmente, a qual aprendeu escondida. Ela está à frente da Les Filles de Illighadad, iniciada em 2016 com o primo dela Alamnou Akrouni, responsável pela percussão e vocais, e a também guitarrista Fatimata Ahmadelher, consequentemente a segunda mulher a dominar as 6 cordas de violões e guitarras, instrumentos que pelas tradições da sua área não vistos com bons olhos nas mãos de uma mulher.

O repertório é formado por canções folclóricas de chamada e resposta acompanhadas por um folk dedilhado ao violão, complementado por batidas do tende, um tambor que também nomeia cantos locais e geralmente é tocado em rituais tradicionais de namoro em Illighadad, no oeste do Níger.

Essa mistura contribui para a construção de uma atmosfera hipnótica com sensações distintas. Ao jornal inglês The Guardian, Fatou diz que o seu objetivo é subir a patamares ainda maiores para “ajudar a aldeia (em que nasceu), comprar remédios e apoiar meus irmãos e irmãs”. 

 

 

Do deserto para os principais palcos do mundo

A história do desert rock não é recente. Antes da comunidade Tuareg mostrar sua musicalidade ao mundo, o malinês Ali Farka Touré se destacou mundialmente com seu estilo singular de fazer blues, chegando a ser considerado o John Lee Hooker africano. É possível notar a influência dele nas características da música saariana contemporânea. 

Seguindo a rota aberta por Touré está o Mdou Moctar, de Agadez, uma vila na zona rural do Níger. As melodias construídas por ele são inspiradas nas experiências da sua comunidade local e técnicas usadas por Eddie Van Halen, aprendidas através de vídeos no Youtube. E além de dominar a guitarra, Mdou é ator, roterista e  produtor de um remake do filme “Purple Rain” (estrelado por Prince). Chamado de “Akounak Tedalat Taha Tazoughai” (“Chuva de cor azul com um pouco de vermelho dentro”) é o primeiro filme na língua tamasheq.

Afrique Victime é o mais recente álbum da banda que leva o nome dele, mas tem na composição o produtor e baixista norte-americano Mikey Coltun, o baterista Souleymane Ibrahim e o guitarrista base Ahmoudou Madassane. (Este último é um dos principais embaixadores musicais dos Tuaregues no Níger, tendo capacitando jovens músicos com aulas, instrumentos, oportunidades de gravação e vistos para viajarem. Masassane é um dos padrinhos da Les Filles De Illighadad). As influências com o rock dos anos 1970 e 1980 estão bem destacadas. Os riffs das guitarras são pulsantes e energéticos. No vídeo ao vivo que eles gravaram no vilarejo de Niamey (Níger) mostra toda essa potência e o quanto estão conectados com seus pares.

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 “Essa é uma mensagem para todos os países com dinheiro e poder que vêm para a África e matam os líderes que tentam empoderar as pessoas e liderar revoluções”, diz Mdou sobre o LP. “Isso empurra a área para o perigo e a instabilidade e encoraja os terroristas, e são as pessoas que sofrem e não têm justiça. A África é inocente. Os franceses usam nosso urânio, mas 90% das pessoas aqui não têm eletricidade.”

Além de protestar, a mensagem deles visa promover a  igualdade, equidade e a paz entre os povos. “Mulheres, homens e crianças sofrem no deserto devido à colonização pela França e, portanto, falta o básico – hospitais, água potável, escolas”, observa. Assim como a Les Filles, o propósito principal é fortalecer a juventude da sua comunidade. “Não ter o apoio de sua família, ou o dinheiro para guitarras ou cordas, é muito difícil. Tenho muito apoio da geração mais jovem, porque os ajudo muito. Quando eu volto da turnê, eu dou a eles equipamentos que comprei enquanto estava fora, para que eles possam sair e formar suas próprias bandas.”

Valorizar as raízes e mantê-la viva também faz parte do conceito artístico do Bombino. Mais um dos grandes nomes do Níger, o guitarrista é o primeiro do seu país a ser indicado ao Grammy. Porém, a maior conquista dele é não deixar morrer sua cultura. “O mundo está mudando rapidamente e culturas como a minha, a cultura tuaregue, estão sob séria ameaça de desaparecer”, disse ele ao comentar sobre a música ‘Imajghane’. 

 

 

Celebrado na Europa e nos Estados Unidos, os trabalhos de Bombino têm sido aclamado pela crítica e público. No geral, quase todos os representantes da Tuareg Music chamam a atenção por sempre inovarem na fórmula (uns mais, outros nem tanto). São similares no alicerce, mas se diferenciam no jeito em que constroem.. Aos já citados, inclui-se Tamikrest, Songhoy Blues, Zerzura, Amadou & Mariam, Salif Keita. Cada um faz sua parte na manutenção da cultura do lugar que nasceu. Fazem parte de uma rara árvore genealógica que gera frutos distintos.  

“A perda das culturas indígenas tradicionais é uma grande perda para toda a humanidade”, observa Bombino. “Devemos fazer tudo o que pudermos para preservar, celebrar e compartilhar nossa bela herança.”

 

Foto capa: Marie Planeille

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