O que esperar de Marcelo D2?

Postado por 04/04/2017

A vida é feita de altos e baixos. A vida artística então é feita de mais baixos do que altos. Fama, dinheiro, arte, negócios, família, falsos e verdadeiros amigos… são tantos os fatores que envolvem a vida de um artista que é preciso ter cabeça e principalmente equilíbrio para sobreviver nessa selva. Se existe algum segredo para se manter relevante, respeitado e continuar tendo um verdadeiro protagonismo artístico, pode perguntar pro D2.

Faça um breve resumo da carreira do Marcelo D2 na sua cabeça e repare por quantas vertentes ele transitou e conseguiu respeito. Foi inovador ao criar uma banda de Punk Rock brasileira que possuía elementos fortes do hip hop, montou coletivos com novos e grandes MCs da década de 90, lançou um CD clássico com vertentes de samba dando uma nova visão para sua carreira e depois disso, manteve a qualidade em todos os trabalhos que lançou. Isso sem contar no respeito e admiração que adquiriu em todas essas vertentes – sem pagar pau pra ninguém – que o colocam como o artista mais genuíno desse país. Podemos tranquilamente comparar a sua trajetória musical com qualquer outro grande nome da MPB. Gil, Djavan e Caetano assumiram tantas vertentes, beberam de tantas fontes musicais ao longo dos anos que é praticamente impossível enquadrá-los em alguma vertente. E artisticamente isso é muito bonito.

O que a maioria das pessoas não entendem é que a MPB é abrangente. No sentido literal da sigla, Música Popular Brasileira reflete o que é popular. E por que o Rap, o Funk ou o Pagode não podem se enquadrar nessa nomenclatura? Ainda sinto um saudosismo exacerbado sobre “o que era a MPB” e uma forçação de barra com os artistas da “nova MPB”. Será realmente que esses artistas são realmente populares com o seu viés cult/zona sul/puc e será que esses artistas serão tão relevantes como um BK, por exemplo? Qual é exatamente o medo e receio com a palavra “popular”? Porque tudo o que se torna “popular” tende a ser taxado como ruim ou de baixa qualidade? Isso me dá a clara visão de um preconceito burro, de uma segregação musical estúpida. Me faz reparar que é sempre colocado uma barreira entre artistas populares dos anos 70/80 e os artistas da nova geração. Cada um tem a sua linguagem, cada um vive o seu tempo. É preciso ter sagacidade e perfeita compreensão da atualidade, sem nunca esquecer o passado para que os dois lados dialoguem. E é exatamente isso o que D2 faz.

Inovação. É isso que podemos esperar do D2. Nunca imagine que ele ficará numa possível zona de conforto fazendo o que o seu público espera. Quem é fã do D2 nunca pode esperar nada. Não espere mesmice de um artista verdadeiro. Deixe o artista ser artista. Essa semana ele lançou o primeiro clipe do seu décimo disco, trazendo nele integrantes da Piramide Perdida e vários outros jovens artistas da cena underground carioca. Numa entrevista bem maneira que ele e o fotógrafo do ihateflash e diretor do clipe “Resistência Cultural”, Wilmore Oliveira deram pra Noisey (http://migre.me/wnb6b), D2 explica melhor o processo de criação de todo trabalho audiovisual que ele vai lançar. O mais foda é ler as palavras de um artista consagrado dizendo que “quer fazer uma coisa bonita esse ano” o que deixa claro a sua vontade constante de sempre trazer algo verdadeiro, algo que seja realmente dele.

D2 vai lançar o seu décimo disco no dia do seu aniversário de 50 anos. Isso mesmo, 50 anos. Enquanto uma grande parte dos novos rappers brasileiros ainda não descobriram a real musicalidade do Rap nacional e ainda tentam referenciar (leia-se copiar) o Rap americano, D2 se mantém no trono com a sua cabeça aberta pro futuro sem nunca se esquecer do passado, nos ensinando sempre como a arte pode ser livre e abrangente.

Imagem: I Hate Flash/Rolling Stone

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