O avanço do coronavírus no continente africano e os possíveis desdobramentos econômicos

Apesar de se terem passado pouco mais de 4 meses o ano de 2020 ficará para sempre marcado na memória, infelizmente, como um dos momentos mais preocupantes da história da humanidade. O COVID 19, popularmente conhecido por coronavírus tem feito milhares de vítimas ao redor do mundo, segundo dados da OMS até ao dia 05/05/2020 foram contabilizados cerca de 3.646.206 infectados sendo que apenas cerca de 32% desses foram considerados curados e mais de 255.447 pessoas morreram por causa da doença.No continente africano até a mesma data apenas 1 dos 54 países do continente (Lesotho) não havia relatado casos positivos para o coronavírus, mais de 32.000 pessoas foram diagnosticadas com o COVID 19, estando entre os principais afetados países como: África do Sul, Argélia, Gana e Nigéria com mais de 13.659 infectados, 1112 é o número de mortes registradas desde 14 de Fevereiro de 2020, data do primeiro diagnóstico positivo para a doença no continente até 5 de Maio. Alguns especialistas apontam que os baixos números notificados no continente se devem ao baixo nível de testagem, porém, vários líderes do continente negam tal hipótese afirmando que os estragos causados pela doença são inocultáveis. 

Com o avanço da pandemia no continente africano vários governos têm tomado medidas para conter a propagação da doença, medidas estas que vão desde simples recomendações técnicas da Organização Mundial da Saúde, encerramento de fronteiras, cancelamento de voos internacionais e até mesmo o isolamento social, mas, de que forma estas medidas afetam a vida dos africanos de modo geral ? O continente africano é um mar de complexidades, 54 países, mais de 2000 idiomas oficiais e uma enorme variedade de grupos étnicos tornam difícil a tarefa de analisar o africano com um ser único e com as mesmas vivências, porém, economicamente muitos países africanos partilham de um passado similar, bastante sombrio, e têm consequentemente desdobramentos parecidos neste quesito. Na maioria de seus países, a economia é pautada na exploração de recursos naturais como: petróleo, gás natural, diamantes e outros minérios preciosos, setores como o da indústria e turismo costumam ser pouco desenvolvidos, grande parte da agricultura praticada é de subsistência, o setor de importação é bem ativo e representa uma boa fatia do bolo do PIB, boa parte da circulação de bens e serviços nestas economias é feita em mercados informais, onde inúmeros postos de trabalhos são criados e vários agentes económicos desenvolvem atividades que lhes garantem o seu sustento e de suas famílias. 

No mundo inteiro as medidas para contenção da proliferação do vírus resultaram numa redução considerável da atividade econômica, afetando a cadeia de suprimentos e a demanda por bens e serviços, fábricas, lojas e mercados foram diretamente afetados e as soluções para os problemas que advém desta situação ganham formatos diferentes em variados contextos e mais perguntas vão surgindo. 

O isolamento social imposto pela quarentena propõe a não circulação e aglomeração de pessoas em espaços públicos, como lidar com isso em economias em que grande parte da circulação de bens é feita em mercados informais que carecem de um grande fluxo de pessoas? 

Para evitar o aumento de casos de COVID-19 muitos países fecharam as fronteiras, como as economias que importam grande parte dos seus bens de consumo devem proceder mediante esta situação? 

Como a população mais carente e não contemplada por programas do governo sobreviverá a esta pandemia? 

As respostas das perguntas acima são bastantes desafiantes para os africanos, porém, a vasta experiência dos africanos com o controle de pandemias, epidemias e endemias parece ser uma grande aliada dos africanos nesta hora, facto que é justificado pela lenta proliferação do vírus no continente, vários países africanos se apercebendo da situação alarmante que assolava a China tomaram várias medidas de precaução, diferente de países europeus como a Itália e Espanha. 

Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento vários países do continente africano correm o risco de entrar em recessão por causa do Coronavírus, segunda a estimativa do BAD no melhor cenário a Covid-19 pode custar cerca de 22 mil milhões de dólares norte-americanos aos africanos ao passo que na pior estimativa este valor pode chegar aos 88 mil milhões de dólares norte-americanos, ou seja, isto é equivalente a uma contração do crescimento do PIB entre 0,7 e 2,8 pontos percentuais em 2020. Medidas como o adiamento de prazos de pagamentos de dívidas externas e mudança dos perfis de empréstimos devem, segundo o BAD, ser eficazes para suavizar o choque econômico causado pelo Covid-19. 

Analisando as característica econômicas similares na maioria dos países africanos, e o aumento do estoque da dívida pública, principalmente em moeda estrangeira que vários países africanos têm registrado, o não crescimento econômico é a pior realidade possível para os africanos e pode comprometer ainda mais a situação de vários países do continente, gerando uma estagnação ou até mesmo recessão econômica. Consequências como o aumento significativo da pobreza e piora na distribuição de renda podem ser vividas de forma impactante no pior cenário possível. Basta imaginarmos, simplesmente que por conta do isolamento social vários mercados e postos de trabalhos informais acabam sendo paralisados, dificultando assim a obtenção de renda de milhares de africanos. Programas de distribuição de renda emergencial para famílias mais favorecidas podem ser eficazes a curto prazo, pois, a redução da produção e do abastecimento de bens de consumo básicos será sentida a longo prazo, podendo gerar uma crise inflacionária. Muito se fala de possíveis recessões e colapsos econômicos no mundo, com o passar do tempo e com aumento do número de vítimas do Covid-19 estas realidades parecem cada vez mais próximas e para se evitar tais situações grandes medidas devem ser tomadas, principalmente aquelas que salvaguardam a vida humana, encontrar o equilíbrio entre as medidas econômicas de estabilização do choque causado pela doença e as medidas de prevenção da doença é o principal objetivo a ser alcançado mundialmente neste período de surto da surto, o continente africano certamente se servirá da sua vasta experiência e obterá bons resultados na luta contra o covid-19.

Esse artigo foi escrito pelo DJ, economista e angolano Joss Dee

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