Ensaio sobre Miles Davis

“Miles não partiu de nenhum outro som para desenvolver o seu. Ele não podia ancorar suas ideias nas antigas possibilidades”. As palavras de Gil Evans refletem a visão futurística de Miles Davis. O arranjador foi responsável por estruturar a sonoridade orquestral das ideias do trompetista, desde as primeiras apresentações da Miles Davis Capitol Band em 1948. Também saxofonista, Evans acompanhou de perto a inquietação daquele que, por diversas vezes, transformou a música, tendo o jazz como ponto de partida. 

Olhar para trás não era algo que Miles gostava de fazer. “Se algum dia tiver de olhar para trás, eu morro”, ressaltava ele. Obviamente, se inspirou nos mestres que vieram antes, principalmente Charlie “Bird” Parker e Dizzy Gillespie (os quais teve a oportunidade de tocar pela primeira vez como convidado, aos 18 anos, no conjunto de Bill Eckstine). Porém, não criava seus temas com base no que eles tinham feito. Queria sempre o máximo de autenticidade, excelência e modernização. Estava comprometido com a mudança, e para atingir o nível desejado, escolhia muito bem seus companheiros.

Isso ficou evidente quando substituiu Dizzy na banda de Bird em 1947. As desavenças no quinteto de um dos músicos que mais admirava o fizeram seguir o próprio caminho. “Devoto” de Evans, que o acompanhou até 1988 (quando este veio a falecer), Davis tinha um time de arranjadores complementado por Joh Lewis e Gerry Mulligan. Na banda que ajudou a construir as bases do icônico álbum “Birth of the Cool” estava Kai Winding, que à vezes revezava com Jay Jay Johnson no trombone, o próprio Mulligan (sax barítono), Lee Konitz (sax alto), Lewis ou Al Haig (piano), Bill Barber (tuba), Junior Collins (trompa de pistão) e na bateria, Max Roach ou Kenny Clarke.  

Inicialmente, o noneto foi escalado para um período de apresentações no Royal Roost Club em Nova York. Pelo contrato que tinha com a Capitol Records, teve que entrar em estúdio para gravar, entre 1949 a 1950, oito singles para a série “Classics In Jazz”, publicada no vinil de 10 polegadas em 1953. Para fazer esse trabalho específico, reformulou o time. Nem todos que estiveram na primeira formação, marcaram presença nas seções. Mais tarde, em 1957, outros quatro temas foram adicionados (que inclui um com o vocal de Kenny Hagood, ex-vocalista de Dizzy) para a estreia oficial do disco que daria vida ao cool jazz, uma evolução (ou desaceleração) do bebop, e das diversas transformações que Miles faria na sequência ao lado de Paul Chambers, Art Taylor, Ron Carter, Red Garland , Philly Joe Jones, Tony Williams, Herbie Hancock, Chick Corea,Wayne Shorter, Marcus Miller, Quincy Jones, John Coltrane. 

Apesar de avançada, a música de Davis ainda era apreciada apenas por um grupo restrito de ouvintes e críticos – uma parte o via como revolucionário, já outros o hostilizava por destoar do jazz tradicional. As percepções e alcance da obra dele mudaram após uma apresentação no Newport Jazz Festival de 1955, que o mesmo se convidou para fazer seu retorno, após quase dois anos de reclusão na fazenda do pai, em St. Louis, para tratar do vício de heroína (que se afundou logo depois de voltar de uma viagem pela França, onde experimentou uma realidade diferente da estadunidense. No seu país natal, sentiu o baque do racismo e se afundou). A apresentação minimalista de 23 minutos virou todas as chaves da vida do artista e, consequentemente, os holofotes nunca mais pararam de o iluminar. A forma limpa que ele toca o trompete com surdina, bem próxima ao microfone, se tornou referência para seus contemporâneos e os que viriam depois. 

“Nenhum outro músico íntimo do jazz soube transformar tão bem a simplicidade em refinamento e sofisticação quanto Miles. A contradição entre simplicidade e complexidade cessava em sua execução. Miles Davis fez da    relação consciente com sons e pausas uma arte”, analisa Joachim-Ernst Berendt n’O Livro do Jazz’.

A percepção do jornalista, crítico e especialista alemão pode ser observada com mais clareza no clássico dos clássicos “Kind Of Blue” (1959). No disco, ele não só reinventa a forma de fazer jazz, evidenciando ainda mais o jazz modal empregando em ”Milestones”, de 1958 (na época, essa forma não acompanhava os padrões do bebop e hardbop, pois simplificava a estrutura harmônica, dando mais liberdade para que os improvisadores se alongassem na melodia), como muda os direcionamentos da música como um todo. A inovação foi imediatamente reconhecida e celebrada pela crítica e público. Não por acaso, recebeu 5 de 5 estrelas da revista especializada Downbeat: “Este é um álbum notável. Usando dispositivos muito simples, mas eficazes, Miles construiu um álbum de extrema beleza e sensibilidade”, dizia a nota. “Isso não quer dizer que este LP seja simples – longe disso. O que é notável é que os homens fizeram muito com o material esquelético austero.”

Para chegar a esse resultado, Miles Davis novamente teve a companhia de visionários que abraçaram as ideias dele: o pianista Bill Evans, também co-compositor de “Blue in Green” e “Flamenco Sketches”, os saxofonistas John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. Esses notáveis atingiram um nível de excelência que provocou mudanças significativas. Estavam muito à frente do que naquele momento se considerava vanguardista. 

Mestre e aprendiz

Depois que fez uma ponta com Bird e Gillespie pela primeira vez, Miles partiu para Nova York em 1944. Incentivado pelo pai, foi estudar música clássica no Institute of Musical Arts, que se tornou a Juilliard School Of Music. Depois dos estudos  de teoria musical e piano – e até durante o horário de aula – ia até o Harlem para procurar Charlie Parker nas boates Minton’s Playhouse, Lorraine’s,  Smalls Paradise, e também no “The Street”, na badalada 52nd Street. Depois que encontrou seus professores, desistiu da Juilliard após três semestres para se dedicar integralmente às apresentações. Ele absorvia, e refinava o jazz à sua maneira. Gostava de explorar, porém a liberdade nem sempre atingia a plenitude. Tinha seus métodos. Porém, aceitava opiniões, principalmente as de Gil Evans. 

A formação “erudita” também o ajudou no desenvolvimento dos temas, improvisações e aprimoramento nas técnicas do trompete, mesmo assim criticou a renomada escola pelo repertório majoritariamente europeu – nas palavras dele: branco. Assim, os estúdios de gravação e os palcos se transformavam em salas de aulas. Nesses ambientes, Miles Davis incentivava os seus companheiros a compartilharem as ideias na prática. Raramente haviam ensaios. Na hora do improviso, cada um fazia o que viesse na mente, e o erro servia de aprendizado no processo de criação (algo que a grande maioria dos jazzistas não consideravam0. Assim, ensinava os mais novos, e na mesma escala aprendia com eles, estando sempre aberto a novas possibilidades. 

A troca de experiências com os parceiros, em especial os mais jovens, foi primordial para as constantes transformação que Miles estava disposto a vivenciar até o fim da vida. Isso, somado às suas observações do que acontecia musicalmente em paralelo ao jazz. Um dos grandes exemplos é “Sketches of Spain”, produzido pelo Teo Macero e novamente orquestrado por Gil Evans. A ópera de 1959/60 tem influências do flamenco e de composições espanholas (conhecidas durante um jantar na Espanha que Davis não queria participar, mas foi convencido pela então esposa Frances Taylor). Mesmo ousado, este se tornou apenas mais um disco na infindável lista de transições proporcionadas.

De uma realidade diferente dos seus antecessores e até companheiros que partiram antes dos 40 anos, por consequências da droga, álcool e depressão, ele vivenciou intensamente as diferentes fases do jazz – algumas delas iniciadas pelo próprio. Passou do bebop para o cool, enveredou pelo jazz-rock, fusion, electric jazz, e se aproximou do funk e do rap. Mudou a forma de tocar trompete, o amplificando eletricamente com o uso de um pedal wah-wah. Como efeito, recebeu críticas por toda essa excentricidade, nem o estilo descolado (e muito colorido) de se vestir ficou isento. Apesar de rebater, ele pouco ligava para o que os outros pensavam sobre sua arte. 

Cada vez mais decidido em levar a música para outro patamar, Davis seguiu experimentando. Assim, fez o alucinante “Bitches Brew”, em 1970, unindo o jazz ao rock. “O mundo do jazz subitamente percebeu que esse álbum assinalava um momento decisivo, inaugurava uma nova fase da história do jazz”, escreveu o musicólogo Karl Lippegaus no artigo publicado no livro “História do Jazz”. Depois do rock, Miles colocou o suingue de James Brown, Aretha Franklin e Sly & The Family Stone nos envolventes “On The Corner” (1972), “We Want Miles”(1982) e “Tutu” (1986). O último, teve a produção assinada pelo baixista Marcus Miller, que anos antes substituiu Ron Carter anos quando Miles optou por usar o contra-baixo elétrico no lugar do acústico. 

No ano de 1992, o álbum póstumo “Doo Bop” chegou às lojas. Dessa vez, os beats e sintetizadores faziam parte da arquitetura, tendo o produtor Easy Mo Bee como um dos responsáveis pela textura representativa dos anos 90. Essa parceria fechou o ciclo de experimentações e mostrou o quão Miles Davis tinha versatilidade para se adaptar a todo e qualquer gênero musical.

“Ele é um cara que volta sua mente para certas áreas da música ou certas pessoas e decide que há alguém ou algo ou uma área da música com a qual ele pode aprender, e então ele vai e faz. Ele é muito astuto nesse sentido. E, certamente, um de seus maiores talentos como líder e como uma pessoa é conseguir perceber o talento e o potencial das pessoas, o que é comprovado por todos os maravilhosos talentos que passaram por seu grupo. E eu não acho que teríamos Coltrane ou conhecido o potencial de Coltrane ou as grandes contribuições que ele fez, exceto por Miles e a crença dele em seu potencial”, disse Bill Evans em entrevista a Bill Goldberg e Eddie Karp em 1979.

Gênio controverso

Quatro meses antes da ascensão definitiva de Miles, o saxofonista Charlie Parker faleceu aos 34 anos por um ataque cardíaco. Ele tinha uma doença crônica no coração, que foi agravada pelo excesso de álcool e drogas, principalmente heroína, usados (segundo Bird) para aliviar a dor. Quase que Miles Davis segue o mesmo caminho. Felizmente, conseguiu se recuperar a tempo. Obviamente, estava bem longe da perfeição (assim como a maioria dos seres humanos). 

De voz “assombrosa”, por consequência de um nódulo retirado da laringe em 1956, o gênio era amargo, antissocial, rebelde, frio e às vezes violento, sendo  algumas vezes acusado de violência doméstica, inclusive pelas ex-esposas Frances Taylor Davis e Betty Davis. Sua relação com os brancos também estava entre as polêmicas. Por não tolerar a discriminação contra a população afro-americana, comprou diversas brigas. Foi até acusado de não gostar do público (majoritariamente branco), pelo jeito que tocava, muitas vezes de costas. O caso mais emblemático foi a discussão com um policial que o agrediu por (ser negro) fumar um cigarro na frente do Birdlland, na Broadway, onde estava com show em cartaz com sua foto em destaque.

O “difícil” Miles Davis também entrou em colisão com outros gigantes do jazz. Nas gravações de Miles Davis and The Modern Jazz Giants teve uma desavença com Thelonious Monk. Diz a lenda que ambos chegaram a ter lutar corporal e até ameaçam sacar os estiletes. O principal motivo era que o trompetista não queria que o pianista tocasse atrás dele por questões de ego. Miles vivia seu melhor momento e Monk ia cada vez mais ficando para trás. O jogo tinha virado. Pouco tempo antes, Miles foi “aluno” de piano de Thelonious. Outros que viraram alvo foram Eric Dolphy, Winton Marsalis e Jimmy Hendrix (este por ciúmes de Betty).

Em certo ponto, esses posicionamentos, e algumas atitudes, criaram uma imagem pessoal negativa. O trato com a imprensa, “especialistas” e até com seus admiradores só começou a mudar depois de uma pausa forçada, que teve de fazer em 1972 por conta de um acidente automobilístico. Amante de carros velozes, como Ferraris, ele dificilmente andava em baixa velocidade. Fraturou os dois tornozelos, e “desapareceu”. Quando retornou, os estilos da black music estavam fazendo sua cabeça, e imediatamente foram incorporados ao seu som.

Legado

“Para mim, não importa quem compra meus álbuns, desde que eles cheguem aos negros, e desse modo, eles possam lembrar de mim quando eu estiver morto. Eu não toco para pessoas brancas, cara. Eu quero ouvir um negro dizer: Sim, eu gosto de Miles Davis”, disse a Michael Watts na entrevista publicada na revista inglesa Melody Maker em 1973.

Aos 65 anos, Davis faleceu no dia 28 de setembro de 1991 por causa de um AVC. Doze semanas antes de morrer, ele fez duas apresentações relembrando grandes sucessos da carreira. Talvez sabia que sua hora estava próxima. Então, decidiu pela “primeira” e última vez revisitar o passado. Um desses concertos foi realizado no Festival Jazz Montreux, na Suíça. O amigo Quincy Jones foi quem o convenceu a fazê-lo. Porém, como é possível observar o registro da performance, Miles Davis não estava nos seus melhores dias. Escolheu a posição de coadjuvante, passando o bastão para o trompetista Wallace Roney.

A façanha de Davis não estava só em mudar os direcionamentos musicais. Alguns dos mais importantes importantes jazzistas ganharam visibilidade através dos grupos de Davis. Esse é o caso de Herbie Hancock, Chick Corea, do brasileiro Airto Moreira, Keith Jarret, John McLaughlin, e os já citados Shorter, Coltrane, Miller. “Os músicos de Davis sempre confirmaram que somente através dele é que se conseguia alcançar a própria identidade nessa nova música e que ele consolidava as tendências individuais de cada um”, observa Lippegaus. 

Assim como sempre desejou, a música de Miles Davis influenciou, influencia e continuará influenciando gerações. Não ficou parada no tempo porque o autor vislumbrava o futuro. É por isso, que ainda hoje a “voz” dele – interpretada pelo som do trompete – continua ressoando.

* Material de pesquisa

História do Jazz – Joachim-Ernst Berendt

O Livro do Jazz – Berendt & Huesmann

New Jazz de volta para o futuro – Roberto Muggiati

Jazz, das raízes ao rock – Lilian Erlich

Kind Of Blue – Miles Davis e o álbum que inventou a música moderna – Richard Williams 

Música Com Z – Zuza Homem de Mello

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