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Cinema e Pensamento. Capacitação Profissional Para a Nova Demanda no Audiovisual

Cinema e Pensamento. Capacitação Profissional Para a Nova Demanda no Audiovisual

Em meio à crise pandêmica e à resistência na luta pelos direitos humanos da população negra no país e no mundo, o Centro Afrocarioca de Cinema Zózimo Bulbul, referência do cinema negro no Brasil, lança um curso gratuito e online.

As inscrições chegam de todas as partes, até mesmo do continente africano, o que é inédito para o Instituto. Cinema e Pensamento: Narrativas Negras (link: http://afrocariocadecinema.org.br/chamada-publica-cinema-e-pensamento/) é o nome do treinamento que tem as inscrições abertas até dia 15 de junho, voltadas para profissionais do mercado com trabalhos comprovados em diferentes linhas de atuação audiovisual: roteiro, direção, direção de fotografia e realização.

Quem trabalha de frente na organização do curso é a Janaina Oliveira ReFem, cineasta, coordenadora de formação no Centro Afro Carioca de Cinema Zózimo Bulbul e no Encontro de Cinema Negro Brasil, África, Caribe e outras Diásporas.

Para ela, estar isolado é apenas mais um desafio. Na verdade, um desafio que abre caminho para questionamentos. É que a iniciativa do curso tem a ver com duas perguntas: O que mais estamos consumindo neste isolamento? Quantos destes conteúdos são de autoria ou com pessoas pretas como cabeças de equipes destas produções?

“Esta qualificação é fundamental, pois temos um mercado pulsante e em expansão para as criações audiovisuais, sobretudo as que atendam às pessoas pretas e periféricas de forma não pejorativa”, ressalta Janaina.

Para o Centro Zózimo Bulbul, a qualificação é uma resposta às instituições que fecham as portas. “As grandes produtoras e canais de TVS justificam a não contratação de pessoas pretas com o pretexto de que não há qualificação para a contratação. Vamos qualificar profissionais com mestras/es que são referência no audiovisual”, afirma ela.

Desenvolver um curso prático inteiramente online inclui muitos desafios, mas como Janaina destaca, “para nós, pessoas pretas, viver já é o maior desafio, seguimos nos adaptando”. Ela também fala sobre o crescimento no nível técnico da produção audiovisual no Brasil. “Eu sou da época em que ainda se filmava com película, acompanhei a entrada da Mine DV e agora os HDs. Posso dizer que hoje, por conta da democratização do acesso imediato à informação, a produção audiovisual no país deu um salto de enorme de qualidade, quando nos referimos à técnica. Hoje é possível ter aulas online com profissionais de ponta do mundo e acompanhar o lançamento de tendências dos novos equipamentos e softwares do mercado. Eu particularmente amo isto”, diz ela.

Janaina Oliveira ReFem é um nome de peso. Além das ocupações já citadas, ela é CEO da JOR Produções, produtora audiovisual especializada em cultura afro-brasileira e periferia e mestranda em Cultura e Territorialidades pela UFF, onde realiza pesquisa centrada na reflexão sobre as mulheres negras diretoras de cinema no Rio. Para ela, por mais que seja possível que roteiristas brancos desenvolvam tais narrativas com a sensibilidade e profundidade necessária, é muito difícil de encontrar tais produções. Ela mesma nunca conheceu.

E por falar em nome de peso, que time que pesado! Cinema e Pensamento é um curso de verdadeira maestria, reunindo profissionais como Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Joel Zito Araújo, Mariana Jaspe, Janaina Oliveira, Jeferson De, Sabrina Fidalgo, os Irmãos Carvalho, entre outros.

“Estamos muito felizes com cada aceite deste desafio. O virtual não é um ambiente de conforto para nós. Amamos olhar nos olhos, conversar em roda, abraçar. Os desafios técnicos serão muitos, mas montamos uma equipe de profissionais capazes para enfrentar qualquer problema e garantir um melhor ambiente de aprendizagem para as/os profissionais e mestres envolvidas/os nesta qualificação. Iniciando pela equipe de comunicação que está garantindo que a notícia do Cinema e Pensamento chegue a todo país”.

Os cursos oferecidos no Cinema e Pensamento falam sobre o aprimoramento do olhar profissional para as produções. “Não vamos ensinar ninguém a fazer, e sim a dialogar sobre o porquê fazer, ou como fazer sob a nossa ótica, que não é ensinada em nenhuma outra faculdade ou escola de cinema que eu, Janaína, conheça”, ressalta ela. “É um curso que traz as nossas referências. Cada curso traz várias/os mestras/es que vão compartilhar com a turma uma diversidade de formas de fazeres pretos, para que estas/es profissionais se encontrem através das múltiplas formas do fazer audiovisual preto”.

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Janaina não acredita que a especialização em cinema negro seja vista como um limitador para o jovem cineasta em uma indústria embranquecida. Pelo contrário. “Já somos qualificados para trabalhar na indústria/mercado que está posto. Partimos das referências embranquecidas do audiovisual como: iluminação da pele clara, contar histórias onde os corpos pretos não cabem ou, quando cabem, são estigmatizados, isolados e/ou sem protagonismo”, diz ela. “A questão é que há uma demanda real de conteúdos que reflitam a “diversidade”. O mercado está entendo que se a diversidade não se refletir a partir de suas cabeças de equipes, este conteúdo não será “validado” pelo consumidor”.

É aí que nós entramos.

(O curso é uma parceria entre Centro Afro Carioca de Cinema Zózimo Bulbul, Odun Produções e CTAV. Será ofereceido pela plataforma Zoom e terá início no dia 22/06.)

 

Coluna CineVolp.

 

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