A discordância que humaniza

Foi-se o tempo em que era aceitável achar que determinado grupo é “opinativamente” homogêneo. “Gente preta é assim”, “favelado é daquele jeito”, “mulher é daquele outro” eram frases comuns, carregadas de preconceito e desumanização. Quando falamos de pessoas negras, então, é pior. Como que 54% da população de um país do tamanho do Brasil vai pensar e agir da mesma forma? Pensar diferente é um direito, conquistado a duras penas, depois que vivemos séculos sendo vistos como não-humanos.

 

Na última semana, com o início do Rock in Rio e seu Palco Favela, eu fui taxativa em dizer que não concordo, acho um estereótipo e nada que vem do Medina é de graça. Disse mais uma vez que migalhas não me interessam, que ele só fez isso por conta de uma rixa com a Anitta dois anos antes e que se amanhã a favela deixar de vender, ele desiste.

 

Pois recebi algumas respostas. Em todas, um discurso comum era “mas tem favelado que está muito feliz com o palco!”. Minha primeira vontade era perguntar “e daí?”. As pessoas, em geral brancas, buscam aprovação externa o tempo todo para as suas “boas ações”, e não se contentam com ter apenas parte de opiniões favoráveis: elas querem todas as opiniões do seu lado. Mas isso não vai rolar. Não mais. Vale para o palco favela e também pro cantor da moda, pro livro do ano, pra marca-revelação: não existe unanimidade só porque se direciona a determinado grupo demográfico. 

 

Os pretos têm direito a criticar, apontar, julgar ruim. Quem se ressente com essa realidade é racista. Mais um pouco, sobre o motivo-pontapé deste texto, e era possível ouvir alguém dizer que “temos que agradecer!”. Não temos, não. Vai ter gente discordando, vai ter gente concordando, vai ter gente trabalhando em lugares que não concorda e gente que vai fingir que concorda só porque tem que manter o emprego. Tudo bem. Isso significa que é a trajetória e a formação de cada um que molda sua opinião, não simplesmente ser preto ou morar na favela. 

 

Uma frase que eu defendo muito é: “eu tenho que ter o direito de discordar de uma pessoa preta”, porque isso significa que eu a vejo como humana, digna. Colocar a todos nós dentro de uma redoma é contraproducente, é racista. Somos gente, também.

 

Por isso, quando preto discute tem que ter essa ideia como ponto de partida: “ampliar horizontes, nunca limitá-los”. Pois, se 100 pessoas pensam igual em prol do mesmo objetivo, o avanço é mais limitado do que 100 pensando diferente em prol do tal objetivo, não?

 

E a gente já mais que provou que não é a nossa entrar numa de limitação. A profusão de arte e conhecimento produzida e reconhecida nos últimos tempos mostra que a gente caminha muito melhor quando é plural, tem mais acessos e não busca aprovação externa porque confia no que faz.

 

Eu não gosto da ideia de existir um Palco Favela. Não por implicância, mas por saber de onde e de quem veio a ideia, por ver tantos estereótipos, por saber que daquelas dezenas de milhares de pessoas que passam ali a cada dia, boa parte tem medo de favela e de favelado. Um lugar tão plural e diverso quanto as favelas são, sendo reduzidos a barracos coloridos e a escultura de um turista branco fotografando a todos. Por que?

 

See Also

Por outro lado, acolho quem tá no corre pra trabalhar no evento, defendeu o tal palco, e  trabalhadores que estão tirando sua grana e sendo reconhecidos. É importante pra eles. Como é importante o objeto da crítica para quem critica. 

 

A gente coexistir discordando é um dos maiores atos de humanidade, depois que tentaram arrancá-la de nós. Forçar o outro preto a pensar igual é rebaixá-lo à eterna condição de “sub”.

 

“Me diz a fórmula pro tal sucesso / Já que talento não garante view / Ao menos seja verdadeiro:/ O mais perto que cês chegaram do morro / É no palco favela do Rock In Rio.”

 

Djonga – Ladrão

View Comments (0)

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Scroll To Top