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“Brasil Tumbeiro”: livro do ex-goleiro Aranha destaca heróis e heroínas negros que foram essenciais no desenvolvimento do Brasil

“Brasil Tumbeiro”: livro do ex-goleiro Aranha destaca heróis e heroínas negros que foram essenciais no desenvolvimento do Brasil

Goleiro Aranha

Apesar do acesso quase irrestrito à informação, os fatos mais importantes da história do negro no Brasil ainda não chegaram ao conhecimento da maioria dos brasileiros. Muito do que foi – e tem sido – compartilhado até aqui, inclusive nas escolas, não refletem os reais acontecimentos dos mais de 300 anos de escravidão. Ao longo dos séculos, aconteceram vários movimentos para apagar, manipular e até embranquecer esse passado, que não ficou reduzido ao cativeiro e submissão. Diversas tentativas deram certo, mas pouco a pouco a verdade está vindo à tona com o trabalho de historiadores, pesquisadores, intelectuais, acadêmicos e escritores. A mais “recente” delas é a revelação de que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, era preto. 

Na intenção de também contribuir, principalmente no aprendizado dos jovens, e resgatar nomes de heróis negros (quase nunca presentes nos livros escolares), o ex-goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, escreveu o livro “Brasil Tumbeiro” (editora Mostarda). “A ideia de fazer um livro escolar infanto-juvenil veio quando percebi que a maior parte da população brasileira não conhece a história da escravidão no Brasil. Então, pensei em recontar esta história de uma maneira mais justa”, diz ele à AUR. 

Entre os (populares) “boleiros”, Aranha se tornou um dos poucos a falar abertamente sobre racismo no futebol. No esporte mais praticado e apreciado no país – e provavelmente com o maior número de atletas negros e originários de periferia -, o assunto não é tratado com a devida importância pelos cartolas, clubes, federações, técnicos e especialmente por quem está dentro das quatro linhas. “Dois dos principais fatores pelos quais jogadores de futebol não têm um grande engajamento ou posicionamento é por que não conhecem a história (por isso a importância do livro), e por não terem apoio, podem colocar seu futuro e de sua família em risco”, afirma. “Todo bom exemplo é válido, porém, só existirá atletas com capacidade de se posicionar e formar boas opiniões quando o estudo e a informação fizerem parte da vida dos jovens de hoje. Eles são os futuros ídolos do amanhã”.

capa do livro

Esse não é um problema exclusivo da modalidade, faz parte da estrutura social. Os ataques racistas que Mário foi alvo durante a partida entre Grêmio e Santos, em 2014, demonstra que a raiz desse mal é mais profunda do que se imagina. Naquele jogo, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, torcedores do time gaúcho chamaram o goleiro de macaco e em alguns momentos imitavam os grunhidos do animal. O caso ganhou repercussão nacional, gerou um debate no meio esportivo, o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) decidiu excluir o Grêmio da Copa do Brasil, e alguns torcedores foram punidos, mas não enquadrados no crime de injúria racial (que prevê como pena, a reclusão de 1 a 6 meses ou multa.). 

Depois que a poeira baixou, todos os envolvidos no futebol pouco fizeram para discutir o tema racial com seriedade. E como ocorre na maioria das vezes, a vítima se “tornou réu”. Mesmo conquistando com o Santos a Libertadores da América (2011) e a Recopa Sul-americana (2012), a Copa do Brasil com o Palmeiras (2015), ter sido considerado duas vezes o melhor goleiro do Campeonato Paulista, defendendo a Ponte Preta (2008 e 2017), e receber o Prêmio Direitos Humanos (2014), do Governo Federal, o atleta viu sua carreira ser “prejudicada” por defender o que acreditava. Até chegou a recusar convites de programas esportivos, porque o que sobressaia não era o trabalho embaixo das traves, mas o lamentável episódio no Rio Grande do Sul. Apesar disso, manteve o posicionamento que sempre fez parte da sua vivência.

“O racismo no futebol é uma sequela da sua origem como esporte elitista e extremamente racista, mas dentro de campo (entre os jogadores) quase que não existe. Por fazer parte do movimento Hip Hop dos anos 90 eu já tinha uma consciência e uma postura diferente dos outros jogadores”. 

Unindo os conhecimentos adquiridos no rap e na cultura Hip Hop com as pesquisas feitas após a aposentadoria em 2018, quando jogava no Avaí Futebol Clube, em Florianópolis, Mário Aranha escreveu o livro para mostrar a potência de personalidades negras que a eugenia, o racismo estrutural e a desigualdade deixaram na escuridão para privilegiar a servidão e o sofrimento. É uma forma também de afirmar o quão pretos e pretas foram – e são – essenciais para o desenvolvimento do país nos diversos setores da sociedade – e não somente pela força braçal.

 

Aranha na entrega doPrêmio Direitos Humanos (2014)| Roberto Stuckert Filho/PR

 

Nas 120 páginas, que têm ilustrações de Eduardo Vetillo, o autor joga luz na trajetória de Antônio e André Rebouças, Frente Negra Brasileira (FNB), Virgínia Bicudo, Juliano Moreira, Teodoro Sampaio. O seu objetivo é fazer ecoar a voz dessas personagens para incentivar e inspirar a juventude na transformação da realidade do país, um tumbeiro (como era chamado o navio negreiro) moderno, onde as maiores vítimas do encarceramento e da violência – inclusive por parte do estado – são negras.

“Eu já conhecia muitas histórias e personagens. Isso facilitou minha busca de 2 anos juntando o material, e mais um ano e meio de trabalho com a editora para que ficasse um livro de poucas páginas, mas com conteúdo suficiente para servir como referência aos que queiram se aprofundar no assunto”, observa. “Entre eles, destacaria José do patrocínio. Me identifico com a disposição e a vontade dele querer ser e fazer mais de uma coisa, principalmente de vencer em áreas diferentes”.

Inspirado na vida do jornalista, escritor, orador, ativista político e um dos nomes mais importantes do movimento pelo fim da escravidão, Mario Aranha dá continuidade na sua missão fora dos campos. José do Patrocínio também será o protagonista da próxima obra literária dele, que ainda vai levar algum tempo para estar nas prateleiras. Sobre fazer um livro de memórias, o agora escritor diz que “não produzi o suficiente para que as pessoas tenham interesse em saber sobre minha vida”. Porém, o posicionamento dele e o caminho trilhado dentro e fora dos gramados provam o contrário. Inspiração não falta.

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Veja a entrevista do Aranha no Recultura

 
 
 
 
 
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