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Black Pantera: “É uma honra imensa ser um agente de voz do povo preto”

Black Pantera: “É uma honra imensa ser um agente de voz do povo preto”

A Black Pantera é uma banda de rock pesado de Uberaba, Minas Gerais, que vem chamando cada vez mais atenção no Brasil pela qualidade musical e, principalmente, por causa do ativismo em prol da causa negra. Mas para chegar onde está hoje, sendo uma das atrações do Palco Sunset do Rock In Rio, Charles Gama, Rodrigo Pancho e Chaene da Gama tiveram que (como se diz popularmente) “rasgar a boca” para conquistar seu espaço.

Antes de receber o reconhecimento devido no Brasil, o “power black trio” primeiro fez seu nome fora do país de uma forma despretensiosa. Na cara e na coragem, a Black Pantera ganhou destaque tocando nos festivais do Afropunk. Isso foi essencial para que as portas fossem abertas na Europa, Estados Unidos e, três anos depois, por aqui – uma problemática recorrente para artista que estão “fora dos padrões do mercado”.

Via Zoom, Charles e Chaene contam à AUR os detalhes de toda a saga que fizeram na França e na terra do Tio Sam, e também falam sobre as bandeiras que defendem, os recentes singles “Padrão o Caralho” e “Fogo nos Racistas”, o terceiro álbum “Ascensão” e o convite do RIR. “[…] véi, pra gente é pesado… acho que quando o Charles começou a banda, ele nem imaginava isso. Parecia impossível”, observa Chaene. “Meu pai pergunta até hoje: “vocês vão tocar lá mesmo?” Isso porque tá todo mundo meio que sem acreditar. É um rolê que não dá nem pra descrever, ainda mais que a gente conseguiu colocar o Devotos, outra banda preta que é referência”.


O nome Black Pantera é em referência direta ao partido dos Panteras Negras?

Charles: Total! Quando eu montei já tinha a percepção de que seria uma banda preta. A ideia era ter uma imagem forte e um nome forte. Eu estava numa parada de ler muito, ver filmes e documentários sobre os Panteras Negras… estava assistindo muito Malcom X na época. E aí, eu não ia colocar Pantera Negra porque não ia rolar, mas eu precisava de alguma coisa próxima a isso. Sem pensar muito no exterior, eu decidi colocar Black Pantera como forma de homenagear várias coisas: a pantera que é um símbolo de resistência negra, e a palavra black, que já diz muito por si só. Então, pensei em unir esses dois nomes como uma forma de reverenciar, e estar próximo dessa galera. No começo ainda era Project Black Pantera, porque a gente não sabia se ia ou não virar. 

O rock tem diversas vertentes, inclusive dentro das  mais pesadas. Como vocês definem o tipo de rock que fazem?

Chaene: Cara, a gente não consegue rotular a parada, porque são diversas influências de todos os lados. Então, na mesma hora que tá Trash, a gente tá Punk, tá Hardcore, tá groove, tá o baixo num lance mais suingado e a batera vem junto. Quando eu ouvi o primeiro som que o Charles fez, eu já queria destoar um pouco do que ele fazia na guita. Queria fazer algo que colasse harmonia e a percussão, que é o dever do baixo. E aí acabou que eu me senti muito livre, diferente de outros projetos em que o baixo é só mais um instrumento que tá ali pra dar a cama e fazer a pressão. Aqui no Black Pantera consigo trabalhar muito bem essa questão de fazer linhas mais fluidas e criativas. Isso é um diferencial da banda. Por isso, nós mesmos não conseguimos nos rotular. Até tem uma frase numa música que diz “não vem nos rotular, não vem nos enquadrar”. É um pensamento crítico total pra gente ser o que é: livre. Pegamos um pouco de cada coisa, misturamos, colocamos no forno e saiu o Black Pantera. As pessoas já identificam o nosso som. Esse crossover é bem doido.

Eu conheci o trabalho de vocês através de publicações do Afropunk. Depois vi o nome da banda nos line ups de algumas edições do festival que eles fazem ao redor do mundo. É impressão minha, ou de fato o Black Pantera primeiro ganhou notoriedade lá fora para depois ser reconhecido aqui no Brasil? E como aconteceu esse caminho de ida e volta?

Charles: Na verdade tudo isso começou com um e-mail que eu enviei para o Afropunk…

Chaene: Não foi e-mail. Foi um inbox…

Charles: É! Foi uma mensagem no Messenger do Facebook. Eu sigo eles a muito tempo, e um dia mandei uns sons que a gente tinha gravado. Despretensiosamente, enviei a mensagem achando que eles nem iam responder. Daí, quatro dias depois fomos marcados no Facebook… eu estava até numa lan house, e chegou uma mensagem: “o Afropunk te marcou”. Quando abrimos tinha uma review muito massa, do Nathan Leigh, que é um dos colaboradores e se tornou um dos nossos amigos ao longo dos anos. Ele  escreveu falando super bem sobre três músicas… a partir dali a gente já começou a sonhar algumas coisinhas, mas nada sério. Eu mesmo fiquei empolgado na hora, e depois deixei pra lá. 

Chaene: A nossa página na época tinha 300 pessoas, era pequenininha, a gente tocava só na região. E aí, o post teve mais de mil curtidas, isso foi há mais de oito anos… Eles pegaram a mensagem e disseram:” essa banda aqui é do Brasil, disseque-a”. E o cara fez isso. Depois da publicação, mais de mil pessoas começaram a seguir a banda no Facebook. A partir disso falamos: “a gente tem alguma coisa, vamos investir”. Lembro que o Rodrigo quis investir num clipe, aí vendeu bateria, vendeu prato… e gravamos um clipe melhor, que é o de “Bota pra Fuder”. Esse eles (o Afropunk) também pegaram e resenharam. Na sequência, mandamos uma mensagem para agradecer, e foi aquele copia e cola do Google Tradutor. E assim foi, em 2014, a partir disso a gente foi trocando ideia com os caras e rolou o convite pra tocar na França. Colocaram a gente no Afropunk Paris 2016. Aí, é outra história, porque a gente nunca tinha viajado de avião, a gente não tinha passaporte, nunca tinha tocado em BH, São Paulo… só tinha tocado na região de Uberlândia, Araguari (num raio de 150 quilômetros). Eu lembro que o cachê não pagou todas as despesas, mas metemos o louco. O pai do Rodrigo, o saudoso senhor Derli, que faleceu no ano passado, dividiu tudo lá na CVC em 12 vezes. A gente ficou com uma conta enorme pra pagar. Mas fomos. Uma fã nossa que é booker, arrumou mais três shows pra gente. Foi um misto de sensações. No festival, a gente tocou 25 minutos, só que foi catarse total. Entregamos tudo o que tinha. E naquele mesmo ano, a gente conseguiu tocar no Download, que é um festival de rock francês, porque viram a gente tocar no Afropunk. Tocamos no dia do Slayer, do System Of Down, Linkin Park… conhecemos o Tom Morello. E detalhe, a gente só tinha 3 anos de banda, correndo muito para as coisas desenrolar no Brasil, mas a partir daí tudo deslanchou.

Depois também, vocês tocaram no Afropunk Brooklyn, né!?

Chaene: Esse foi um outro trampo pra tirar visto. Mas a gente conseguiu na última hora. Fechamos o trampo, confirmamos, só que a correria para conseguir o visto foi insana. O processo foi brutal, porque a gente poderia ser negado. Tocar no Brooklyn foi fantástico, e aí sim as coisas começaram a andar no Brasil. Viajamos para fora 3 vezes para as coisas começarem a caminhar no Brasil.

“[…] a partir do momento que a gente começou a tocar e as pessoas se identificarem, as músicas foram saindo naturalmente, e muito mais que isso, a atitude e o ativismo, na hora que a gente sobe no palco temos a chance de falar pelos nossos.”

É um processo que acontece com vários artistas que fogem do tradicional. Primeiro estouram lá fora para depois ganhar reconhecimento por aqui. Depois de chamar atenção lá fora, como está a aceitação da música de vocês dentro do rock brasileiro?

Charles: A coisa começou andar bacana. A gente conseguiu ter contato com pessoas do circuito mainstream de festivais. Começamos a ganhar um nome, e hoje em dia é até legal a gente pensar assim, porque não acredito que o metal e a música pesada estão em baixa. Quando você começa a viajar, como nós começamos a rodar pelo Brasil em festivais diversos, observamos a força da música pesada nos lugares. As pessoas gostam, e é legal quando acontece misturas de estilos. O Black Pantera conseguiu entrar muito bem em diversos festivais. A música pesada foi tão empurrada para as profundezas, que você não vê mais na televisão. A gente tem hoje o Spotify e outros streamings, mas sabemos que a televisão tem uma força muito grande. É legal ver a dimensão que a banda está tomando. Com o tempo, a gente está aprendendo a lidar com isso. Hoje até quem não é fã de metal curte a banda por causa do discurso, por causa da letra ou pelo show empolgado. Hoje em dia, a gente começa a pensar o quanto o acesso se tornou mais fácil pra gente. Mas o quanto o corre foi foda pra chegarmos até aqui. Pensa numa dificuldade para pagar os boletos da viagem! É muito gratificante ver o quanto a música tem chegado e não só na galera do metal. Está faltando bandas que botam a cara a tapa assim. Normalmente quando acontece essas atrocidades do dia a dia,  a violência, o racismo, a xenofobia, a homofobia… os nazistas que estão muito em alta hoje em dia. É importantíssimo perceber o quanto a banda é maior que o som que faz, e a gente tem que ter um cuidado e um carinho. E as conquistas musicais, elevam a conquista pessoal. 

Chaene: O lance que pega muito é que o Brasil é muito grande e existem diversos festivais, e a gente conseguiu (através do Adriano Ministro) tocar com uma variedade de artistas que não são do rock. Você tocar num festival de metal, de hardcore, cabe pra carai, e nós gostamos de fazer, mas tocar junto com outros estilos e trazer uma galera que nunca escutaria o seu som no Spotify, e conseguir trazer isso, é lindo. A gente gosta de tocar, e conseguimos. Mas foi depois de muito ralo na gringa, que a gente começou tocar por aqui..

O Charles falou de discurso, e eu acompanho vocês nas músicas e nas redes. O discurso é sempre contundente, bate de frente mesmo, e traz uma essência que vem do punk, vem das ruas, e tem uma certa influência do Hip Hop. É interessante como vocês conseguem abraçar tudo isso e fazer um movimento de chamar geral para o combate. Vocês trabalham além da música. Levam a experiência pra vida real. Como é essa, digamos, militância…

Chaene: Não deixa de ser um ativismo. A banda já é ativista no nome. Aí, entra três negão (caralho, mano)… então, já é resistência ao extremo. É um ponto fora da curva por ser de Uberaba, Minas Gerais, que é uma terra extremamente sertaneja, voltada para o agronegócio. E a partir do momento que a gente começou a tocar e as pessoas se identificarem, as músicas foram saindo naturalmente, e muito mais que isso, a atitude e o ativismo, na hora que a gente sobe no palco temos a chance de falar pelos nossos. A parada não tá legal, não tá massa, tá foda (há 520 anos). Se a gente conseguiu chegar é porque tinha algo. O primeiro disco vem de uma forma punk, de uma forma descompromissada, mas o segundo (“Agressão”) veio com uma outra pegada, porque  a banda foi começando a rodar, tocar, entender, ler e saber o espaço que tinha, o quão era difícil ocupar esses espaços e aí o “Agressão” vem com “Taca o foda-se”, que é uma música que fala de preconceito. O  terceiro disco não tinha como. Antes da pandemia, o Charlinho trouxe “A Carne”, da Elza Soares. Essa música, ao vivo, é uma verdade universal. O trecho “a carne mais barata do mercado é a carne negra” seria suficiente pra galera entender qual é a mensagem que precisa ser dita. Fomos escravizados por 400 anos, e hoje o sistema educacional brasileiro não conta essa história. Essa mitologia da democracia racial, que o Brasil é um país que super aceita o outro, que aqui todo mundo vive junto é uma mentira. É tudo maquiado. Racismo estrutural e institucional fudido na nossa cara, matando os irmãos aí. Então, a partir desse momento a banda começou a ficar maior que nós três, começou ficar maior que a música, virou um movimento. Tipo, “Fogo nos Racistas” é um puta som com um monte de referência da cultura black no mundo, e penso que quando a gente puder tocar ao vivo vai ser catarse, porque é uma música que ao vivo… pega um festival lá no nordeste, centro-oeste, tenho certeza que quando tocar a galera vai entender, porque a mensagem dá um soco na cara.

Foto: sete77sete

E esse convite para o Rock In Rio, receberam com surpresa?

Chaene: Cara, esse rolê é outro rolê monstro, que a gente sabia que estava no radar de uma galera… e pra você ver, a gente foi convidado em dezembro de 2020. Seguramos a informação até 2022. Sabe o que é estar parado aqui (na garganta). Tinha contrato de confidencialidade, e não podia falar pra ninguém. Os caras falaram: “vocês estão dentro, bem-vindos à família Rock In Rio”. Quando o e-mail chegou, falei: “puta que pariu, vou printar isso aqui e jogar nas redes”. Mas só podia divulgar quando eles autorizassem. Então, véi, pra gente o peso… acho que quando o Charles começou a banda, ele nem imaginava isso. Parecia impossível. Meu pai pergunta até hoje: “vocês vão tocar lá mesmo?” Isso porque tá todo mundo meio que sem acreditar. É um rolê que não dá nem pra descrever, ainda mais que a gente conseguiu colocar o Devotos, outra banda preta que é referência. Assim, a gente tinha que convidar alguém para o projeto. A gente colocou um monte de gente, Djonga, Tom Morello e o Devotos de Pernambuco, que a gente acha do caralho. Aí o Zé Ricardo, curador do Palco Sunset, que tem um tino muito forte e falou: “cara, o Devotos é foda, e é uma banda punk antiga, vocês são uma punk de agora, e colocar dois power trios no palco vai ser foda”. E aí, eu tive a felicidade de ligar para o canibal para perguntar: “Canibal, qual que é o seu sonho?” Aí, ele respondeu: “Não sei, cara, a gente está aí na luta, mas eu sonho tocar no Rock In Rio’. Falei: “Então, você vai tocar, mano. To te falando que o Black Pantera vai tocar e a gente tá convidando vocês”. E ele não acreditou também [risadas]. Então, você vai ter duas bandas pretas abrindo o festival inteiro. O evento começa dia 02, e nós somos as primeiras bandas. Os primeiros acordes, as primeiras vozes, os primeiros gritos vai ser o nosso. Ainda tem o Living Colour no dia. Esse é um momento surreal de tamanha representatividade para a música preta brasileira, para o rock n roll nacional, o rock n roll que é preto. Vai ser foda.

No Brasil, o número de bandas de rock pretas, principalmente no rock pesado, é quase nulo. Para aqueles que não conhecem, como é o impacto de verem três pretos ali no palco?

Charles: É sinistro demais. No começo da banda chocava mais ainda, e a gente já passou pelo famoso racismo velado, que os caras fazem piada achando que a gente ia tocar pagode (nada contra o pagode). Mas hoje em dia, o alcance é muito bom, porque a gente tem um conceito de banda maior. Antes eram só três moleques pregando o pau, agora tem um profissionalismo e o show é visceral. Então, quando o cara tá no festival e não conhece… de repente sobem três pretos e um cara mascarado. Dois negão grande na frente com o  instrumento e bota aquela distorção, já chama a atenção por mil conteúdos. A figura da banda é muito chamativa. O show é chamativo. Mesmo que o cara não goste, ele vai olhar por uns dois minutos pra ver o que é. E nesses dois minutos a gente já entra com tudo, de sola, sem perdão. Aí, você acaba conquistando uma galera. No show é onde a gente pisa macio, o negócio fica muito foda. 

Chaene: A gente tocou no Mus, que é um prêmio de música em São Paulo, e o Clemente (Inocentes / Plebe Rude) estava lá. Ele faz parte total da cena rock preta no Brasil. Tinha muita gente nesse festival… a galera do Capital Inicial. Eu lembro que o Dinho Ouro Preto chegou pra falar com nós depois. Quando ele chegou, a gente estava tocando. O som tava muito bom e ele falou: “cara, eu entrei e recebi um esporro tão grande, que eu fiquei me perguntando: “que porra que é essa?” E a gente estava realmente tacando pau. Hoje, a gente conversa sempre… o Silvio Almeida, que é um dos maiores filósofos desse Brasil, também sempre manda mensagem, manda uns ‘trem’,  e ele manda algumas coisas pra gente ler e assistir pra estarmos mais preparados. É um cara que veio do punk e era guitarrista. Ele disse que quando tiver em São Paulo ou no Rio e a gente tiver tocando, ele quer fazer uma jam com nós. Mano, essa é a meta. 

 Bad Brains é a maior referência de vocês?

Charles: É uma das… tanto em composições quanto nos shows. Eu assisto CBGB até hoje. Aquele show do Brad Brains é lendário. É uma inspiração constante em todos os momentos, desde o começo da banda. Se for pegar como referência, a gente queria misturar o peso do Living Colour no metal com o punk do Bad Brains, e aquele suingue do Devotos. A gente consegue dizer que essa soma é muito importante, principalmente pra mim que estava engatinhando na guitarra (eu ainda engatinho muito), mas a minha noção de riff poderoso com poucos acordes é desse pessoal do Bad Brains. 

Chaene: Foi até bom você tocar no assunto… Hoje a gente é capa de uma playlist do Spotify que chama black metal, que é uma lista com bandas pretas do mundo todo. E isso pra gente é um orgulho imenso. Tem três músicas nossas lá, junto com um monte de banda gringa foda.

Capa do Álbum Ascensão | Foto: Vitor Balde

Falando do disco… pela capa dá para ter uma ideia do que podemos esperar. Mas quero saber de vocês como ele vai chegar!

Chaene: A capa foi um trampo. Ficamos  uns quatro meses caçando. A gente tinha o conceito, mas não conseguia achar uma imagem que traduzisse a ideia. E aí, o Rafa, achou essa foto do Vitor Balde, que ficou dois meses no Continente Africano. Olhamos e falamos: “é essa!” A Ana e a Carolina são moçambicanas, e estão protegendo uma criança. “Ascensão” é isso. É essas duas mulheres negras, fortes, prontas para proteger esse rei, príncipe ou princesa que está ali. O disco era pra ter sido gravado em março de 2020 depois da nossa turnê em Portugal. Íamos voltar e ir direto para o Rio gravar. Aí fecharam as fronteiras, COVID-19, o mundo parou, a gente foi gravar o disco só em outubro e ficamos 13 dias trancados produzindo. “Padrão o Caralho” e “Fogo nos Racistas” são os carros chefes. O título do álbum é Ascensão porque representa o levante do império preto, essa retomada, porque ultimamente as lutas identitárias têm sido massacradas por esse desgoverno. E o preconceito continua tão latente em todas as esferas. Então, é um disco que vem para bater de frente sobre todas essas questões.

A gente acha que as coisas vão melhorar, mas só piora. Todo dia tem uma pessoa preta sendo morta e “confundida”. Esse disco vai chegar com essa contundência, de bater de frente com a realidade que a gente está inserido?

Charles: Tá bizarro o negócio! A gente serve de tudo e mais um pouco. Tem vários conteúdos, mas é impossível o Black Pantera não falar sobre isso. O álbum vem recheado com essas letras diretas. A gente vai sempre dar voz a essa luta contra esse tipo de coisa que está acontecendo. Você ouve o rádio, vê a televisão e surta, porque toda hora é alguma coisa. Assassinatos que a gente não entende nada, vizinhos dando o tiro no outro achando que é bandido, outro é morto porque foi cobrar o dinheiro dele. Isso é terrível. O álbum vem falando sobre essas questões de violência, de racismo, contra a xenofobia, mas também vai ter músicas só pra quem quer curtir. Mas assim, a gente não pode deixar nunca de dizer que o Black Pantera está ali para colocar o dedo na ferida. Se precisar, a gente briga com o governo, com os ideais babacas de alguns amigos. A gente está aí pra somar de alguma forma com a nossa música. 

Chaene: Por mais que nos seja mostrado, as coisas estão acontecendo diariamente. Os nazistas mesmo estão se organizando de uma maneira brutal. Então, precisa ser dito, discutido e combatido. É uma honra imensa ser um agente de voz do povo preto nessa luta. Estamos aí pra jogo, não arredamos o pé e fogo nos racistas literalmente. 

Até tem aqueles que vieram no discurso: vocês pregam a paz e o amor, mas gritam fogo nos racistas né!?

Siiiimmm!!

Só que esse também é um modo de sobrevivência. A gente fica com medo até de sair na rua depois de ver o noticiário.

Chaene: É um rolê pesado.Tão matando por achismos. É loucura, como se a nossa cor fosse aterrada, propensa a isso. Tipo: o cara é preto, ele é bandido! Então, porra, te fuder mano. Tem que mudar essa porra aí.

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