Coração de mulher bate forte na buceta

Se tem uma coisa que me deixa seriamente constrangida é em pleno 2019 viralizar uns memes esquisitos mostrando homens de avental deixando a pia limpa, como se fosse o santo graal do tesão feminino. Ou que frases como “quem gosta de pau é adolescente, mulher gosta de homem que lava a louça!” sejam algum tipo de piada para pessoas inteligentes e politicamente corretas. Papo reto: teu cu.

Pra início de conversa: cozinhar, manter a organização e todas essas porras é o mínimo necessário para qualquer ser humano que queira se definir como adulta e independente. Ou você pode ter bastante dinheiro para investir em contratar um profissional da área de limpeza. O que por um lado é bom, porque evita a fadiga de uma faxina bem dada, mas por outro te mantém no lugar de pessoa meio incompetente, porque saber lavar louça e varrer chão é fundamental à evolução social humana.

Nós estamos aí, cara, lutando, sabe. As mulheres estão estudando, se estudando, se descobrindo. Hoje a gente tá manjando tudo de buceta, a gente já sabe que o clitóris tem mais de 6 cm; que são mais de 8.000 terminações nervosas; que existe uma rede neural pélvica que conecta as terminações nervosas da xereca com outras partes do seu corpo; que orgasmo múltiplo se treina; que rebolar ajuda o bom funcionamento do bioma da safadeza ancestral; a gente mantém em fluxo o ciclo da vida e sabe que dar o cu só é divertido quando o/a crush não tem nojinho de corpo humano. A gente sabe que quem tem língua vai à Roma e também que nada é mais feminista que a pluriversalidade do tesão pansexual. 

Estamos aí, o esforço é real. Tamo tipo Black Alien: querendo mais e melhores blues. 

Agora os caras, mano, os caras ainda estão achando que masculinidade saudável é descongelar a geladeira. Isso dá pra começar a fazer aos nove anos entre o dever de casa e o desenho animado!

Mulheres querem ser bem tratadas, mas não é possível que isso seja uma exigência que depende do seu gênero ou da sua orientação sexual — ou sei lá que porra. Isso é um princípio básico. Sério mesmo, pega essa dica: todo mundo quer ser bem tratado, inclusive esses seres vivos identificados socialmente como “classe feminina”. Então é lógico que o que você fala, como você fala, o que você faz e o que você oferece, no geral, conta muito. Mas nada disso conta mais que a satisfação plena da nossa xereca. Tipo, até tem aquele lance todo do dinheiro, claro. Às vezes o cara não te come tão bem mas ele tem dinheiro e algum nível de generosidade ou consciência do tesão súbito, quase incontrolável, que a maioria das mulheres tem no poder. Principalmente mulheres pretas, porque nós somos matriarcas, queremos sempre o melhor para nós e nossas famílias, sabe. E a Amélia… mó vacilona! Não me representa. Mas daí a achar que isso não tem ligação direta com a tal das 8 mil terminações nervosas do clítoris é ser muito ingênuo. Mr Catra, há mais de 15 anos, já tinha percebido que “calcinha babadinha quando sente cheiro de gasolina” e, embora o assunto tenha seguido o rumo do capitalismo, o lance principal aqui é que eu e mais um bonde que eu conheço e troco ideia já tem tudo  30 anos Queremos caras que trepem bem, não é, meninas? Viu? Todo mundo fez que sim com a cabeça.

Depois do auxílio luxuoso do funk, que botou a putaria de volta no lugar de onde ela nunca deveria ter saído — a boca do povo — e também da insistente campanha desenvolvida por mulheres funkeiras com suas danças e letras insubmissas — que ensinaram as feministas brancas que gozar é fundamental ao bom funcionamento do plano de alternância de poder — os homens decidiram, tarde mais ainda em tempo, que chupar buceta é bom; que não precisa ficar com uma língua dura e louca; que velocidade e ritmo são coisas que se complementam e se alternam em harmonia e isso, de fato, é uma vitória para nós que curtimos sentar numa piroca dura. Mas ainda falta muito.

Embora exista um esforço masculino, o atraso deixa a faca da impaciência afiada e ainda tem esses memes que me provam que os caras estão bem confusos.

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Vou confessar aqui pra vocês que sou ligeiramente bagunceira, e claro que se um cara chegar na minha casa e lavar as pilhas de louça que o combo maconha + Netflix + escrever umas doideras e ouvir umas músicas ajuda a acumular, eu vou ficar contente. Mas  nem por isso vou colocar ele como a última rola do mercado.

Acho sinceramente que o que, de fato, envolve uma mulher é a capacidade de ser inteligente em todos os sentidos, inclusive no sexo. O jogo do sexo é completo e envolve o romance e o ritmo e a sintonia, mas a criminalização do desejo e o sentenciamento do prazer, ao lado do racismo, são os pilares pra maioria das dores da sociedade.  Então não venha me dizer que um cara esfregando um vaso sanitário com uma esponja cheia de cloro é o que mantém o fogo da minha xereca aceso. 

Fogo nos machistas.

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