Lendo agora
Sankofa: o resgate e a celebração da essência negra através do piano de Amaro Freitas

Sankofa: o resgate e a celebração da essência negra através do piano de Amaro Freitas

Pontualmente às 10 da manhã de uma quinta feira fria, Amaro Freitas chega para nossa conversa via Zoom. Em Campinas fazia 16 graus, já no Recife a temperatura estava em média 22. Quase três anos atrás, acompanhei de perto uma apresentação dele. Foi nessa ocasião que o conheci pessoalmente e conversamos sobre Rasif, o segundo álbum de carreira dele, e o primeiro lançado pelo selo inglês Far Out Recordings.

Passados três anos, nos reencontramos novamente (agora de modo virtual) para falarmos do disco “Sankofa”, de jazz, Baquaqua, de personagens históricos da diáspora africana, experiências que teve ao redor do mundo e, inevitavelmente, do apagamento da cultura preta brasileira. Os 50 minutos de papo renderam. Amaro Freitas é tipo um professor, que explica de forma didática. Assim como fás soar o som do seu piano, tem uma fala suave, tranquila, agradável. 

“O disco traz símbolos, traz lugares, traz personagens… e sankofa é um símbolo adinkra que tem a ver com essa retomada da ancestralidade, para que a gente se compreenda melhor agora e possa oferecer um futuro melhor […] Eu só estou aqui, porque todas essas outras pessoas vieram antes de mim, sabe!?, diz “E aí, quando você olha para Milton Nascimento, percebe que Milton é memória, é autoestima para uma população preta brasileira, que é maioria, mas que tem a autoestima lá embaixo porque sempre querem colocar a gente dentro de uma caixinha. Querem determinar qual é o nosso lugar. Então, quando a gente tem a oportunidade de ter um artista como o Milton Nascimento, como o Johnny Alf, como Moacir Santos… é um lugar de potência também para falar desse poder que é a música preta brasileira”. 

A última vez que conversamos, em 2019, você estava lançando “Rasif” e me disse que já estava trabalhando no seu terceiro álbum (então sem título). Me fala sobre esse processo de construção de “Sankofa” nesses últimos anos.

Então, tem tudo a ver com a forma que a gente trabalha a música, como a gente entende isso. Eu procuro estar em constante processo criativo, tentando manter o foco e a disciplina no instrumento, para sempre estar me provocando a sair da minha zona de conforto e ir para outros lugares. Assim como em Sangue Negro, a gente já estava atuando, fazendo alguns shows e criando Rasif… e a mesma coisa aconteceu com Rasif. Quando eu começo a fazer alguns shows vai me vindo o conteúdo, e as referências a partir da ancestralidade já começam a chegar pra mim. Também eu já estou vivendo um outro momento de provocação no instrumento. Eu acho que Baquaqua tenha sido uma das primeiras músicas de Sankofa, e eu estava ali trabalhando muito essa questão que é dar um olhar para o ritmo, que talvez seja um dos pilares centrais do disco. Mas tentar fazer isso com um compreensão maior, no que diz respeito a entender que ao mesmo tempo que eu trabalho uma coisa polirrítmica, eu também entendo que sou outras coisas. Então, em Baquaqua, a gente cria uma coisa muito parecida com o trabalho de Moacir (Soantos) e de Béla Bartók. Ao mesmo tempo que você trabalha uma complexidade no ritmo, a música é pulsante, não é travada ou quebrada, é uma coisa que tem um mantra contínuo. Baquaqua é um pouco disso. A gente está trabalhando algumas polirritmias bem complicadas de tocar (um 8 contra 7, um 9 contra 8), e várias coisas vão acontecendo dentro dessa música para tentar fazer referência a esse homem, esse ancestral que tem uma história de vida incrível e é motivo de orgulho para todos nós brasileiros – quando a gente reflete sobre ele. 

Como isso acontece?

Pelas dedicação nas horas de estúdio, da disciplina, de ter uma intimidade ainda maior com o trio e nessa intimidade perceber que estamos em outro lugar de sonoridade. E essa sonoridade está muito mais sólida quando a gente pensa na unidade do som que sai do trio. Isso está relacionado à capacidade que a gente tem de ouvir o outro e de também de nos ouvir… e na veia musical do jazz, a gente está em constante improvisação. A ideia é que a gente improvise, e essa improvisação reflete com o que a gente está vivendo no dia. Ela vai acontecer com a vivência do dia. Então, ao mesmo tempo que você tem que ter essa atenção ao seu som, também tem que ter atenção ao som do outro. E quanto mais isso é compreendido, mais bela é a unidade sonora de um trabalho coletivo. A criatividade desse processo vem muito pela disciplina, mas para que ela se expanda nós precisamos viver experiências colaborativas, porque a criatividade é colaborativa…está  no olhar de Hugo quando eu trago uma novidade musical, no fato de Jean aceitar fazer frases pianísticas no baixo, e de a gente ir vivenciando isso e levantando questionamentos: “ah e se a gente fizesse assim? E se a gente fosse por esse caminho?”  Quando é colaborativo a gente só tem a ganhar, porque a outra pessoa vai trazer visões de mundo totalmente diferentes da sua. E Sankofa traz muito disso… traz uma visão nossa de girar o mundo. Com certeza, o fato da gente ter girado para fora do Brasil e ter girado muito por aqui, nos dá uma visão muito mais aberta. Tem uma coisa que o Wayne Shorter fala no documentário de Milton Nascimento, que é: “enquanto Donald Trump está preocupado em construir barreiras, Milton Nascimento já estava criando pontes em 1960”. Acho que o disco traz um pouco disso também. O intelectual que curte jazz e sabe da história do jazz vai curtir, mas acho também que quem não entende nada de música vai ouvir e dizer: “pô, que som legal… gostei disso aqui”. Tornar a música acessível aconteceu justamente por entender mais o que eu sou, e eu não sou apenas uma complexidade rítmica. E a apresentação que eu fiz na academia do Montreux Jazz me abriu muito os olhos pra isso.

De que maneira?

Quando chego no Montreux Jazz, eles já estão em quatro dias de laboratório com o Christian Scott. Eu estava em uma turnê na Europa. Saí de Grado (Itália) para Milão, e de Milão fui para Montreux. Lá o produtor perguntou se eu queria descansar, aí eu digo: “não quero descansar não, quero encontrar a galera”. Para chegar, eu passei praticamente uma noite sem dormir. E aí estava faltando 10 minutos para acabar o laboratório… assim que cheguei a produtora disse: “toca um pouco para o Christian Scott”. E aí, eu começo tocar pra ele a música Batucada… ele se impressiona com aquilo. Ele ama o trabalho. Mas no decorrer dos ensaios, Christian seleciona algumas pessoas para ter um momento solo no show, e eu fui um dos selecionados. Aí, ele pede pra eu tocar Batucada novamente, e me diz assim: “pô, Amaro, essa música expressa muito como você sabe abordar o ritmo no piano, como sua técnica é boa, como você consegue tirar um som percussivo do instrumento e tem uma força incrível, porém, durante os nossos ensaios eu percebi que o seu som é lírico, você tem as notas longas, tem as notas suaves, e sabe trabalhar muito bem as harmonias. Aí eu te pergunto: nessa apresentação, você vai ter um único momento só pra você… será que não teria uma música que expressasse mais o quanto esse Amaro é completo, que levasse para outro caminho e te mostrasse por inteiro?” Quando eu escuto isso do Christian, eu quase choro. 

“para que eu possa oferecer um futuro melhor, eu tenho que entender que a responsabilidade do presente é minha, e que um dia eu serei um ancestral de alguém, como os ancestrais que vieram antes de mim”.

Ele meio que te provocou…

Na verdade, mais que uma provocação, foi uma leitura. Ele viu em mim uma coisa que eu não estava vendo, sabe!? Ele trouxe uma coisa (que, puxa bixo), me enxergou mais completo do que eu estava enxergando. Também tem a ver com a oportunidade de fazer uma única música solo… 

E aí?

Aí, eu começo a tocar Luíza do Tom Jobim. Fico pensando em tudo o que ele me falou e também pensando na rítmica, em todo esse Amaro que eu sou. Acho que isso também expandiu minha mente, para entender que o processo do disco poderia ser muito mais plural, poderia ser muito mais expansivo. Eu poderia me encontrar como um todo. Então, ao mesmo tempo que a gente tem Batucada, tem Malakoff e Vila Bela, que são notas longas, e isso não é mais fácil… tocar uma música que é mais simples não quer dizer que estamos tocando uma coisa fácil. Para tirar aquele som de piano, a gente passou um processo também. Quando eu fui tocar no centro cultural de Budapeste (a gente foi a primeira banda brasileira a se apresentar lá), eles tinham um piano que a gente não tem aqui no circuito do Brasil, que é o fazioli. Esse piano tem uma mecânica incrível, uma tecla incrível, um martelo, uma caixa acústica muito incrível. E aí, você tem que tocar 50% a menos da sua força para tirar um som pianíssimo. Quando toquei nesse piano, eu entendi uma coisa que sempre me perguntava, que era o som do Bill Evans, do Oscar Petterson (como é que eles conseguem tirar esse som tão macio do piano?). Então, percebi que os caras tinham uma ferramenta que já proporciona isso pra eles. Quando eu volto ao meu piano, que é maravilhoso e está em ótimo estado, mas é um piano menor (de 2/4), percebo que para tirar aquele mesmo som  teria que tocar um pouquinho mais suave do que 50%. Tenho que tocar uns 10% da minha força, sabe!? E para conseguir chegar nesse resultado sonoro, eu precisei passar mais ou menos 2 meses estudando essa tocabilidade, porque o piano que eu gravo é estridente… mas quando chego nesse resultado de conseguir tirar esse som macio e o meu dedo já está muito suave no piano, a gente aproxima mais os microfones, com isso, o som do martelo e o som do pedal fica mais evidente (os harmônicos)… a entrada de som no pré fica muito mais amplificada, porque em nenhum momento eu vou clipar (por estar tocando sempre baixo). Assim, você tem um som gordo de piano. Aí, você percebe o quanto tirar um som legal, um som bonito com notas longas é tão difícil quanto trabalhar uma polirritmia. 

Hugo, Amaro e Jean | foto: João Vicente

E todas essas experiências te ajudaram a chegar a uma sonoridade que destoa dos outros discos. Também senti bastante esse seu objetivo de falar com todos os públicos, seja para quem ouve jazz constantemente ou para quem ainda não tem familiaridade com  o som. Você consegue se conectar com todo mundo, não só para os especialistas (como muitas pessoas consideram que o jazz seja direcionado). As vivências e observações desses pequenos detalhes, e evidentemente a conversa com o Christian, foram primordiais para dar esse direcionamento a Sankofa, flertando também com rock e elementos do hip hop?

Com certeza. Sankofa é a união de todas essas coisas, de todas essas experiências, de todos esses Amaros, Hugos e Jeans que a gente é. Como você falou: tem rock, tem funk, balada, músicas não rotuláveis, tem samba… mas tudo com muita originalidade, que acontece porque o processo criativo é longo. Faz 3 anos que estou nesse processo de Sankofa, e agora que estamos lançando o disco.

Qual é a história por trás do conceito de Sankofa? Não sei como é no Recife, mas essa simbologia do pássaro com o bico voltado para o peito está gravado na arte dos portões de metais de casas mais antigas, pelo menos em Campinas. Esse símbolo africano está muito presente no nosso dia a dia, mas passa despercebido. Usá-lo também representa resgatar o passado para escrever um outro futuro?

Várias histórias foram chegando pra mim: a do Baquaqua, a experiência de fazer um trabalho com o Milton Nascimento, a história de Vila Bela e Tereza de Benguela… uma das últimas que chegou pra mim, foi sankofa. Na verdade, quando a gente está ali se apresentando no This Is Club, em NY, eu vou no Harlem. Lá, conheci um africano chamado Ali, que trabalha trazendo roupas de Senegal para Nova York. O dinheiro das roupas que ele vende é para sustentar sua família em Senegal. Aí, eu compro uma bata que acho linda. De repente, eu posto uma foto nas redes sociais usando essa bata e um amigo comenta: “cara, que lindo esse símbolo da sankofa”. E percebo que esse era o último sinal para a missão que eu tinha nesse trabalho. Pra mim, esse título abraça toda essa homenagem que eu quero fazer. O disco traz símbolos, traz lugares, traz personagens… e sankofa é um símbolo adinkra que tem a ver com essa retomada da ancestralidade, para que a gente se compreenda melhor agora e possa oferecer um futuro melhor. Mas para que eu possa oferecer um futuro melhor, eu tenho que entender que a responsabilidade do presente é minha, e que um dia eu serei um ancestral de alguém, como os ancestrais que vieram antes de mim. Eu só estou aqui, porque todas essas outras pessoas vieram antes de mim, sabe!? E aí, quando você olha para Milton Nascimento, percebe que Milton é memória, é autoestima para uma população preta brasileira, que é maioria, mas que tem a autoestima lá embaixo porque sempre querem colocar a gente dentro de uma caixinha. Querem determinar qual é o nosso lugar. Então, quando a gente tem a oportunidade de ter um artista como o Milton Nascimento, como o Johnny Alf, como Moacir Santos… é um lugar de potência também para falar desse poder que é a música preta brasileira. Por isso, fiz essa homenagem a Milton por toda a sua obra e por ter vivido essa experiência com ele. A mesma coisa vale pra Baquaqua, que é um príncipe africano que vivia no estado pleno, do que era a vida dele com a sua família e dentro da sociedade em que vivia. Mas chega aqui no Brasil como homem escravizado, em uma outra realidade. A parte que me toca muito é que ele foi escravizado como padeiro, primeiro aqui em Pernambuco, em Olinda… e o meu pai é padeiro, hoje ele tem uma mercearia, mas sustentou a família sendo padeiro. E olha só, o filho de um padeiro e o lugar onde estou chegando com a música brasileira, sendo filho de um padeiro livre. Baquaqua sofria muito na mão do seu senhor, por isso se atirou ao mar, tentando se matar, mas foi resgatado. No meio de todo o sofrimento, é vendido e levado para o Rio de Janeiro. Ali, começa a trabalhar no porto, depois vai para o Sul, volta para o Rio e vai para os Estados Unidos. Lá, os negros desconfiavam que Baquaqua era escravizado e fizeram de tudo para que ele não voltasse para o Brasil. E aí, todos foram presos e a primeira palavra que Baquaqua aprendeu em inglês foi free, que significa livre. Depois de liberto, se alfabetizou e no Canadá escreveu sua autobiografia. Isso é muito importante, porque o livro fala sobre o olhar do homem negro durante o período da escravidão. Mas não fala somente sobre isso. Fala também que somos seres de almas, que os nossos saberes vêm de ventos de muito longe. Quando a gente pensa o africanismo, toda a sabedoria e toda a história de África, a gente percebe que o Brasil não contou a verdadeira história do Brasil. Na minha visão, conhecer essa ancestralidade, potencializar e fazer essas homenagens é justamente trazer esse resgate da beleza de ser negro, de ter black power, de usar as batas, de usar os colares africanos, os torsais. Então, eu queria celebrar, como Ayeye, que significa celebração na linguagem yorubá. Todas essas coisas foram chegando como um turbilhão sobre a ancestralidade. Agora, eu precisava só entender isso, viver isso. A filosofia a partir do olhar ocidental vai falar: “eu penso, logo existo”. Já na filosofia a partir do olhar do africanismo diz: “eu sinto, depois existo”. E isso faz toda a diferença, porque o sentir foi justamente o que eu fiz: procurei dentro do meu ser as notas que eu daria para homenagear cada música dessa. Não estou só pesquisando, também estou me permitindo sentir e através dessa sensibilidade compor e construir cada uma das músicas. 

Você falando de toda essa construção, tijolo a tijolo, e de todo o sentimento que envolve o álbum, fica ainda mais perceptível as narrativas que as músicas fazem, mesmo sem dizer uma única palavra. É muito interessante a forma que você conta essas histórias para resgatar a ancestralidade que todos os dias tentam apagar. Lembram apenas das nossas dores, mas escondem os nossos feitos. Tudo isso é muito bem traduzido nas suas músicas. Conseguir transmitir esses sentimentos através do instrumento é também  resultado dessa busca constante pela perfeição, né!?

Com certeza! É justamente aí, quando eu falo que a ancestralidade está dentro de nós, e que se a gente buscar, vamos encontrar. Por mais que tenham negado nossa história, muitos dos nossos comportamentos estão no nosso DNA. E a gente começa a fazer as coisas sem entender o porquê. Mas estamos se conectando de alguma forma com a nossa ancestralidade, sabe!? Então, quando eu penso em Tereza de Benguela, por exemplo, eu fico querendo dar um abraço nessa mulher e agradecer por tudo que ela fez. Pela forma que cuidou do Quilombo de Vila Bela. E aí, eu fecho os meus olhos e começo a criar essas melodias de notas longas pra fazer essa homenagem a Tereza. Nesse momento quero tocar suave no piano, porque imagino um abraço em Tereza de uma forma muito elegante… sentindo o cheiro dela, o vento, tendo a vista de Vila Bela, sabe!? Cara, não tem como… é ativar realmente a nossa sensibilidade e ir atrás desses sons. A mesma coisa de Baquaqua, que começa com uma nota só: (reproduz o som do piano) TAAAM… TAAAM… TAAAM… Talvez essa nota só simbolize a plenitude que Baquaqua era em seu lugar, com os seus. Mas de repente ele se vê numa condição muito louca, numa travessia chegando em outro país, e aí começa os contra-pontos. Você pensa que a música vem num compasso binário, de repente é um 9 contra 8. E aí, você fica: “caramba que contra-ponto doido”. Então, Baquaqua vai passando por coisas que às vezes são mais lentas, às vezes mais rápidas, e às vezes traz muita pressão. A sonoridade traduz tudo isso, mostrando todas as sensações dele quando vai de Pernambuco para o Rio, começa trabalhar no porto (aí começa ficar um negócio meio 7 contra 8). Indeciso, ele chega nos Estados Unidos… será que ele vai conseguir se libertar ou vai ser trazido de novo para o Brasil? E aí, a música toda está sendo tocada num tom menor, no modo frígio que, pra mim traz uma certa angústia… e de repente, a música fica maior, mais calma. É Baquaqua sendo liberto e começando a viver novamente. Então, chega no ponto que a música está maior, mas ao mesmo tempo começar vir outros contrapontos de 5 contra 2, 5 contra 3, 5 contra 7… porque apesar de Baquaqua ter sido livre, ter escrito sua autobiografia, nós temos uma quantidade enorme de negros morrendo por dia. A gente continua tocando na mesma tecla, e esses contrapontos nos atravessam toda hora. Quem estiver com o coração aberto vai poder sentir, receber e perceber isso. E por mais que eu crie uma história, o que mais me deixa feliz na música instrumental é saber que cada um pode criar sua narrativa. Assim, é bom pensar que Baquaqua vai ser criado na cabeça de cada um a partir de um olhar pessoal.

Veja também
Nenny

Também reflete muito bem esse momento que a gente vive no Brasil. A música meio que serve de trilha para a nossa vida diária. A gente acha que o dia vai ser tranquilo, aí vem uma onda gigantesca que nos carrega. Aí nos levantamos, depois caímos novamente. Seguindo essa lógica de vulnerabilidade, vocês seguiram totalmente a proposta inicial colocada na partitura ou durante as gravações surgiram novas ideias e improvisos que não estavam na pauta?

Não. Todas já estavam programadas. O grande lance é que a música se transforma na hora que a gente toca, porque a gente está falando de um gênero que preza a liberdade. Mas as músicas já estavam selecionadas há muito tempo. Uma ou outra coisa mudou nos últimos meses, mas a mudança é grande quando você pega do início das composições até onde elas chegaram agora. Elas mudaram muito, porque eu entendo que a música é um organismo vivo que vai evoluindo com a gente. Entendo que quando formos fazer os shows, as músicas vão continuar mudando. É um ser que a gente gerou e vai continuar crescendo. A gente tenta chegar maduro no estúdio com a música num lugar que a gente diz assim: “ela já é de maior, e já dá pra responder por si”. Mas é impressionante como a música vai sofrendo alterações ao longo das apresentações e daqui a um ano, se tudo der certo, vai ser a música voltando a ser esse organismo evolutivo. 

Foto: João Vicente

No começo a gente falou do jazz ser considerado uma música intelectual, e até elitista por direcionamento da indústria. Mas vejo que nesses últimos anos no Brasil, ele está  ganhando destaque novamente com músicos pretos, que estão vindo nessa mesma intenção de fazer com que essa música (que sempre foi popular) seja ouvido por todos. Qual sua visão sobre esse renascimento da música instrumental por aqui?

Como esse momento black atual está em evidência, de falar sobre negritude… a gente já teve altas ondas sobre esse assunto, sabe!? Isso também acontece na música instrumental. O surgimento de Hermeto (Pascoal), Sivuca, de Dominguinhos, do Moacir Santos, do Don Salvador, Laércio de Freitas, Tânia Maria… tudo isso gerava uma onda de efervescência da música brasileira. Eu acho que a gente está vivendo de novo essa nova onda agora, talvez não só no Brasil, mas também no mundo. Só que eu acho que a gente está sabendo se posicionar melhor. A gente está trazendo de forma muito séria e bem elaborada as nossas questões com a vontade de transformar a partir do nosso trabalho. E é aquela coisa, isso só é possível quando existe uma coletividade, porque ninguém sozinho vai transformar nada. É também o lugar de potencializar, pois o Brasil tem uma característica muito grande de ter músicos que trabalham na música instrumental, mas não tem esse mesmo estilo como seu lugar de foco. Então, o cara acaba acompanhando cantores e a música instrumental é meio o lugar da diversão. Quando a gente pensa, por exemplo, na nossa metrópole, São Paulo, é um lugar onde tem muitos músicos incríveis, mas eles não conseguem virar nem pelo Brasil nem pelo mundo. Os caras estão tocando só em gigs. E essa é uma realidade… Por esse motivo, o que está acontecendo agora é importante porque os novos artistas em ascensão no jazz estão tendo a visão de focar no seu trabalho, e não de participar de várias gigs. Também precisa flertar com outras coisas: quem são seus parceiros musicais, de ter um bom trabalho audiovisual… Essa profissionalização, e ao mesmo tempo esse outro entendimento sobre o que é essa bandeira na música instrumental, traz um olhar que vai deixar a parada mais sólida. Esse é um bom momento e acho que a minha música se conecta com a diáspora em vários lugares do mundo, quando a gente pensa no que está sendo feito pelo Shabaka (Hutchings), pela Núbia Garcia, pelo Makaya (McCraven), que é da cena de Londres, pelo Kamasi Washington, Robert Glasper, Christian Scott, como também pelo Vijay Iyer, que tem descendência indiana… acho que toda essa galera tem como modelo e centro, o rítmo. E ao ouvir o Vijay, você percebe que o cara tá trabalhando jazz, mas trazendo muito da influência indiana. E ele trabalha tanto essa complexidade dos ritmos indianos, como também o microplanalismo… e é muito legal isso, cara!? O lance é a gente ter a liberdade de fazer todas as versões que nós somos, e isso vai estar no trabalho de Shai Maestro, que tem descendência israelita. Está no trabalho do Sabaka, que fica insistindo naquele mantra de uma nota só no sax (duas ou três no máximo). O meu trabalho está muito conectado com essa energia da diáspora que está rolando no mundo. E eu acredito que esse é um momento de retomada, porque o jazz vem deste lugar e esse é o momento de retomar o jazz para suas origens. 

É interessante você citar esses artistas, pois cada um tem uma essência diferente, mas todos se conectam na diáspora africana. Esse tipo de som moderno, que funde o jazz com gêneros urbanos, também chama atenção da juventude que não conhece os jazzistas clássicos, como Louis Armstrong e Miles. É um caminho para conhecê-los através de vocês….

… até fiz um post um dia desses falando sobre o que é pop, né!? Porque, cara, tem uma playist chamada Pop Brasil… e a gente sabe que o povo brasileiro ouve muito e assiste muito vídeo. Por isso, os artistas brasileiros que são considerados pop têm milhões de views no Youtube e plays no Spotify. E a minha música Vila Bela entrou numa playlist chamada Coffee Table, e ela tem 2 milhões e 300 mil seguidores. E quando você vê a playlist do pop brasileiro, por exemplo, a gente tem 2 milhões duzentos e pouco. É claro que a de jazz é internacional, mas fazendo esse comparativo, o jazz está sendo mais pop. E Rasif acabou de completar mais de 1 milhão de plays no Spotify. Vila Bela em 4 dias já estava com 50 mil plays. Então, acho que a gente tem uma indústria que, de certa forma, veda os nossos olhos… não falando com clareza o que as pessoas consomem. Teve um amigo meu que falou assim: “pop pra mim é tudo aquilo que o povo gosta sem a influência do jabá” (prática de pagar para promover determinadas músicas em rádios, TVs e playlists). Assim, a gente vai ter a mídia falando sobre um tipo específico de música, que de alguma forma vai causar uma alienação na população… mas na verdade as pessoas estão escutando jazz, estão se conectando com o nosso som. E tem gente que conhece pra caramba o som de outras pessoas e de diversos lugares. Me lembro quando coloquei o vinil de Sangue Negro pra vender aqui em Recife, de todo lugar veio gente comprar o disco. Tem o cara que é da zona sul classe média que comprou, mas o cara lá da periferia também comprou… a gente não tem noção do quanto esse gênero musical é ouvido no nosso país, justamente porque não tem um trabalho midiático em cima disso. Mas é uma música que vem sendo muito consumida. 

Quanto tempo você dedica de estudo no piano para desenvolver suas composições?

Geralmente eu tento manter uma rotina de 8 horas de estudo, quatro vezes por semana. Tem sido muito complicado nesse momento de pandemia. Hoje eu vou pegar aqui de 11 horas e vou ver seu chego até 4 da tarde (conta as horas)… 5 horas de estudo, mas a minha ideia é manter uma rotina real de 8 horas por dia. Enquanto eu não consigo, até pela correria por causa do disco, vou 5 um dia, 6 o outro, 4, 3… e vou fazendo. Porque é isso: o piano é a extensão da minha alma, né velho!? Pra eu poder falar pra você como eu falo com notas, eu preciso que o meu dedo esteja em contato com as teclas para que eu seja sempre um artista de alta performance… e quando eu queira falar, posso falar porque tá tudo certo com a parte técnica e com a parte de sensibilidade mesmo, de conhecer esse instrumento.

Cara, muito obrigado por essa aula e por nos inspirar. Sempre é bom conversar com você e aprender. Sucesso nessa caminhada!

Pô, meu magão, eu fico muito feliz de poder estar aqui com você compartilhando um pouquinho dessas ideias, também. Feliz demais pelo momento deste trabalho. É muito bom ver mais um filho chegando ao mundo e feliz demais de estar conectado com você, um preto escritor. Isso pra mim é maravilhoso… acho que a gente vai ganhar, justamente pela quantidade de pessoas intelectuais que vem se formando no Brasil, quando a gente pensa na Professora Katiúscia Ribeiro, a Carla Akotirene, Djamila Ribeiro, no Silvio Almeida, Conceição Evaristo… quanto mais a gente ocupa esse lugar de intelectualidade, mais a gente vai ganhar. Eu fico muito feliz por esse momento. Que o seu trabalho continue reverberando e que a gente se encontre outras vezes pra falar de música e de coisas boas, meu irmão.

Ver comentários (0)

Deixe uma resposta

Seu email não será publicado.


© 2021 POTÊNCIA CULTURAL. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.