Sobre amanhecer com Sereias

De tantas novidades, a parte mais curiosa de ter 30 anos é que agora eu durmo. Nunca fui muito de dormir, lembro nitidamente de uma infância prioritariamente insone. Meu pai sempre brigava quando me via tranquila brincando de boneca no escuro às 4 da manhã. Aos 16, meu sonho era inventar uma pílula que recarregasse o corpo e me livrasse do fardo pesado que era parar e descansar.

Minha pré-disposição para ficar acordada, sobretudo à noite, quando eu começava a sentir uma espécie de fera trepar sobre meus ombros e meu corpo ficar inquieto e hiperativo, fez de mim uma boêmia muito bem sucedida. Eu varava as madrugadas com a serenidade e disciplina de uma yogue.

Como num passe de mágica, alguns meses depois do meu aniversário eu não só durmo cedo e sinto meu corpo mais descansado e tranqüilo como também eu acordo cedo. Curtir as manhãs acordando, em vez de indo dormir, tem sido revigorante.

A manhã guarda aventuras interessantíssimas. Outro dia recebi um convite, uma aula de natação no mar. Como agora além de acordar cedo eu também m moro na zona sul da cidade do Rio de Janeiro eu pensei: “por que não?”

Se curtir a manhã é diferente, eu te digo que curtir a manhã na zona sul é mais diferente ainda. Depois de descer na estação Antero de Quental, no Leblon, e perceber que tem uma daquelas cafeterias chiques bem ao lado da bilheteria, eu vi a praia lotada num dia de semana às oito da manhã — pode parecer normal para você, mas de onde eu vim às 8 da manhã você já tá no trabalho ou é uma transviada, como eu já fui.

Subi a Niemeyer na missão de chegar na minha praia preferida na cidade, a Prainha do Vidigal, que alguns desavisados chamam de Praia do Sheraton. Entre alguns gringos, ela me esperava: uma mulher com os olhos tão pretos que dava pra mergulhar dentro.

Veluma era o nome dela, nome de sereia. Ela sorriu pra mim e me convidou para ouvir o que a água tinha pra dizer. Nesse momento eu tive que tomar a decisão: embarcar nessa viagem de peito aberto ou me retirar de volta para a “realidade”. É claro que eu encarei, afinal, agora vivo uma vida que inclui acordar cedo, tudo é possível. Fora que não é todos os dias que uma enviada de Yemonjá me convida para uma viagem ancestral.

Veluma foi a primeira sereia que eu vi na vida, ela é intensa e diferente do que eu imaginava, ela pisa firme com os dois pés no chão. Uma pele preta e linda, um sorriso branco e lindo e sabedoria de quem sabe falar com o útero do mundo.

Não sei quanto tempo fiquei ali recebendo os ensinamentos de Veluma, sentindo o meu corpo submerso na densidade imensurável do mar, mas foi tempo suficiente pra eu guardar no coração, nos ouvidos e nos ossos: “Transformaram a Ancestralidade num conceito. Ancestralidade não é um conceito. Ancestralidade apenas é, está ali, é uma realidade.”

Eram 11 da manhã e eu já tinha viajado pelo tempo e voltado. Acordar cedo é bom mesmo. Desci a Niemeyer admirando a vista, admirando a mim mesma, consciente que a Ancestralidade não tem limite, não é um pote com medidor. Ela jorra e nunca para, nem dorme, nem descansa.

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Sorri e agradeci a Ogum, que é aquele que me guia, a oportunidade de viver 30 anos, pra ter tempo de dormir e acordar; e de falar com sereias reais pelas manhãs. Depois fiz silêncio, respirei e fiz um pedido: 

Que as crianças da Maré, Complexo da Penha, Complexo do Alemão, etc, possam crescer, acordar e falar com sereias. Por favor, Ogum, por favor.

 

Coluna da Taísa Machado

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