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Arte visual negra, moderna e brasileira

Arte visual negra, moderna e brasileira

Quando se fala em arte visual negra contemporânea, o primeiro nome que vem à cabeça da maioria é o de Jean-Michel Basquiat. Nos anos de 1980, o então grafiteiro/pixador – que assinava como SAMO – virou um fenômeno ao ser o primeiro negro a expor a arte das ruas nas grandes galerias de Nova York, Los Angeles, Zurique e Tóquio. Ganhou notoriedade pela sua forma minimalista, conceitual, singular e urbana de desenhar. Tornou-se ícone da cultura pop e referência nas mais diferentes formas artísticas.

“Tanto ele quanto o Keith Hering influenciaram as artes, o design, a moda, deixando claro que o grafite está presente na vida das pessoas de diversas formas”, afirma Oga Mendonça, Designer Multimedia, Ilustrador e Filmmaker. “Se as pessoas aprofundarem na obra dele e no contexto artístico que estava inserido naquela NYC do final dos anos 1970 e começo dos 80, tem muita coisa pra se extrair de lá. Acho interessante mostrar que por mais que ele deixasse muito evidente sua influência negra e temáticas ligada à negritude, e se tornasse um ícone pra gente, ele interagia em todos os espaços, já que todos os espaços também nos pertence”.

Décadas antes de Basquiat furar a bolha”ser cultuado pela crítica, cair nas graças do público, colecionadores e marcas, alguns artistas negros estadunidenses estavam se movimentando para conquistar esse mesmo espaço dentro de um setor cultural (considerado de elite) racista.

No documentário “Black Art: In the Absence of Light” (HBOMAX), produzido e dirigido por Sam Pollard, é possível ter uma visão geral de como a luta para se autoafirmar foi feita a partir da exposição “Two Centuries of Black American Art”, de 1976, organizada por David Driskell em Nova York. O filme mostra o impacto dessa exibição para além da comunidade negra com histórias e depoimentos de historiadores, estudiosos, analistas, curadores e artistas afro-americanos que fizeram parte das ações naquele período: Kerry James Marshall, Theaster Gates, Faith Ringgold, Amy Sherald e Carrie Mae Weems.

Tão representativos quanto estes, porém fora das salas de exposições, Emory Douglas estava nas ruas usando sua arte para fazer política, protestar contra o racismo e a violência policial nas páginas do The Black Panther, o jornal do Partido dos Panteras Negras, que rodou entre 1967 e 1976 em Chicago, Kansas, Los Angeles, New York e Seattle. Douglas foi um dos responsáveis pelo projeto gráfico e ilustrações do periódico. A mais conhecida delas é uma charge com porcos simbolizando a polícia opressora (os “porcos fardados”).

Reprodução | Emory Douglas retrata policiais como porcos

Apesar de não ter um “movimento organizado”, o Brasil também possui um rol de pintores/as que abriram os caminhos, mesmo que timidamente, para aqueles que hoje estão representando a arte preta do país ao redor do mundo. Em 1917, Arthur Timótheo da Costa pintou “O Menino” (presente no acervo do MASP), uma das obras que mais representam a identidade brasileira, de ontem, hoje e (talvez) sempre. A tela do pintor carioca, que fez da arte o seu ganha pão num período em que a valorização era quase nula, retrata um menino negro de pele retinta com expressão triste.

Reconhecida na Europa, Maria Auxiliadora da Silva também retratou cenas cotidianas, do trabalho doméstico e rural aos cultos de religiões afro-brasileiras e festas de carnaval. Foi expondo na Praça da República, em São Paulo, que chamou atenção por fugir dos padrões estéticos, e ter singularidade nos traços, uso de cores e temas.

A artista plástica Rosana Paulino, Estevão Silva, Renata Felinto, Wilson Tibério, Antonio Carlos Francisco Lisboa (Aleijadinho) e Abdias do Nascimento são apenas alguns de um número incontável de artistas pioneiros, que ajudaram a dar visibilidade não somente no desenvolvimento das obras, mas também na curadoria dos espaços em que elas são expostas. “Quando comecei a estudar arte e frequentar estes espaços, o nome mais em evidência era o Emanoel Araújo (artista plástico, ex-diretor da Pinacoteca e, agora, diretor e curador do Museu Afro). Hoje já temos curadores e curadoras, pretas e pretos jovens, como Diane Lima, Hélio Menezes e Jaime Lauriano, e até donos de galerias focadas em arte preta, como a Igi Ayedun”, observa Oga.

Reprodução | Tela “O Menino”, de Arthur Timótheo

Os detalhes biográficos da maioria deles podem ser encontrados no organizado catálogo do Projeto Afro, “uma plataforma afro-brasileira de mapeamento e difusão de artistas negros/as/es”, no livro “Enciclopédia Negra, de Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz (com capa assinada por Oga Mendonça) – que virou exposição na Pinacoteca de São Paulo [faça aqui o tour virtual] -, e também no Museu Afro Brasil, no Parque do Iberapuera.

Outro ponto levantado por Oga Mendonça é a lei da oferta e procura. O reconhecimento do mercado e instituições, reflete o reconhecimento e desejo do público. “A maiorias das grandes instituições de arte (pelo menos na região sudeste) já tiveram exposições dedicadas a artistas negros. Vejo um aumento visível da presença de artistas negros e indígenas em feiras mais comerciais de arte, como a última SP-Arte, por exemplo”, diz.

MOMENTO ATUAL

Focando em temáticas brasileiras, afrodiaspóricas, maternidade e o feminino, Manuela Navas faz parte de um grupo artístico moderno que tem ganhado cada vez mais força para expressar pela arte seus posicionamentos, visões, protestos e ambições, principalmente com a possibilidade de fazer reverberar ainda mais através da internet.

“Eu me apaixonei pela arte ainda na infância, de forma lúdica. Sete anos atrás eu entrei numa faculdade de química, e usei a arte como escape, porque não era o curso que eu queria”, observa. “A arte sempre foi um hobby, mas há uns quatro anos comecei a me dedicar com mais frequência e as pessoas vieram a procurar depois de conhecerem o meu trabalho pelas redes. Foi aí que descobri que isso era o que me fazia feliz”.

Assim como Navas, outros artistas afro-brasileiros contemporâneos estão representando suas realidades, conquistado espaço e entrando para o circuito mundial das artes. Na mesma linha narrativa dela, No Martins retrata nas pinturas o cotidiano, relações e também a violência sofrida por seus pares.

No final de 2019, o paulistano marcou presença na 21° Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Vídeo Brasil com três pinturas da série #JÁBASTA! Quase um ano depois, os estandartes presentes nas obras foram transformados em bandeiras para protestar nas ruas de São Paulo contra a morte de pessoas negras, reverberando no Brasil o caso George Floyd, de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado por seguranças do Carrefour em Porto Alegre, e do pequeno João Pedro Mattos, 14, baleado durante uma operação policial em São Gonçalo, no Rio.

“Já basta é um grito de guerra, pois vivemos em guerra constante e não consentimos com as barbáries que essa guerra nos traz. Já basta o genocídio da população negra no Brasil. Já basta de violência. Já basta o super encarceramento da população negra e pobre. Já basta ocuparmos as posições mais inferiores dentro da sociedade. #JÁBASTA”, escreveu no Instagram ao anunciar a participação na Bienal.

Reprodução | Tela da série Já basta, do No Martins

Aclamado ao redor do mundo, Martins expôs em 2021 a série “Encontros Políticos” na galeria Mariane Ibrahim, em Paris. Nela, o artista mostra sua visão de um futuro desejado por homens e mulheres pretas. É também da autora dele a pintura que ilustra a capa do livro “Narrativa da vida de Frederick Douglass” (2021), da editora Peguins / Companhia das Letras. No acervo do MASP, em SP, estão as telas “Senhora Injustiça” (2017) e “Principal Peça do jogo”(2018).

Quem vai por um caminho parecido, utilizando uma técnica distinta, é o carioca Maxwell Alexandre, responsável pela prestigiada mostra “Pardo é Papel”, autor da arte da capa do álbum “Gigantes”, do rapper BK, e nomeado artista do ano pelo Deutsche Bank (Banco da Alemanha). A exposição rodou o Brasil, e levou 60 mil visitantes ao Museu de Arte do Rio (MAR) em sua inauguração (2019). A ideia surgiu em 2017, a partir de autorretratos pintados em folhas de papel pardo encontradas no ateliê.

“O desígnio pardo encontrado nas certidões de nascimento, em currículos e carteiras de identidades de negros do passado, foi necessário para o processo de redenção, em outras palavras, de clareamento da nossa raça. Porém, nos dias de hoje, com a internet, os debates e tomada de consciência e reivindicações das minorias, os negros passaram a exercer sua voz, a se entender e se orgulhar como negro, assumindo seu nariz, seu cabelo, e construindo sua autoestima por enaltecimento do que é, de si mesmo”, disse ao Instituto Tomie Otake, onde também expôs a série”.

Usando a vivacidade das cores para representar a potência da mulher negra, a beleza da natureza, dos povos e dos cultos das religiões da diáspora africana, Aline Bispo também marca presença nas galerias, muros, painéis, empenas de prédios – entre elas uma no Minhocão, que tem o desenho “Salve Lélia”, – e capas de livros.

A ilustradora, design e grafiteira é autora da capa do best seller Torto Arado, do Itamar Vieira Junior, e do livro “Por um feminismo afro-latino-americano foi lançado”, de Lélia Gonzales. Além de artista visual é curadora do Instituto Ibirapitanga, criadora do projeto Museu nas Férias incentiva a democratização do acesso à arte e fotógrafa. Ela e todos os que foram citados fazem parte de um elenco de autores visuais, que tem deixado sua marca em diferentes lugares do Brasil e do mundo.

Essa lista é complementada por Mulambo, Robinho Santana, Igy Ayedun, Jaime Laureano, Michel Cena, Diego Mouro,
Calvet Arts, Panmela Castro, Samuel de Saboia, Andressa Monique, Micaela Cyrino, Kika C Carvalho, Elian Almeida, e uma diversidade de nomes.

NAS REDES

Nascido em Bangu, mas cria de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, RJ, Edu Ribeiro conseguiu notoriedade nacional publicando no Twitter e Instagram artes inspiradas nas suas vivências e no cotidiano do subúrbio do Rio de Janeiro.

“Comecei a trampar bem novo, época de escola, mas nunca achei que de fato iria seguir com isso. Como precisava fazer uma grana, quando sai da escola comecei a estudar design e me formei pagando com a grana de um estágio”, diz Edu. “

Uma das ilustrações mais compartilhadas, e a mais cara que Ribeiro vendeu (R$ 1600) foi a do ex-jogador Adriano “Imperador” com a camisa do Flamengo. Já o tweet com quatro fotos em que apresenta seus trabalhos, ele recebeu quase 300 mil curtidas e pouco mais de 42 mil RTs.

Um dos motivos é a aproximação que as artes dele tem com a realidade daqueles que o acompanham. “Eu gosto de pintar pessoas negras pela identificação e pela vivência ao meu redor. Leio bastante e gosto de misturar coisas antigas com a estética atual, retratando o cotidiano carioca o intuito de exaltar a vivência do negro carioca”.

Reprodução | Arte do Edu Ribeiro

Seguindo pelo mesmo caminho, Emerson Dias também usa as redes para fazer que o seu trabalho chegue ao maior número de pessoas. O designer, ilustrador e arte educador de Hortolândia, interior de São Paulo, desenvolveu uma identidade visual com cores quentes e formas da natureza que se fundem aos elementos do cotidiano e personalidades, como Elza Soares, Mano Brown, Rincon Sapiência, Seu Jorge.

“As redes sociais têm sido uma ferramenta muito importante para o meu trabalho, ajudando quebrar algumas fronteiras de espaço, principalmente para mim que estou localizado fora dos eixos de capitais onde geralmente o fluxo cultural tende a ser um pouco mais movimentado”, ressalta. “Em relação ao ponto de vista comercial, diria que 95 por cento das encomendas que faço surgiram através das conexões virtuais. Isso me permitiu fazer trabalhos para todas as regiões do Brasil, e também fora, como Angola, Estados unidos, Canadá, Irlanda, Bélgica”.

Apesar do virtual ser a porta de entrada para que as pessoas conheçam seus trabalhos, Dias acredita que é indispensável estar presente na rua, em feiras, exposições e palestras para criar relações mais sólidas e fugir das amarras criadas pelos algoritmos. “Eles interferem, controlam e limitam o conteúdo que chegam nas pessoas. Nos últimos anos isso tem sido um ponto negativo essa relação de arte e rede social, porque vários conteúdos importantes muitas vezes não chegam nas pessoas de forma orgânica”.

Essa é a mesma visão de Oga Mendonça. Para ele, a pandemia forçou a melhorar a relação com os espaços digitais e a comunicação através de diferentes plataformas, porém, a vivência vale mais que a visualização pela tela do celular ou computador.

“Muitas vezes você se lembra e correlaciona um artista, lembrando de um rolê aleatório que fez. Sua mente cria sinapses muito diferentes de quando você viveu no mundo presencial aquela experiência. Vou dar um exemplo prático, Toda vez que vou ao Bom Retiro, não importa para fazer o quê, eu me lembro de uma peça que vi do Grupo Vertigem, que rolava andando pelas ruas do Bom Retiro, e terminava em um teatro abandonado no subsolo da Casa do Povo. Eu poderia dar um Google e chegar nessa informação sobre a peça Bom Retiro 958 metros, poderia? Poderia até tentar ver uma gravação disso, mas certamente minhas lembranças não seriam tão profundas como a que tenho, por ter visto e partido disso ao vivo”.

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