Da HBO pro corre real, Julianna Gerais fala sobre oportunidades no mercado audiovisual

“No mercado, estamos sempre em busca de um espaço que alguns já tem como herança. Para outros, custa o triplo… quando se pode pagar”. A fala é de Julianna Gerais, que reflete sobre a busca de oportunidades na indústria do audiovisual.

Eu arrisco dizer que você ainda vai ouvir muito sobre ela. Talvez você não reconheça o nome, mas já tenha esbarrado com sua imagem por aí. Em Tdxs Nós, dramédia recente da HBO, que não perde em nada para as séries americanas em termos gerais, Julianna interpreta Maia.

A atriz sente falta do palco, mas na tela, o seu trabalho ressalta. É quase impossível discordar de que a equipe de casting acertou em cheio na escolha da atriz que interpretaria a personagem feminista, preta, jovem, vegana, militante e maravilhosa.

Tudo muito legal, militudo e profundo, mas não é só isso. Julianna também não é só isso. É grata pela oportunidade conquistada, mas não esconde suas críticas quanto à máquina operante. A brutalidade do cenário dramatúrgico brasileiro com relação às oportunidades para negras e negros ainda é cruel. Aquele papo de que “ah, mas agora eu vejo vários atores e atrizes negras nas novelas” é um clássico chavão de quem não quer ou não consegue enxergar a discrepância dos índices. Sem falar no estereotipamento.

“O tempo todo vivo situações opressoras por ser mulher e por ser negra. É uma sociedade que o tempo todo tenta me silenciar, me embranquecer e eu fui me acomodando nisso”, conta ela. “Durante o processo de preparação para viver Maia, enxerguei ainda melhor as sutilezas no racismo e ganhei mais ferramentas para responder quando essa violência acontece”.

Não ouse comparar a jornada dos jovens profissionais da atuação no mercado como se pretos e brancos tivessem o mesmo grau de oportunidade. Dê uma olhada nos filmes e novelas e você não precisará de mais de uma mão para contar a presença de personagens negros. Problematizar as camadas desses personagens e investigar suas desculpas “cotistas” soa quase como crime, quando estar presente já é um milagre.

Assim como a maioria dos atores negros iniciantes, Julianna mal começou sua jornada por espaço e já sente o cansaço na pele. Literalmente. A energia da juventude não é o suficiente quando se está em busca de um espaço que te custa muito mais do que para um colega claramente privilegiado.

“Temos um longuíssimo caminho a percorrer em relação a oportunidades para negros e negras”, afirma ela. “Quem consegue ter acesso às oportunidades? Pra quem são? A quem essa informação alcança? Quando alcança, como é a receptividade a esses corpos?”, questiona.

Poucos atores nacionais jovens podem falar da experiência de participar de um projeto tão grande no streaming, sobretudo negros. Para Juliana não se trata apenas de um casting, mas da estrutura como um todo. 

“É preciso repensar nos roteiros, quais papéis têm sido escritos, quais histórias têm sido contadas. É preciso que se pare de só escalar atrizes negras quando ao lado da descrição das personagens está “atriz negra”, pois muito provavelmente, quando não há essa indicação (e muitas vezes não há), chamarão uma atriz branca, pois o corpo branco é o corpo universal, o ‘normal’, o corpo que estamos acostumados a ver desde sempre no audiovisual”, reflete ela, sabiamente. “É preciso também que personagens negras não sejam monotemáticas, não falem apenas sobre negritude e somente passem por situações de racismo e injustiça, pois isso limita. É preciso criar outros imaginários quando se conta histórias de corpos pretos. Não somente escancarar o sofrimento e dificuldades daquela personagem, mas começarmos a contar as alegrias, os gozos, os amores… E, mais do que criar oportunidade para atrizes negras, é preciso criar oportunidade para pessoas pretas em geral nos ambientes de trabalho. Ainda somos carentes de roteiristas e diretoras negras. Me sinto frustrada quando penso que dentre os meus trabalhos no audiovisual, ainda não fui dirigida por alguém preto”, reflete ela.

Juliana começou a flertar com a atuação na adolescência. O interesse levou-a para a leitura de autores e pensadores de teatro, depois para documentários, cinema e então a faculdade de Artes Cênicas.

“Eu enxergo o teatro e a arte como uma possibilidade de transformação pessoal, social e politica. Mesmo dentro de Artes Cênicas, me imaginava tendo uma carreira mais acadêmica e mais focada no teatro. Foi depois que entrei na EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP) que, por diversas coincidências e oportunidades, o cinema apareceu na minha vida e ali me descobri”.

Seu primeiro trabalho profissional surgiu em 2018, no longa “Selvagem”. Com estreia prevista para 2020, o filme se passa numa ocupação escolar em São Paulo, com roteiro inspirado nos movimentos secundaristas de 2016. Depois disso, e antes de “Todxs Nós”, ela atuou no longa “Dentes”, também previsto para 2020.

O futuro do mercado audiovisual no país nunca foi tão sombrio e questionável. Com o resultado das últimas eleições presidenciais, o Governo decidiu por bater a porta na cara da diversidade de projetos e profissionais. Depois disso, a crise pandêmica. É difícil mensurar o que pode acontecer no futuro de quem depende desse mercado para sobreviver.

“Depois do covid-19, precisaremos entender como e quem conseguiu sobreviver. Como dizer isso dói e é cruel!”, analisa Julianna. “Será preciso repensar prioridades e, numa tentativa de exercitar a esperança, acho que pode ser oportunidade para repensar a cultura, o mercado, acesso e oportunidades”.

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Sim, meninas e meninos! Arregacem as mangas também porque o futuro de Julianna envolve ditadura. Mas calma, essa é só a temática de seu próximo trabalho. É que ela participará do próximo longa de Vera Egito, “Os Estudantes”, que abordará confrontos estudantis e a batalha de uma estudante no período de ditadura militar no Brasil.

 

O projeto foi temporariamente interrompido, mas logo voltará. Essa promessa não é exclusiva de Julianna, tampouco minha. Eu não sei se alguém pode prometer um futuro melhor. Talvez ainda possamos vibrar com positividade e encontrar as melhores maneiras para sobrevivermos a todo esse caos social, econômico e político.

 

No mais, se você precisar sentar no sofá e parar pra respirar (e se tiver como a acessar a HBO), espero que esteja passando Tdxs Nós. A série começa bastante didática e, por mais que isso possa irritar um pouco, é só no primeiro momento. Para depois, você terá boas doses de humor, dramas atuais, e boas doses de Julianna Gerais. Recomendo.

 

Coluna semanal de Stefano Volp
#CINEVOLP

Fotos de Fabio Audi

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